“Como você sabe que eu sou louca?”, Alice disse.
“Você deve ser”, disse o Gato, “ou você não teria vindo até aqui.”
(Lewis Carroll - Alice no País das Maravilhas)
Nessa hora, sim, a causa e o sonho se juntaram. E como um susto, no rápido (e louco) intervalo de três semanas, embarquei para Copenhague. Sonhos e esperanças embarcaram comigo, e as pessoas próximas desejavam que eu fizesse um ótimo trabalho por aqui, exatamente por elas se sentirem representadas por mim nesse momento histórico de início de século XXI.
Copenhague sorri para os que vieram. Já se percebe isso no aeroporto – e sorri de um tanto que a pessoa no balcão de informações do aeroporto me ajudou a colocar meu chip dinamarquês no meu celular, e o taxista ficou me ensinando qual a melhor pronúncia para a rua onde eu estou hospedada apenas em caso eu me perca. Outra coisa: decidi ficar em uma casa de família dinamarquesa, e logo na minha primeira noite dinamarquesa já conheci os amigos deles e tive um jantar especial. Ótimo. Ser bem-recebida é o primeiro passo para confirmar minhas expectativas de duas semanas espetaculares pela frente.
Segunda feira, dia 07 de dezembro, o caos reinava no Bella Center. Fiquei quatro horas na fila apenas para obter a credencial de ONG e ter acesso às dependências da Conferência. Quatro horas ao ar livre, apenas lembrando que a temperatura estava em torno dos 7 graus com garoa, não é nada confortável. Mas a fila, gigantesca, estava preenchida por pessoas com esperança de começarmos, naquele dia 7, um novo futuro para a humanidade.
Dentro do Bella Center tudo é um pouco indescritível e tudo é em excesso – nada a ver com a mudança de estilo de vida que devemos adotar, sem excessos. Portanto lá dentro havia excesso de pessoas, excesso de computadores, excesso de restaurantes, excesso de copos plásticos, excesso de barulho, distâncias excessivas entre um espaço e outro. O Bella Center foi, paradoxalmente, o lugar dos excessos de Copenhague.
Demorei, sem brincadeira, uns três dias para entender o que acontecia lá dentro. Qual a agenda dos eventos paralelos, qual a agenda de negociações, onde cada uma dessas coisas acontecem, onde encontrar as pessoas certas, onde comer uma comidinha rápida, boa, e não excessivamente cara.
Em compensação, definitivamente o Bella Center foi um lugar de encontros. Encontrei muitas pessoas no meio das andanças por todos aqueles corredores. Desde amigos de longa data negociadores, até amigos de longa data que acompanhavam as negociações, incluindo pessoas que conheci aqui e que logo viraram amigos de longa data, e todos os figurões que por lá circulavam - figurinhas fáceis de serem encontradas no Bella Center, mas não no Brasil. Para dizer algumas dessas pessoas, Gilberto Gil (em quem eu dei um abraço), José Serra, Carlos Minc, Dilma Roussef, Marina Silva. Todos ali, por motivos e com interesses diferentes, mas falando de uma mesma causa.
E também o Bella Center foi o lugar de acontecimentos: no corredor ou nas salas de negociações ou nos auditórios de eventos paralelos, o debate rolava solto. Debate altamente qualificado, com pessoas altamente qualificadas. Por mais que interesses diferentes limitassem muito o alcance das reuniões, principalmente nas salas de reunião, de qualquer forma ali no Bella Center alguma coisa grande está acontecendo: nossos diplomatas e líderes de Estado estão conversando sobre qual planeta Terra deixaremos para as próximas gerações. E, além disso, os olhos do mundo estão voltados para cá.
Aliás, os olhos do mundo estão voltados para Copenhague – essa cidade que sorri e que é bela, fria, cinza e, desde ontem, nevada. E por todo o canto pensa-se e respira-se “mudanças climáticas”. Na Praça Central da cidade, o movimento Hopenhagen montou seu quartel-general, com um palco para ótimos shows (terça feira o Gogol Bordello juntou um monte de gente mesmo debaixo de chuva). Não muito longe dali, no KlimaForum, a sociedade civil se reúne em 15 dias de intensos e acalorados debates. A Survival Academy, com oficinas de alta qualidade, também oferece discussões mais profundas sob o tema “E se eu fosse a solução?”. Em Cristiania, o bairro alternativo da cidade, também há um outro evento, Climate Bottom. Além disso, andando pela rua em todo o canto tem algum cartaz, alguma exposição de fotos, alguma exposição de esculturas, e todas as publicidades que invadiram a cidade passam uma mensagem sustentável. Isso sem falar nas inúmeras manifestações que vêm acontecendo por aqui...
Ou seja, em dezembro de 2009 Copenhague foi A Cidade para se estar. E eu estive aqui. Vivendo cada uma de todas as coisas acontecendo intensamente. Para além da desorganização que limitou o acesso de ONGs ao Bella Center, Copenhague está inteira viva e em sintonia com as negociações. Sabemos que chegou o prazo final e que nem um milagre salvará a Conferência desse fracasso absurdo de não termos acordo. Mesmo assim, parece que as pessoas estão mobilizadas para mudanças. Essa é a sensação de quem vive o que está se vivendo aqui. Então no final das contas, o que prevalece após quase duas semanas de Dinamarca é esperança na humanidade – talvez não nos líderes globais, mas na humanidade como um todo, nas pessoas, essa esperança sim prevalece.
E é lindo, eu só posso dizer isso. É lindo realizar um sonho, é lindo participar desse momento da nossa história, é lindo ver a neve cair, é lindo receber mensagens do Brasil, de pessoas que se sentiram representadas por mim. É tudo renovar a fé nas pessoas e no poder que vem do coletivo. Por isso que acabo esse relato com uma frase curta e certa, que ouvi semana passada do Mario Mantovani (SOS Mata Atlântica): “A primeira COP a gente nunca esquece”. De fato, eu nunca esquecerei.
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ps.: apenas acrescentando. Agora é sexta feira, dia 18/dez, 17.40. Estou sentada em um café do lado do Tivoli com a Tine e estávamos conversando sobre esses últimos quinze dias. Arrepia cada vez que sabemos que, independentemente de um acordo, o mundo mudou agora. Só de ter todos os olhos voltados para Copenhague, as pessoas já mudaram. Pela primeira vez, a humanidade parou para pensar no legado que deixaremos para as futuras gerações. Então, com certeza amanhã o mundo não será mais o mesmo. Quem está em Copenhague sabe, e quem acompanha de longe o que acontece aqui deveria saber: esse é um momento histórico.
Com calafrios na alma e calor no coração, acabo por aqui esse post.
delicia de experiência, né amore? beijo.
ResponderExcluirVocê é parte de um momento importante da nossa história, e como disse, pela primeira vez o mundo parou para pensar em soluções. Tô muito orgulhosa de você, Mari!
ResponderExcluirBeijos!
orgulhosa da mari
ResponderExcluirque muda o mundo a cada dia que muda
e a solução é vc
vc, eu,
e quem mais quiser ser o que se é,
que é o que se deve ser.
em sintonia, sempre
amo vc e já tenho saudades
um beijo no coração