terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

"Minha avó já me dizia

preu sair sem me molhar / mas a chuva é minha amiga / e eu não vou me resfriar"

OU
Tá na chuva é para se molhar.

E suas variáveis:
Tá no inferno, abraça o capeta;
Tá na lama, chafurda;
Tá na neve, congela o pé.

Enfim:
You can't always get what you want.

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Pois é.
Chegou ao nível de desespero e decepção que eu não queria que chegasse, mas chegou.
Minhas apostas nisso daqui ao longo de todo o ano passado foram muito altas para isso.
Eu ainda não consigo ver onde eu estou me desenvolvendo profissionalmente, fora algumas poucas e boas oportunidades de ouro.
Além do valor financeiro que eu precisei juntar, ano passado camelei muito, então já paguei adiantado um preço muito alto por estar aqui. Eu acreditava nisso aqui. Eu apostei mesmo, com vontade e convicção.
De novo, não custa repetir: EU ACREDITAVA NISSO AQUI.
E ainda me sinto uma sortuda de não ter precisado pedir demissão para estar aqui. Eu pediria, ano passado, se tivesse sido necessário. Não foi. Ufa, pelo menos isso, eu volto para o Brasil com o meu trabalho garantido (um fator de desespero a menos). E ano passado, para as meninas que virão nos próximos trimestres que me perguntavam se eu acho que compensaria pedir demissão, eu sempre disse que sim a elas. Hoje eu já não diria mais.
Hoje, um mês depois dessa rotininha de trabalho, estou lutando contra a correnteza para ficar feliz no meu trabalho.
E é como eu já disse: o maior benefício profissional para mim, uma vez aqui, é um emprego na ONU e uma propaganda legal do Akatu por essas bandas. Então após um mês testando o terreno e entendendo como as coisas funcionam, decidi que será só nisso os meus dois focos para os próximos e curtos tempos que tenho aqui. E vou carpintar e trabalhar para isso.
E agora, além de tudo, estou lutando contra o "fator revolta". Porque se eu deixar que ele se apodere de mim, aí sim a coisa vai ficar feia a valer.
E a que se deve o fator revolta, ó caro leitor que pergunta?
Oras, o fator revolta se deve ao grande investimento com baixíssimo retorno, ao trabalho de peão que a gente faz. O fator-revolta se deve à fazer materiais e materiais pró-forma, que todo mundo sabe que ninguém vai ler. O fator revolta se deve às inúmeras traduções que temos que fazer (porque, de fato, todo mundo aqui se matou de estudar na vida para ficar fazendo tradução para diplomata).
O fator revolta se deve, principalmente, à questão DESUMANA da fila do UPR. Nesse caso, a gente tem que ficar no meio da rua na porta da ONU desde madrugada, sob frio, neve, apenas para que o Brasil esteja bem posicionado na lista de speakers dessa reunião que "revisa" determinado país sob o ponto de vista dos direitos humanos. A desumanidade disso é comparável apenas à desumanidade da auditoria da IBM. Sete meses depois de um mês de auditoria desumana, eu descobri que não era isso que eu quero para mim e pedi demissão da IBM (óbvio, levando em conta zilhares de outras coisas).
Mas a questão é essa: trabalho voluntário, pago com suados francos suíços, não deveria passar nem perto de ser desumano. AINDA se tivesse o fator desumano mas o trabalho representasse um grande ganho sem precedentes para a minha carreira, tudo bem. Não é o caso. Mas sei que se o "fator revolta" me dominar, a coisa vai ficar preta. Por isso que hoje vim de blaser vermelho-vermelhão: para me dar energia contra o fator-revolta.

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Não posso, no entanto, ser ingrata com as coisas históricas que tenho vivido aqui.
Ontem à tarde sentei na mesa de negociação com a Ministra de Interior da Nicarágua. Nunca poderia imaginar que isso algum dia fosse acontecer. By the way, hoje e amanhã sento de novo na mesa com ela e sua trupe (óbvio que eu sou apenas uma parte da trupe brasileira, a que senta mais no cantinho, quase que caindo para fora da mesa - mas mesmo assim sou eu, lá).
Há quinze dias vi ao vivo nosso Ministro Celso Amorim discursar na Sessão Especial do Conselho de Direitos Humanos sobre o Haiti. Eu participei um pouco do desenvolvimento do discurso dele. Isso é lindo. E na hora que eu estava lá, ao vivo, vendo tudo aquilo, deu um embargo na voz, calafrios no corpo, sensação de reiki pela minha cabeça principalmente, e uma vontade louca de chorar.
Já tinha me sentido assim em algumas oportunidades em Copenhague. É assim que eu me sinto quando alguma coisa me diz que eu estou vivenciando ao vivo e a cores um momento histórico. E, é fato isso, nesses últimos meses virei colecionadora de momentos históricos. Nada mal para meus 27 anos.
E mais: tive a oportunidade de conhecer duas ilustres professoras da PUC de Direito, que participam das reuniões da ONU. Uma delas, conheci no próprio Palais (porque sou cara de pau e fui lá me apresentar) e depois a reencontrei vagando por Montreux, ela acompanhada por um namorado cinquentão gatérrimo. Conversamos um pouco à beira do lago e foi legal.
A outra, conheci domingo no café La Clèmence, quando perguntei se ela estava aqui como turista e ela disse que não, que faz parte do CEDAW da ONU. Ok, a conversa começou com uma cotovelada básica, porque ela é pessoa importante e age como tal. Mas depois eu consegui virar o jogo e ontem trocamos beijinhos no corredor do Palais, cada uma de nós indo para uma reunião, correndo, e ela foi um amor de doce de simpática. O Paulo ficou perguntando o que foi aquele sinal de intimidade todo, e eu respondi que "esperto é o pato, baby..."

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Também não posso ser ingrata com a experiência pessoal toda que estou tendo aqui.
Seria sacanagem.
Em Genève, de fato, tenho sido muito feliz e tenho crescido muito a cada dia.
Óbvio que, se fosse só pelo crescimento pessoal, talvez eu tivesse escolhido outra cidade, por tempos diferentes, e definitivamente gastando menos (porque baby, a Suíça é puro luxo, o supermercado mais barato daqui ainda assim é muito caro). MAS já que vim até aqui, então que seja bom e compense em pelo menos um dos aspectos.
Está compensando bastante no pessoal.

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Resolvi fazer compensar no meu francês também. Larguei dessa preguiça de ter conversas complexas em francês. Então eu olho para a cara do Amjr e falo: "regardez-moi. Talvez você não me entenda, mas você vai tentar me entender e vai me ajudar com o meu francês. J'irai essayer e nós vamos conseguir conversar direitinho". Ainda bem, nós temos conseguido conversar direitinho - e isso para mim é muito bom de verdade. Aí eu chego em casa e fico estudando francês, ou ligo a TV e fico ouvindo. E agora, no celular, só ouço rádios em francês que toquem preferencialmente músicas francesas. Resultado? Virei fã da música pop francesa contemporânea. Então se eu demorei um mês para sair da preguiça, tenho dois meses para ficar profissa nessa brincadeira de falar francês. Mas já percebi que esse sonho de ser poliglota algum dia é bem difícil, os nós linguísticos aqui são constantes. Porque na ONU é em inglês, com os países hermanos é em espanhol, com a Catherine eu a ensino a falar português, no escritório é fofocaiada em português e ainda por cima zuando de algumas coisas do francês, no meio da rua e com o Seu Mariano e o Amjr, em francês. Já viu, né? Maior confusão.

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Quando eu comecei esse post eu não me aguentava de revolta.
Agora já estou aliviada.
É só lembrar o quanto eu amo ma petite vie genevoise que tudo fica bem de novo.

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