terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Carnavália

Fiz uma seleção de trechos de músicas brasileiras para ilustrar esses meus dias frios e com muito trabalho aqui na Suíça, enquanto vocês aí estão na esbórnia carnavalesca dos trópicos.

"Todo dia ela faz tudo sempre igual / me sacode às seis horas da manhã / me sorri um sorriso pontual"
(Cotidiano, Chico Buarque)
Primeiro dia de fila. Acordei seis horas da manhã. E aí, sete horas da manhã na ONU.
Era ainda noite, nevava, fazia frio. Muito frio, tipo menos cinco. E nós lá - finas, maquiagem, salto alto. Todos os diplomatas dos outros países lá presentes tinham a cara amassada, assim como a gente. E, já que estamos em uma situação adversa, todos juntos, vamos tentar ser simpáticos uns com os outros. Mas eu fiquei com a impressão que simpatia nenhuma é suficiente naquele horário, sob aquelas condições.

"Quaquaraquaquá, quem riu? Quaquaraquaquá, fui eu..."
(Vou deitar e rolar, Baden Powell e Paulo César Pinheiro)
Então quando a crise se instala no grupo e parece que todo mundo (todo mundo, eu digo, a parte lúcida do grupo) vai sucumbir de tensão, cansaço, angústia, revolta e desapontamento, fomos comer no McDonalds.
E comemos e rimos e falamos alto e fizemos piada e falamos mal de um tanto que a barriga doeu e eu cheguei a, literalmente, chorar de rir. E isso durou muito tempo, uma hora e meia, duas horas, quizá. Tudo isso de risos esgoelados.
Mas aí, essa é aquela sensação de exceção, de situação extrema. Parece que a gente está dando muita risada e isso parece muito fora do lugar. Está tudo errado. E estava, mesmo. Aquele era o riso dos desesperados, não o riso dos relaxados. Sob pressão (e aqui estamos constantemente sob muita pressão, de um jeito que chega a fazer mal pela forma como as coisas são postas), rimos desesperadamente.
Quando eu cheguei em casa, o silêncio parecia pesar em cima de mim. Era como se o desespero que saiu no jantar na forma de gargalhadas estranhas, tivesse tomado forma como um peso absurdo, uma força da gravidade imensa, que fez meus ombros doerem e minhas sobrancelhas enrugarem a testa. Nessa quinta à noite, foi uma das vezes que eu mais pensei no Brasil e nas saudades de muitas coisas daí, e como eu gostaria de ter meus bons e velhos amigos, meus pais, meus irmãos, para poder ser escutada em minha revolta. Mas enfim, fiquei em silêncio, com dor nos ombros.
Nesse exato instante, pensei que eu pudesse estar experimentando alguma reação bipolar - como pode alguém, em meia hora, oscilar entre gargalhadas absurdas e dor no ombro? Mas aí eu decidi que o melhor a fazer seria parar de pensar e dormir. E foi o que eu fiz, me esparramando em minha gigantesca cama de casal com vista para os Alpes naquela estrelada estreladinha noite gélida.
A falta de vontade para acordar às cinco da manhã para ir para a fila de novo reinou, mas a sensação de grupo falou mais forte e lá fui eu para fazer a "troca de turno" com a pessoa que passou a noite na ONU. Dessa vez, o meu turno era das 6 às 9 da manhã, e inscrever oficialmente o Brasil na lista fazia parte dos meus atributos. Mas a pessoa do turno da madrugada não quis largar o osso, então ficamos em três. Se eu soubesse que era só para fazer companhia, e não para trocar de posto (como previamente planejado) eu teria ficado em casa sob o conforto dos meus lençóis. Ao invés disso, estava lá, no estacionamento da ONU, vivenciando uma "situação sui generis".
Quem riu? Fui eu.

"Eu quero é botar meu bloco na rua / brincar, botar pra gemer / Eu quero é botar meu bloco na ria / Ginga para dar e vender"
(Eu quero é botar meu bloco na rua, Sérgio Sampaio)
Luzern é linda. Parece aquelas encantadoras cidades que a gente acha que só existem nos cenários dos filmes. Um lago, montanhas, e casinhas alemãs.
Mas aí, no meio de tudo isso, no meio da rua, no meio do nada... andando entre as vielas, um bloco de carnaval! E outro, e outro! E quando a gente vê, quase se sente no Rio de Janeiro com tamanha profusão de blocos... as fantasias são elaboradas, as músicas também, mas nem de perto se assemelham a o que acontece no Brasil. Mesmo assim, é mucho loco andar pelas ruas de Berna se sentindo no barulhento mundo do Carnaval.
São muitos os blocos, por todos os cantos, pessoas sorridentes e felizes, realmente muito bêbadas também.
O frio castiga. Menos sete é aquela temperatura que, depois de um tempo, congela as bochechas e falar fica um pouco difícil, fora a sensação constante de dormência nos dedos dos pés e das mãos. Mas aí eu e a Catherine usamos a estratégia de duas horas de durabilidade. Depois disso, íamos sempre para algum lugar quente tomar chá e amolecer os dedos dos pés.
O pessoal que ficou em Genebra para o final de semana ficou pulando de bar em bar, na enorme profusão de carnavais brasileiros que aconteceram por aqui.
Eu fui a Luzern, em uma oportunidade única de ver e viver o carnaval suíço. Adorei.

"Ê! Ô ô! Vida de ga-a-do! Povo marcado, ê! Povo feliz!"
(Admirável Gado Novo, Zé Ramalho)
Daí foi assim. Cinco da tarde estourou-se a bomba que a fila na ONU já tinha começado, batendo todos os recordes de todas as outras filas. Eu me inscrevi, rapidamente, para o turno da fila das 21hrs às 24hrs. E logo saí, fugida, do escritório, para conseguir fazer o que eu tinha que fazer. Mas não consegui comer... resultado: o Amjr, que estava me levando para a ONU às nove, parou para comprar comida.
Depois de passar pela barreira dos seguranças, indefectíveis, veio a cena patética: eu lá, de cócoras (porque o chão estava sujo para sentar) no estacionamento da ONU, jantando meu kebabzinho, a menos três graus e dedos começando a doer. Quando finalmente chegou a chave da van que seria nosso abrigo durante o "turno da noite", veio a música na cabeça: povo marcado, ê, povo feliz... Então, eu e Nana, minha xará e amiga e companheira mais apertada daqui de Genebra, tivemos de novo nossos acessos de bobeira sentadas na van passando frio e ouvindo o GPS da van em italiano. Fizemos planos de ligar a van e sair do estacionamento da ONU fugindo para Paris... Mas acho que fomos caretas demais para isso. De qualquer forma, conversamos muito e demos, realmente, muita risada.
Meia noite, hora de troca de turno, ainda fizemos um "h" com a pessoa do próximo turno (o turno da noite inteira - 00hrs - 06hrs). E pegamos o último tram para casa, das 00.47, saindo da arrêt Nations.

"Eu fico com a pureza da resposta das crianças / é a vida, é bonita, e é bonita!"
(O que é, o que é, Gonzaguinha)
Hoje acordei mais tarde e vim trabalhar mais tarde. Merecia, após a noite de ontem.
Genebra não tem perua escolar como em São Paulo. Então os professores, em um grupo de 3 ou 4, levam todas as crianças para cima e para baixo de transporte público. E essa é uma cena bem comum, pelo menos nos ônibus que passam pela minha região.
Hoje quando chegou o 11 Jardin Bothanique das 10.57 pela minha casa, eu via MILHARES de pessoas dentro do ônibus e não entendia nada do que acontecia... quando eu entrei, eu percebi que ele estavam lotado porque as crianças estavam aos montes dentro desse ônibus. E todos os adultos, usuários normais do transporte público, se espremiam no corredor. Então estava UMA FARRA no ônibus, bagunça, barulho. E ainda por cima, a cada curva no ônibus, enquanto os adultos tropeçavam no ônibus e tentavam se equilibrar, as crianças davam risada. Após uma hora, todos os adultos, e as crianças, estavam morrendo de rir.
Entrar naquele ônibus hoje, cheio de crianças sorridentes e barulhentas, me deu outro pique para o dia e para a minha temporada aqui.

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Postei aqui no blog, como prometido, algumas fotinhos da Vieille Ville e do Carouge. Eu amo a minha vidinha em Genebra.

Carouge

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Vieille Ville

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Novidades virtuais

Fotos da semana que as minhas primas estiveram aqui:

Fotos de Chateau D'Oex:

Fotos da semana passada por aqui:

Vídeo de Paris:

Vídeo de bobeira:

Hoje estou muito cansada para contar histórias, depois eu conto mais um pouco da vida aqui.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Das coisas que causam emoção

Das coisas que eu amo:
- ônibus Bout du Monde das 19.34
- chuveiro quente do Monsieur Mariano
- cia do M. Mariano para o jantar, pela primeira vez em um mês!
- ficar bebinha de vinho em plena quarta feira, com o senhor que me aluga o quarto, e o amigo dele espanhol que veio visitar
- diplomata humilde e que dá risada das minhas piadas e que troca uma boa idéia, humana, sobre muitas coisas pouco relevantes do mundo
- sentar na mesa com a Ministra da Nicarágua, ser abraçada por ela, e chamada de "Mi Querida!". Ela não se importa com protocolos e afirmações baratas de autoridade, e vai para a ONU de sapato baixinho e vermelho.
- croissant com capuccino do Bar Serpent, no Palais des Nations. De preferência, saboreados diretamente daquelas poltronas mega confortáveis com vista para a neve e o lago.
- encontrar o delegado do Peru e o delegado da Argentina nos corredores do Palais, e ser cortejada por eles, mesmo que nesse jeito latino de beijar a mão e não olhar mais na sua cara. Mesmo assim, é bom.
- Virgin Radio France, 90,10FM de Genève
- neve, muita, de novo! Sempre é lindo e parece dos sonhos!

Das coisas que eu odeio:
- autoridade batendo porta na minha cara por eu ser estagiária
- acordar cinco e meia, pisar na neve ao longo de toda a ONU gigantesca, chegar em uma fila exclusiva de diplomatas sendo a única estagiária, estar esbaforida, sem maquiagem, e sem a finesse que lhes é peculiar (afinal, sete da matina de um dia com muita neve, como é possível manter a impecabilidade em condições desumanas??), colocar o Brasil na fila em 14, e ainda ouvir de diplomata que ficou dormindo no conforto do lar que 14 é um péssimo lugar na lista de oradores
- Casa Grande e Senzala, nessa visão de Senzala que estou tendo, mas mesmo da Casa Grande, o pior cego é o que não quer ver. Sabe como?
- injustiças e coronelismos aplicados nesse microcosmo que para mim nada mais é do que aquele choque de realidade básico. Durma com todos esses baldes de água fria, Mariana, e depois me conta o que você pensa sobre a tal da elite pensante brasileira.
- acho que da próxima vez que me incluírem no grupo da "elite pensante brasileira", vou cuspir no chão de tanto nojo.
- não sei a que ponto esse choque de realidade é bom ou a que ponto ele pode me tornar uma das pessoas mais amargas e desiludidas que eu já conheci.
- neve, muita, de novo! Caramba, já não deu de neve esse ano??

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Hors Concurs
A humanidade se tornando o maior multiplicador de desumanidades.
Quer aumentar a contradição e brincar um pouco mais com as palavras?
A humanidade se tornando o maior multiplicador de desumanidades em pleno Conselho de Direitos Humanos.
Como hoje bem disse a Tam, "nossos relacionamentos estão doentes". Mas para essas coisas, alopatia e médico não dão conta. Cadê a homeopatia de toda a humanidade?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

"Minha avó já me dizia

preu sair sem me molhar / mas a chuva é minha amiga / e eu não vou me resfriar"

OU
Tá na chuva é para se molhar.

E suas variáveis:
Tá no inferno, abraça o capeta;
Tá na lama, chafurda;
Tá na neve, congela o pé.

Enfim:
You can't always get what you want.

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Pois é.
Chegou ao nível de desespero e decepção que eu não queria que chegasse, mas chegou.
Minhas apostas nisso daqui ao longo de todo o ano passado foram muito altas para isso.
Eu ainda não consigo ver onde eu estou me desenvolvendo profissionalmente, fora algumas poucas e boas oportunidades de ouro.
Além do valor financeiro que eu precisei juntar, ano passado camelei muito, então já paguei adiantado um preço muito alto por estar aqui. Eu acreditava nisso aqui. Eu apostei mesmo, com vontade e convicção.
De novo, não custa repetir: EU ACREDITAVA NISSO AQUI.
E ainda me sinto uma sortuda de não ter precisado pedir demissão para estar aqui. Eu pediria, ano passado, se tivesse sido necessário. Não foi. Ufa, pelo menos isso, eu volto para o Brasil com o meu trabalho garantido (um fator de desespero a menos). E ano passado, para as meninas que virão nos próximos trimestres que me perguntavam se eu acho que compensaria pedir demissão, eu sempre disse que sim a elas. Hoje eu já não diria mais.
Hoje, um mês depois dessa rotininha de trabalho, estou lutando contra a correnteza para ficar feliz no meu trabalho.
E é como eu já disse: o maior benefício profissional para mim, uma vez aqui, é um emprego na ONU e uma propaganda legal do Akatu por essas bandas. Então após um mês testando o terreno e entendendo como as coisas funcionam, decidi que será só nisso os meus dois focos para os próximos e curtos tempos que tenho aqui. E vou carpintar e trabalhar para isso.
E agora, além de tudo, estou lutando contra o "fator revolta". Porque se eu deixar que ele se apodere de mim, aí sim a coisa vai ficar feia a valer.
E a que se deve o fator revolta, ó caro leitor que pergunta?
Oras, o fator revolta se deve ao grande investimento com baixíssimo retorno, ao trabalho de peão que a gente faz. O fator-revolta se deve à fazer materiais e materiais pró-forma, que todo mundo sabe que ninguém vai ler. O fator revolta se deve às inúmeras traduções que temos que fazer (porque, de fato, todo mundo aqui se matou de estudar na vida para ficar fazendo tradução para diplomata).
O fator revolta se deve, principalmente, à questão DESUMANA da fila do UPR. Nesse caso, a gente tem que ficar no meio da rua na porta da ONU desde madrugada, sob frio, neve, apenas para que o Brasil esteja bem posicionado na lista de speakers dessa reunião que "revisa" determinado país sob o ponto de vista dos direitos humanos. A desumanidade disso é comparável apenas à desumanidade da auditoria da IBM. Sete meses depois de um mês de auditoria desumana, eu descobri que não era isso que eu quero para mim e pedi demissão da IBM (óbvio, levando em conta zilhares de outras coisas).
Mas a questão é essa: trabalho voluntário, pago com suados francos suíços, não deveria passar nem perto de ser desumano. AINDA se tivesse o fator desumano mas o trabalho representasse um grande ganho sem precedentes para a minha carreira, tudo bem. Não é o caso. Mas sei que se o "fator revolta" me dominar, a coisa vai ficar preta. Por isso que hoje vim de blaser vermelho-vermelhão: para me dar energia contra o fator-revolta.

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Não posso, no entanto, ser ingrata com as coisas históricas que tenho vivido aqui.
Ontem à tarde sentei na mesa de negociação com a Ministra de Interior da Nicarágua. Nunca poderia imaginar que isso algum dia fosse acontecer. By the way, hoje e amanhã sento de novo na mesa com ela e sua trupe (óbvio que eu sou apenas uma parte da trupe brasileira, a que senta mais no cantinho, quase que caindo para fora da mesa - mas mesmo assim sou eu, lá).
Há quinze dias vi ao vivo nosso Ministro Celso Amorim discursar na Sessão Especial do Conselho de Direitos Humanos sobre o Haiti. Eu participei um pouco do desenvolvimento do discurso dele. Isso é lindo. E na hora que eu estava lá, ao vivo, vendo tudo aquilo, deu um embargo na voz, calafrios no corpo, sensação de reiki pela minha cabeça principalmente, e uma vontade louca de chorar.
Já tinha me sentido assim em algumas oportunidades em Copenhague. É assim que eu me sinto quando alguma coisa me diz que eu estou vivenciando ao vivo e a cores um momento histórico. E, é fato isso, nesses últimos meses virei colecionadora de momentos históricos. Nada mal para meus 27 anos.
E mais: tive a oportunidade de conhecer duas ilustres professoras da PUC de Direito, que participam das reuniões da ONU. Uma delas, conheci no próprio Palais (porque sou cara de pau e fui lá me apresentar) e depois a reencontrei vagando por Montreux, ela acompanhada por um namorado cinquentão gatérrimo. Conversamos um pouco à beira do lago e foi legal.
A outra, conheci domingo no café La Clèmence, quando perguntei se ela estava aqui como turista e ela disse que não, que faz parte do CEDAW da ONU. Ok, a conversa começou com uma cotovelada básica, porque ela é pessoa importante e age como tal. Mas depois eu consegui virar o jogo e ontem trocamos beijinhos no corredor do Palais, cada uma de nós indo para uma reunião, correndo, e ela foi um amor de doce de simpática. O Paulo ficou perguntando o que foi aquele sinal de intimidade todo, e eu respondi que "esperto é o pato, baby..."

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Também não posso ser ingrata com a experiência pessoal toda que estou tendo aqui.
Seria sacanagem.
Em Genève, de fato, tenho sido muito feliz e tenho crescido muito a cada dia.
Óbvio que, se fosse só pelo crescimento pessoal, talvez eu tivesse escolhido outra cidade, por tempos diferentes, e definitivamente gastando menos (porque baby, a Suíça é puro luxo, o supermercado mais barato daqui ainda assim é muito caro). MAS já que vim até aqui, então que seja bom e compense em pelo menos um dos aspectos.
Está compensando bastante no pessoal.

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Resolvi fazer compensar no meu francês também. Larguei dessa preguiça de ter conversas complexas em francês. Então eu olho para a cara do Amjr e falo: "regardez-moi. Talvez você não me entenda, mas você vai tentar me entender e vai me ajudar com o meu francês. J'irai essayer e nós vamos conseguir conversar direitinho". Ainda bem, nós temos conseguido conversar direitinho - e isso para mim é muito bom de verdade. Aí eu chego em casa e fico estudando francês, ou ligo a TV e fico ouvindo. E agora, no celular, só ouço rádios em francês que toquem preferencialmente músicas francesas. Resultado? Virei fã da música pop francesa contemporânea. Então se eu demorei um mês para sair da preguiça, tenho dois meses para ficar profissa nessa brincadeira de falar francês. Mas já percebi que esse sonho de ser poliglota algum dia é bem difícil, os nós linguísticos aqui são constantes. Porque na ONU é em inglês, com os países hermanos é em espanhol, com a Catherine eu a ensino a falar português, no escritório é fofocaiada em português e ainda por cima zuando de algumas coisas do francês, no meio da rua e com o Seu Mariano e o Amjr, em francês. Já viu, né? Maior confusão.

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Quando eu comecei esse post eu não me aguentava de revolta.
Agora já estou aliviada.
É só lembrar o quanto eu amo ma petite vie genevoise que tudo fica bem de novo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Perdu à Genève

Première Partie - Perdu au Carouge
Carouge é um bairro lindinho e encantador. Eu só conhecia de ouvir falar de seu histórico boêmio, de sua vocação artística, de seus bares de jazz. Mas ontem, fui até lá ver em pessoa.
E me perdi entre as vielas, praças secretas escondidas, praças grandes com igreja. Domingo nada acontece na cidade calvinista, mas Carouge, mesmo que inteira fechada, tinha pessoas passeando em suas ruas.
Carouge, para entender, é um pouco Palermo em Buenos Aires, um pouco Vila Madalena em São Paulo, bairro aconchegante com arte correndo na veia.
Carouge parece vilinha de interior com vitrines cosmopolitas de roupas alternativas, ateliers de cerâmica e madeira e arte contemporânea, cafés bacanas, cinema de filmes B, paredes pintadas nos prédios, pichações artísticas.
Em Carouge, eu sentei sozinha e almocei sanduíche elaboradinho de presunto cru, uma taça de vinho, e uma mousse de chocolate com amêndoas que me foi inesquecível.
Quando eu morar de verdade por aqui, acho que é em Carouge que eu quero morar. Em Carouge ou na Vieille Ville.
Deuxiême Partie - Perdu à Vieille Ville
Daí de lá peguei o tram, andei andei, e cheguei na Vieille Ville. Tarde de domingo ensolarada lota o Parc des Bations e as ruas de pedra da Vieille Ville. Nesse domingo em especial, lotou ainda mais. Como primeiro domingo do mês, teve museus com entrada gratuitas, e todos os museus ficam, em sua maioria, nesse canto da cidade.
Então de novo eu vaguei, como no Carouge, sem direção e com um objetivo muito simples - o de desfrutar o momento e apenas isso.
As ruas de pedra, os prédios antigos, tudo isso que no meu primeiro dia em Genève me pareceu tão sem graça ontem me pareceu a coisa mais fofucha e gostosa. Enfim, o centrinho histórico de Genève é lindinho. E eu visitei o museu principal da cidade, com Monet, Van Gogh, Rodin, e muitas outras coisas. Arte alimenta a alma, minha gente, e mais cego é quem não vê isso.
E então, na Vieille Ville, ponto alto da cidade (não só metaforicamente falando, fisicamente também) o vento de fim de tarde já era bem gelado e aquele solzinho que ficava fraco ia deixando de esquentar. Então quando isso aconteceu eu parei de andar e fiz algo muito tipicamente genevoise: comprei 100grs de marrons grelhados, sentei-me na praça na frente da fonte, e lá fiquei, flaneur, comendo, pensando sobre a vida, sentindo o vento gelado, vendo as pessoas.
E quando os marrons acabaram e meus dedos já doíam de gelado, entrei no café da frente. Tomei um vinho, de novo. Conheci alguém importante que trabalha na ONU. Esperei a minha amiga italiana para mais uma rodada de boas conversas.

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Esse meu domingo solitário e flaneur rendeu lindas fotos. Depois eu posto elas aqui.

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My special thanks para as minhas amigas brasileiras, que me deram um bolo TÃO gigantesco esse domingo. Foi isso que me proporcionou esses deliciosos e leves momentos sozinha. De verdade, isso não é cinismo, agradeço a essas meninas. Com elas, acho que eu não teria ido parar no Carouge.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Desespero de causa

OU:
como enlouquecer sua família inteira à distância quando seu gerente do banco é um b*sta que não sabe fazer bem o trabalho dele e ainda reclamou de quando eu entrei em contato com a ouvidoria - quanta cara de pau!

Vejam abaixo a troca de emails, real, com o meu pai.
Vejam que não sou só eu que estou perdendo a sanidade mental.
Meu pai também está (cheguem ao final da conversa para vocês perceberem que a coisa vai ganhando ares de engraçada).

EU
Pai,
é isso aí, desbloqueei o cartão, ele continua funcionando como crédito, mas como débito / saque da conta corrente NÃO.
Só entendo que deve ser alguma dificuldade conceitual do Fulano - ele não deve saber o que é isso, esse tal de Visa Plus.
E, sinceramente, isso muito me preocupa... estou vendo a hora que vou ficar na mão.
É isso.
Pergunta para ele se precisaremos falar com o Pedro Moreira Salles ou com o Roberto Setubal para nos fazer entender. É mucho loco como ele simplesmente não compreende do que estamos falando.
Beijos,

PAI
Oi, Ma.
Tudo bem?
Acabei de falar com seu gerente.
Ele pensava que as autorizações que você tinha para 1 cartão passariam automaticamente para o outro, mas de fato isso não ocorreu. Ele fez novamente o pedido de autorização para saque internacional no VISAPLUS e o sistema deu para ele o prazo de 11/02 para este serviço estar disponível, mas ele garantiu que antes deste prazo será possível usar o serviço.
Beijos.

EU
Pai,
Se "aquilo" que ele tinha aprovado pro meu cartão antigo era o Visa Plus, isso NUNCA funcionou. Lembra que tínhamos conversado sobre isso, pai?? E que inclusive você me recomendou que quando chegasse meu cartão novo era para eu testar... lembra dessa nossa conversa?? Ou seja, alguma coisa que nunca funcionou não foi transferida para o meu cartão novo, mas agora ele disse que foi transferida, mas se ela não funcionava nem quando deveria funcionar...
Por isso que acho que essa conversa é MUCHO loca. E acho, pelo que estou entendendo, que se depender do Fulano EU NUNCA TEREI O VISA PLUS funcionando corretamente. Juro, deve haver algum erro de comunicação/compreensão muito grave, porque essa história está rolando há muito tempo.
Desculpa se escrevi de um jeito meio torto com você. Você sabe que a minha revolta não é com você. Mas esse bosta desse cara me tira do sério com o des-serviço que ele tem feito para mim à distância. Além de fazer mão, pé e depilação, uma das minhas primeiras coisas a fazer quando eu chegar no Brasil será, definitivamente, trocar de gerente. Chega a ser patético o papelão que esse cara está fazendo, você não acha??
Um beijo bem grande e mil vezes obrigada pela ajuda.

PAI
Mari querida,
MCNH, ou seja, muita calma nesta hora. Pelo que ele me disse, ele configurou na hora em que eu falei com ele o cartão. Vamos ter mais um pouco de paciência. Aguardemos até dia 11.
Um beijão.

EU
Mas pai, o que você não está entendendo é que ele "tinha configurado o Visa Plus" antes de eu sair do Brasil - inclusive eu trouxe o protocolo comigo. Aí em janeiro quando você falou com ele, ele também "tinha configurado o Visa Plus" e agora ele acabou de te dizer que ele acabou de configurar o Visa Plus. Você entende que eu não tenho nenhum motivo para acreditar que terei meu Visa Plus funcionando em 11 de fevereiro? É simplesmente uma questão estatística...
É um saco, mas não tem mais MUITA CALMA NESSA HORA. Pelo menos, não com o Fulano.
Beijão também.

PAI
Repita comigo esse mantra: OOOOOOOMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM

EU
Estou repetindo...

Vidinha suíça

Ontem, dia de acontecimentos emblemáticos:

Paguei meu segundo aluguel e também meu segundo mês de abonnement de transporte público. É engraçado, mas às vezes a gente precisa dessas pequenas coisas para entender que está realmente MORANDO em um lugar, e não de passagem apenas. Mas a minha é uma moradia com cara de passageira, porque afinal são só três meses. Então ao mesmo tempo que foi legal, me deu uma certa aflição: já se foram dois dos meus aluguéis e dois dos meus abonnements.
Ontem também peguei na Gare minha carteirinha com foto para a demi-tariff do trem. Agora, dos documentos suíços com foto eu tenho o abonnement do transporte público e a carteirinha da demi-tariff. A partir de segunda feira terei também meu documento de identidade suíço, com foto e tudo. Serei, por três meses, uma cidadã wannabe da Confederation Helvetique.

E aí a vidinha suíça vai bem, obrigada.

Meu ônibus casa-trabalho-casa, por exemplo, é o nome de linha mais legal. Na ida para o trabalho ele se chama Jardin Bothanique, aquele nome bonito, romântico, poético. Na volta para casa, ele se chama Bout du Monde - minha volta para casa é o ônibus do fim do mundo. Quão legal pode ser isso??? Então todos os dias, entre idas e vindas, eu fico pensando nessa linha que liga o Bout du Monde com o Jardin Bothanique. Acho o máximo. São nomes que dão trela para um monte de viagem mental gostosa sobre o ato de morar no meio do caminho para o fim do mundo, em plena Suíça.

Outra coisa: aqui dá para fazer tudo de um jeito bem macio.
Ontem eu saí do trabalho, jantei com a minha amiga indiana e uma amiga suíça dela em um restaurante espanhol caseiríssimo, delicioso e super barato e super familiar (abraçamos os donos do restaurante ao ir embora, coisa muito latina de se fazer e que é uma delícia). Daí ainda fui em um bar e voltei para casa tranquilamente 15 para meia noite, andando sozinha pela rua e depois pegando o ônibus e me sentindo a pessoa mais segura do mundo.

Então esse é o grande encanto de Genebra: aqui se faz tudo, sem a sensação latente de esgotamento físico louco que temos normalmente em São Paulo. E isso faz da vida cotidiana uma coisa deliciosa.

Hoje, por exemplo, comprei umas makes bacanas. Ponto positivo da minha vidinha suíça: sim, dá tempo de me maquiar com calma de manhã cedo. Outro ponto positivo da minha vidinha suíça: produto de cabelo Schzwarkopf é encontrado em pleno supermercado a preços acessíveis. Ai, que delícia. E aqui também a Garnier tem uns produtos para a pele deliciosos, que eu comprei hoje e estou louca para experimentar.

Isso, falando do supermercado normal.
Ainda estou passando longe do free-shop que tem dentro da ONU (por lá ser um espaço internacional), onde compramos tudo que se compra normalmente em um bom e grande free shop e, além de ser tax free, ainda temos 20% de desconto. Estou com medo do dia que eu for para esse free shop.

Mas então, continuando essa vidinha suíça boa, decidi ficar em Genebra de novo esse final de semana. Estou precisando dormir loucamente, estou com muito sono atrasado, e preciso dormir sem ter hora para acordar.

Mas é isso aí. Então eu vou porque minha noite de sexta ainda será longa, mesmo com todo esse cansaço excessivo.
Sopro no ombro e aquela força.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A solidão da lua e outras anotações

*esse título é uma alusão à lua encantadora que tem feito irradiar um azul lindo e misterioso na sombra dos Alpes desde sexta feira. Ficar na varanda assistindo a essa dança de sombra e luz, lua, nuvem, estrela, montanha, é absolutamente hipnotizante. Eu amo essa varanda minha.

Hoje dei um espirro quando já estava em casa e sozinha. Aí eu disse “saúde” para mim mesma. Deve ser efeito de chegar e ficar sozinha, já que eu tinha desacostumado com essas minhas noites silenciosas (a não ser que pela tevê, caso eu a ligue).

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Semana passada foi uma bagunça. Fora a segunda à noite, na qual eu tinha que me recuperar do “efeito Paris”, tinha gente aqui na terça, quarta, quinta, sexta, e sábado. “Gente”, não. Recebi a visita ilustre das minhas duas primas queridas ao mesmo tempo agora. Foi a maior farra, a maior bagunça, vinhozinho toda noite, perturbação com o seu Mariano, agito nas ruas de Genebra.

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Aí quando elas foram ficamos eu e o silêncio sentados lado a lado na cama. Não como ilustres desconhecidos, sino que como ex-namorados se não sabem ao certo se querem mesmo voltar a ficar juntos, mas que como uma força sobrenatural os impele a ficar juntos, eles ficam juntos.

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Quando as meninas estavam aqui, eu percebi que eu estou super feliz na minha grande cama com meu edredom gordo. Nas primeiras noites que dividi a cama, eu chutava, me esparramava inteira pela cama, roubava o edredom só para mim.

Também percebi que eu AMO, PRECISO, SINTO MUITA FALTA, de chegar em casa e falar loucamente sobre meu dia. E aí fulano isso, cicrano aquilo, reunião na ONU, relatório do Irã, pesquisa sobre o consumo e plantação do tabaco. Por isso que às vezes o silêncio é uma pontada na alma. Por isso que eu disse “saúde” a mim mesma.

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Fora isso, morar sozinha me cai muito bem. E Genebra também, cai suave e gostosa.

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Hoje cheguei em casa, espirrei, desci lavar roupa, subi e tirei a maquiagem e a roupa de trabalho, daí cozinhei meu jantar, peguei a roupa na máquina, fiquei pendurando roupa para secar, guardando roupa já seca, e abri o computador. Para conversar, do jeito que eu queria – hoje por sorte o vizinho tinha ligado o Skype. Nesse meio tempo, enquanto o arroz fervia, também li meu livro novo e percebi, de novo, que lavar roupa me é uma terapia que eu adoro. No final, a gente se sente melhor quando fica quieto em seu próprio casulo, voltado um pouco mais para dentro e não tanto para fora. Aqui, a vida é inteira voltada para fora. Mas chegar em casa, cozinhar, ficar quietinha. É gostoso. É voltar para dentro.

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Porque tem uma coisa que hoje eu conversava com a Catherine na hora do almoço.

Vida social super ativa é sempre muito divertido. Mas cansa demais também, porque em grupo, no restaurante, no bar, a gente tem que estar sempre bem. Não pode simplesmente estar. Tem que ESTAR simpática, ESTAR feliz, ESTAR piadista, ESTAR falante. E às vezes a gente simplesmente não está a fim de tudo isso. Às vezes a única coisa que eu quero é a companhia dos meus bons e velhos amigos, gente que vai adorar meu silêncio e continuar gostando de mim mesmo se eu estiver mal humorada. É engraçado e soa até piegas, mas essa é uma daquelas coisas básicas que a gente só descobre que sente falta quando a gente não tem. Aqui, por enquanto, tenho vivido muitos momentos em grupo e raríssimos – ou nenhum – momento de intimidade com os amigos. Aqui eu ainda não tenho amigos íntimos, fora alguns fortes candidatos ao posto. Mas fora isso, fora os candidatos, sou eu e eu mesma. E às vezes a gente acorda carente, saudosa, chorosa. Pode mesmo ser a TPM. Mas não faz diferença – é um dia após o outro, e cada dia tem suas coisas. Está tudo certo que eu tenha estado chorosa hoje, e que tenha preferido falar no MSN durante o dia do que fazer o UPR da Nicarágua. Como eu disse, tem dias e dias. Mas enfim, hoje acordei assim, sentindo falta dos momentos íntimos, com vontade de me aninhar no colo de alguém e só ficar assim, quietinha, recebendo cafuné. Uma coisa “de volta pro meu aconchego”.

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E aí chegar em casa e me deparar com a pilha de roupa a lavar, com a cama de casal grande e vazia, é a realidade nua e crua de que eu sou meu próprio aconchego. Legal. Se isso não é amadurecer, acho então que eu não sei o que é.

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A companhia exclusiva das pessoas com quem eu trabalho, seja no trabalho, seja no lazer, às vezes cansa. É muita mulher junta, muito estrógeno acumulado. Não dá mesmo.

Coitado do Paulo. Ele com sete mulheres sozinho em uma sala definitivamente não deve ser tarefa fácil.

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Ainda bem que meu plano de diversificar as fontes está dando certo.

Entre os estagiários da OMC encontrei meu novo companheiro de viagem.

E aí tem a Pryanka, indiana que conheci nos corredores da OMS, e a Catherine, italiana que conheci na casa da Jô, com quem tenho tentado me relacionar cada vez mais. As duas já me convidaram a freqüentar a casa delas. Isso, para um europeu, é um passo gigantesco de intimidade. Fiquei lisonjeada com os convites. A Pryanka quer que eu conheça os pais dela ( o pai dela é mega executivo de sei lá o que e eles moram aqui na Suíça há dezessete anos) e coma comida indiana e me sinta em casa, oferecendo a “família emprestada”. A Catherine quer “falar português, paquerar o Paulo, dar risada com as meninas brasileiras, e cozinhar um risoto para ser amiga de verdade porque, Mariana, você é muito bacana mesmo”.

Tem também o Amjr e sua tchurma de sérvios, carinhas bacanas e gentes finas cuja companhia eu adoro.

E tem o Tango. Tudo bem, a gente se fala mais ao telefone e por email tentando marcar alguma coisa do que se encontra de verdade. Mas fica sempre a tentativa. Eu e o Tango, pelo menos, me lembra São Paulo – a cidade onde as pessoas não conseguem se encontrar (como eu consigo ter saudades disso???).

E aí tem o pessoal do Couch Surfing: Alfonso, Tal, Jô, Jeanne, Raffaella – pelo menos as noites de quarta com o CouchSurfing estão sempre garantidas.

Para um mês de estadia, acho que consegui um grupo bastante diversificado. Então está tudo dando certo nesse sentido, embora aquelas saudades específicas às vezes apertem.

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Cada vez mais as pessoas têm me perguntado se eu volto mesmo, já que eu estou gostando tanto. Dia 16 de abril eu chego no Brasil. Mas a partir do dia 17 eu já não sei o que pode acontecer. Futuro aberto pode ser muito incômodo ou muito cômodo dependendo do ponto de vista. Previsibilidades têm me cansado. Procedimentos padrões só existem no modus operandi do século passado, a vida para mim tem sido o improviso puro do agora.

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Eu estou adorando saber que eu não sei o que será que será a partir do dia 17 de abril.

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Também estou adorando tirar fotos loucamente. Acho que vou fazer um curso de fotografia quando chegar em São Paulo. Aliás, chego em São Paulo com uma certeza: preciso cuidar das artes de dentro. Música, foto, escrita. Preciso fazer alguma coisa ou os três. Arte reprimida não é bom. Arte liberada tem me feito muito bem.

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Hoje, Dia de Iemanjá, dedicamos – eu e Catherine – flores na margem do lado. Foi um momento bastante bonito e poético. O vento estava gelado e a praia, ensolarada. Desejei muito, reforcei pensamentos positivos, agradeci tudo de sempre. É... a deusa da fertilidade, da novidade, da feminilidade, da beleza. Que ela nos acompanhe em nossas trajetórias, sempre.

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Itália, Itália, Itália. A Itália me chama.

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O tempo, rei, passa muito rápido. Passa e transforma pessoas e espaços. Há dois meses eu saí do Brasil. Dois meses tanto tempo é! E acho que passa mais rápido para quem saiu do que para quem ficou, embora para quem ficou as coisas também estejam rápidas. Mas assim, quase metade do meu tempo longe já se foi. E meu primeiro mês, vuft, acabou. Fevereiro vai passar rápido e março será um furacão. E aí, depois de respirar um pouco na Itália, eu cheguei de volta.

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Vai ser assim, sem fechar os olhos, muito rápido.

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Quatro meses e meio ora parecem muito, ora parecem pouco. Fica a vontade de fazer casa aqui. Fica a vontade de voltar pro Brasil que tem o caos, a cerveja da Dida, a carne vermelha a preços módicos. Fica a vontade de escolher Genebra, onde as pessoas se encontram (menos eu e o Tango).

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Você tem fome de quê? Quando eu tive fome de fondue, eu comi. Mas carne vermelha não dá. Estou vendo o dia que vou sonhar com uma picanha sangrenta na minha frente.

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Minha cama e meu abajur e meu edredom e meu livro me esperam. Amanhã o despertador toca de novo, e o sol estará lá, atrás daquela montanha, brilhando laranja de amanhecer. Mas já serão oito da manhã. Sol de inverno levanta preguiçoso.