(post escrito ontem, domingo, à noite, antes de dormir)
Ora, e o que é chegar se não sair de um algum lugar, deixando-o para trás por mais que muito presente, e chegar em outro novo e de peitos abertos?
Pois bem. É assim que eu chego: saindo de um lugar, de forma talvez um pouco dolorida das saudades antecipadas que eu talvez não sinta tão grande assim, e chegando – não sei se em Copenhague (Kobenhavn), não sei se em uma trilha muito nova e muito forte, e também não sei se essas duas alternativas se eliminam ou se complementam – eu acho que elas se complementam.
O importante é que chegou a hora e então, eu cheguei. Depois de um longo tempo de espera e preparação, cheguei.
--
Como eu chego?
Eu chego feliz, ansiosa, com aquele sorriso de canto de boca de quem está realizando um sonho e que não precisa ficar espalhando isso aos quatro ventos – curtir essa certeza sozinha e dividir com as pessoas que me importam de verdade me é suficiente.
Chego com um “altarzinho protetor”, cheio dos meus terços e patuás e anjos e proteção, porque fé nunca é demais e ultimamente só o que eu faço é andar com fé.
Chego com dois cadernos de anotação – o de anotações dos sonhos da Alice in Wonderland, que ganhei de uma das pessoas que é a minha inspiração, e o da Turquia, que ganhei de uma das pessoas que eu mais aprecio nesse mundo, e que me escreveu diversos bilhetinhos escondidos e espalhados nas páginas em branco do caderno.
Chego cheia de casacos e luvas, e morrendo de medo de todo esse frio.
Chego sozinha de tudo e ao mesmo tempo, muito acompanhada por muita gente – principalmente as pessoas que viram de perto meu processo (solitário) e que por isso mesmo se fazem tão relevantes na minha jornada.
Chego ansiosa e ao mesmo tempo, sem expectativas: meus planos de vida atingem abril e olhe lá, porque depois daqui eu não sei ao certo o que será de vera. E essa sensação, de estar preparada para o novo, é fantástica.
E chego também cheia, completa, radiante, porque mais uma vez de uns tempos para cá apreciei e entendi a importância de ter boas e sinceras parcerias, em quem se pode confiar. E isso – a capacidade e abertura de ter boas parcerias – me preenche, me encanta, e me surpreende de tal forma que faz uma lágrima feliz escorrer.
--
E a jornada?
Foi boa, ótima, na verdade.
O vôo da KLM é excelente.
Não vim nada quieta, na verdade, dentro dessa capacidade intrínseca que eu tenho de puxar papo e ser-puxada de papo. (Diga-se de passagem, capacidade essa que puxei da minha mãe, que por sua vez puxou da minha avó – às vezes quando eu acompanhava minha avó no supermercado em 5 minutos de fila para pesar a carne ela já tinha nas mãos o telefone de uma nova amiga e uma receita su-per-de-li-cio-sa de rocambole salgado.)
Então eu conheci o Marcino no Aeroporto de Cumbica, advogado ambientalista de Porto Alegre e professor da UFRS que estava vindo para cá no mesmo vôo que eu sentido Amsterdam;
Conheci o Pedro e o José, meus companheiros na nossa fileira de três no avião.
O Pedro é pequenino de Barbacena, tem 19 anos, faz RI na PUC-Minas, e esbugalhou os olhos quando ficou sabendo que eu estava vindo para Copenhague e depois Genebra. Mais ou menos quando eu conhecia algum veterano mega impressionante fazendo alguma coisa mega inovadora na faculdade, esses eram os olhos do Pedro me olhando. E então, ele me tratou quase que como rainha durante as doze horas de vôo e depois na primeira uma hora desembarcados em Amsterdam.
Já o José não, ele foi super simpático do mesmo jeito, mas no esquemão-europeu-cada-um-na-sua de ser. Ele é francês, filho de portugueses, que mora em Bruxelas, namora uma brasileira, e tinha vindo para São Paulo para conhecer os pais da namorada. Gentileza em pessoa, super fino, educado, mas com um português bizarro em uma mistura de sotaque francês em cima do português de Portugal.
O mais legal é ver o brilho nos olhos dos dois falando: “Nossa, você então estará em Copenhague?” Pois é. Vim para viver, ver, e fazer parte desse momento em que todos os olhos do mundo olham para cá. Mas o brilho nos olhos dos dois me ajudou a ter mais esperanças na Conferência (eu estava ficando um pouco cética nesses últimos tempos). Pelo menos a sensação que eu tenho quando falo com as pessoas é que a população em si oferece sim abertura para mudanças a favor de um mundo mais sustentável (em todos os sentidos).
Daí desembarquei e dei de cara com o Jaimito, aquele doce de pessoa, com uma plaquinha em verde-e-amarelo “Mari me Chammas!”, pulando – eu, óbvio, soltei uma gargalhada, e então todo mundo viu a cena, exatamente porque ela foi uma cena zero discreta. Beleza. Cheguei causando em Amsterdam, e encontrando um amigo do coração. Jaimito que me apresentou o seu Martin, outro doce de pessoa, e então eles formam um casal legal demais da conta que veio para Schiphol apenas para passear com as duas amigas brasileiras deles – eu e a Carol, que estava no mesmo vôo que eu, mas que eu só conheci depois, com eles. E então comemos croquete (que descobri hoje que é a fast-food típica da Holanda) e comemos uma coisa chamada “Bola de óleo”, à venda apenas em época de São Nicolau (porque na Holanda não tem Papai Noel), que não é oleosa desse jeito todo, e que é uma coisa de louco de deliciosa.
E passeamos pelo aeroporto (UM MUNDO INTEIRO CABE LÁ DENTRO, QUE TAMANHO LOUCO!), e vimos lojas, e deslumbramos. Eu só saí do aeroporto para me sentir no tão esperado outono europeu, frio para dedéu, úmido e dolorido (de “doer os ossos”, como diz a Dhê).
Então eu e a Carol embarcamos de novo, rumo a Copenhague, e fizemos compritchas básicas naquele shopping tax free coisa de louco que é o duty-free de Amsterdam. É enlouquecedor no pior sentido “senta-e-chora”: excesso de informações, de lojas, de promoções, de pessoas, aquilo lá é a visão dos infernos, é o puro descontrole, é o consumismo levado ao extremo. E é, acima de tudo, ABSOLUTAMENTE TENTADOR E DESESPERADOR QUANTO MAIS TENTADOR FOR. Ainda que me controlei e comprei apenas o proposto: uma máquina fotográfica nova (uhul) e um lápis de olho (Lancôme, sempre).
Aí a gente se separou, eu e a Carol, porque tínhamos vôos distintos para CPH, e quando eu fui para o portão do meu vôo, chuta só: conheci mais uma pessoa. Paula, colombiana, fofa, querida, acabou de morar em SP por seis meses, ama a cidade, e coincidência das coincidências, conhece um monte de gente em comum comigo! Daí eu desandei a falar espanhol com a menina e me causei o meu primeiro grande nó lingüístico da temporada (tipo responder em espanhol para a aeromoça da SAS que falou comigo em dinamarquês “no hablo dinamarquês, vos puede hablar inglês por favor?”).
--
Kobenhavn
Desde que cheguei em Kobenhavn eu tenho confiado e ponto.
Confiado que as minhas malas (que eu tinha visto em Amsterdam) chegariam em Copenhague, porque elas foram as últimas da esteira a chegar, demorou um tempão mesmo.
Confiado que o cara da 7-Eleven estava me vendendo a coisa certa – porque eu queria um chip de celular e ele me deu um pacote e eu, com aquele alfabeto, NÃO TINHA A MENOR IDÉIA se aquilo é ou não um chip de celular. Mas era.
Confiado que esse alfabeto desnorteador e essa língua estranha não serão tão estranhos assim ao longo da minha estada de duas semanas por aqui.
Confiado que a moça da informação turística poderia me ajudar a colocar o chip dinamarquês – e ela pôde mesmo me ajudar, e foi bárbaro.
Confiado que o taxista estava me levando pro lugar certo, porque ele não falava inglês e eu só mostrei o endereço e fui torcendo o caminho inteiro para estar indo pro lugar certo.
Confiado que a Ella Moltke, minha “host mother”, iria mesmo me encontrar na casa dela – e ela estava em um aniversário, saiu do aniversário, foi me pegar, e depois me levou pro aniversário com ela.
Resumo: sim, na minha primeira noite de Dinamarca fui parar justo em um jantar de aniversário.
E comi carne de veado, que a Geraa (a aniversariante fofa de tudo) cozinhou fantasticamente bem. Eu não tinha entendido que aquilo era carne de veado quando eles me serviram – mas quando estava lá me deliciando, alguém falou “This is Bambi meat you are eating, did you know?” e eu tipo Oh My God, Bambi meat, é VEADO, AAAAAAAAAAAAAaaaaaaaaaaaaa. E continuei me deliciando com aquela carne de sabor acentuado e bem gostosa.
E, óbvio, virei a atração/ET do jantar – tipo “como é tal coisa no Brasil? E sua família, vocês moram perto da floresta?” Eu juro que eu achava que tínhamos superado essa fase, mas a real é que não superamos não.
Fiquei ouvindo eles falarem dinamarquês e tentava entender, em vão, o que só confirmou minha tese inicial: eitcha linguinha esquisita essa.
E o parabéns dele é estranho: as palavras não se repetem de jeito nenhum e eles cantam uns OOOOOOOooooooooooOOOOOOOOOOOOOOoooooooo no meio do caminho. Estranho.
O bom é que estava em um aniversário dinamarquês conhecendo um jeito novo de cantar parabéns e pensando na Cami do meu coração, que fez aniversário justo hoje. Comemorei com ele, mesmo que sozinha, à distância, e em dinamarquês.
--
Quartinho
Meu quarto é grande e espaçoso e tem uma varanda (para as poucas horas de luz do dia). Ele fica no subsolo da casa, mais isolado (ponto positivo) e mais frio (ponto negativo, mas aqui tudo tem calefação e eles me deram edredon e cobertor). Pude espalhar minhas malas, pendurar minhas roupas que amassam, me organizar melhor.
Era o quarto da filha do casal, mas hoje em dia é um dos anexos do atelier da Ella, que faz umas cerâmicas modernérrimas e lindas.
O casal está super feliz de me ter aqui, e me trata super bem e ao mesmo tempo, com nada de cerimônia, o que me ajuda a me sentir em casa.
O bairro é gostosérrimo, de casas legais, e todo arborizado. E finalmente (mais um ponto positivo), fica bem perto da estação do trem que eu preciso pegar.
Aliás, já saquei que desgin por aqui é coisa séria. De casa janela de cada apê ou casa que vi do táxi chegando aqui, vi algumas coisas estilosas: um abajur diferente, um quadro, uma parede amarelo-ovo. E luz indireta é um must em absoluto – coisa que eu adoro, também.
--
Dormire
Vou-me.
Amanhã o dia será longo, mas eu vou acordar um pouquinho tarde, lá pelas 9 e meia. Preciso mesmo me recompor da viagem e do fuso.
Tenho pessoas queridas a reencontrar em Kobenhavn downtown,
Tenho um cadastramento a fazer no Bella Center.
Tenho uma agenda a montar.
Tenho um jantar aqui com a família Moltke, às 8 ou 8 e meia em casa.
Ufa.
ps.: por enquanto não tenho internet aqui, mas os Moltke vão pedir a senha do wireless do vizinho para eu usar.
Aí minhas noites serão mais divertidas de reencontros virtuais: programem-se – 10 ou 11 ou 11 e meia daqui são 7 ou 8 ou oito e meia daí.