quarta-feira, 17 de março de 2010

Eu disse sim

Genebra em sua versão insólita chega a ser no máximo aquele trânsito estranho de sábado no final do dia. Por isso que Genebra não surpreende e nem acolhe, porque ela é isso: flat, pasteurizada, serena, fácil.

Genebra é cidade plana em pleno mundo tão redondo!

Genebra é aquela varanda imensa no quarto da Jonction, de onde eu vejo toda a abóbada celeste e um pouco das janelas e dos telhados e das fumaças. Sob tudo isso, sob o peso das estrelas que brilham em cima, eu sento e penso no final dos meus dias. Sempre. E é com o sol nascendo atrás das montanhas que eu acordo, e aí ao invés de pensar eu agradeço.

Porque é só agradecendo e recebendo e assim por diante, e fazendo tudo isso sem muito pensar, que eu consigo entender isso aqui. Isso aqui, eu digo, o significado dessa cidade para mim.

Falta sal em Genebra, falta tempero, falta cultura urbana, tribo de rua, barulho, falta parede pichada, falta gente estilosa – as pessoas aqui, ou são peruérrimas-chiquetérrimas ao excesso, ou se vestem mal e sem estilo próprio. Falta um rapper, e parece que falta sonho para essa juventude de high school, que faz bagunça nos trams e fuma muito cigarro pelas ruas – e isso é o máximo que eles conseguem fazer de “proibido”.

Genebra não ressalta as cores – pelo contrário, as roupas em cores vivas das mulheres africanas da ONU, quando perdidas pelo centro de Genebra, viram quase cor pastel.

E então, no meio de tudo isso, eu fico assim perdida entre as pessoas e agradecendo. Porque foi aqui que tudo aconteceu, que muitas transformações se passaram, que o metabolismo acelerou e depois ficou devagar, que o vinho ficou banalizado, que eu parei de fumar, voltei a fumar, parei de fumar de novo e de verdade.

Genebra sedia a ONU – meu sonho de andar pelos corredores de lá foi realizado. O que você faz quando a realização do seu sonho vira uma decepção? Quando o choque de realidade dói na boca do estômago e te tira o ar? Quando minha auto-imagem cai por terra ao me deparar com tantas outras realidades? Uma construção e desconstrução e eu não sei a quantas eu chegarei de volta. Nossa, como eu quero chegar de volta. Uma parte de mim não vê a hora.

E então, naquela vidinha construída aqui, acaba a rotina gostosa. Que rotina eu prefiro? Posso ficar com as duas? Porque eu acho que ficarei para sempre, agora, com esse gosto de duas cidades, amigos, aqui e ali, e por todas as outras cidades que eu passar será assim. Quem mandou ser pessoa afetiva que se apega? O ciclo deve se repetir, ter várias casas, distribuir meu coração pelo mundo, parece difícil e ao mesmo tempo tão gostoso.

Vou sentir falta dos meus amigos daqui, da minha rotina daqui. Senti muita falta da rotina de São Paulo, dos meus amigos de São Paulo. E assim a gente vai, bipolarizando.

Meus medos – quando eu me deparo frente a frente com eles, acho que eu faço a careta mais feia. Porque eles vão ficando menores, aos poucos. E é só uma questão de encará-los.

Minhas paixões ficaram mais fortes – pela escrita, pela fotografia, pela música. Arte faz o sangue passear renovado pelas minhas veias.

É disso que se trata o CERN: o conhecimento pelo conhecimento, e é tão grande, que mesmo as conseqüências periféricas do experimento são gigantescas – o CERN “inventou” a internet-www “sem querer”. O CERN é muito específico, muito revolucionário, muito complexo, não dá insônia mas coloca a gente para pensar. Até onde o ser humano quer ir, e por que faz diferença descobrir o que houve no BigBang? É saber para poder responder. É apostar alto, altíssimo, e ver as conseqüências. O experimento é caro e tem estruturas quase que mitológicas, e exige de seus cientistas uma crença cega de fé extrema – a fé na ciência, usada a seu favor. Como disse um dos cientistas do filme, “se nada der certo, pelo menos a gente aprende que a gente sabe muito pouco”. Então, um experimento com orçamento anual de 1bi de CHF tem UM EM UM TRILHÃO DE CHANCES de dar certo – dar certo, no caso, é identificar o querido bóson de Higgs. Esse mesmo experimento chega aos extremos: ali são reproduzidas temperaturas como o 1,9 Kelvin, próximo do zero de Kelvin – sim, estamos falando do tal do zero absoluto. Aqui no CERN, essa é a temperatura mais baixa DA GALÁXIA. No mesmo experimento, reproduz-se a 2ª temperatura mais alta do Sistema Solar – só perdendo para o interior do próprio sol. E então, o experimento LHC (o tal do acelerador de partículas) é seu próprio protótipo. Quando questionado, o cientista diz que a segurança humana é a prioridade nível zero do experimento, ou seja, sem assegurar totalmente a segurança humana o experimento não acontece. Mas se ele, com essas cifras colossais, é seu próprio protótipo... então é de fé na ciência que vive quem acha que a segurança humana está 100% assegurada? Daí a minha mãe ficou preocupada com a minha ida ao tal do experimento. Minha resposta? Que se me acontecer qualquer coisa porque deu qualquer merda no CERN, que ela não se preocupe – em 15 segundos acontece ao Brasil, ao mundo inteiro. O CERN é assim, furiosamente gigantesco. Filme de ficção científica? Piada de mal gosto? Não. Isso é só a tal da física pura. Então eu desejo que o bóson de Higgs apareça (só para evitar suicídio em massa dos dez mil cientistas que participam do experimento) e que as conseqüências periféricas e inimagináveis sejam de impacto. Serão, certamente.

Por isso eu acho que, guardadas as devidas proporções, o CERN está para a humanidade e mais especificamente para a comunidade científica assim como esse meu período em terras européias está para a minha vida: aposta alta, impacto e investimentos gigantescos, resultado final quase que imensurável (do que pode ser bom e ruim e principalmente desse aprendizado anti-maniqueísta, o mundo não é maniqueísta, de que a definição de bem e mal, bom ou ruim, só depende do seu ângulo, do seu ponto de vista), conseqüências periféricas nobres e colossais.

Então,

sonhando com a picanha;

contando os dias;

aproveitando cada segundo;

com a certeza de morrer de saudades disso daqui (com a certeza de que as saudades serão uma constante – de Genebra quando eu estiver em SP, de SP e de Genebra quando eu estiver em qualquer outro lugar do mundo, e assim por diante e crescendo);

com a vontade de matar as saudades daí;

tentando encontrar todo mundo aqui;

já sabendo que eu vou morrer MORRER de saudades da Nana e da Lia, eitcha triozinho improvável e feliz que formamos;

já sabendo que Priyanka e Catherine, ai, entraram pro hall dos meus amigos que moram longe - porque eu realmente acho que não voltaremos mais a morar na mesma cidade, quizá no mesmo país, cada uma de nós tem uma história e ela só será próxima quando nos encontrarmos de férias - se eu não fosse da geração da internet, estaria perdidinha da silva;

desfrutando dos momentos que agora virei uma habitué da Residência da Embaixadora;

olhando para o céu na varanda na Jonction;

então é assim que eu vivo hoje em dia.

Annecy é viver em um conto de fadas no meio de tudo isso.

E no tram, a Nana fez que fez que comprou briga com a evangélica brasileira que ouviu a gente cantando “e essas feridas da vida, Margariiiida, e essas feridas da vida amarga vida” e disse que precisávamos encontrar Jesus na igreja mais próxima – meninas, tem uma igreja evangélica aqui do ladinho, bem atrás da Gare, é lá que eu vou, e que Deus as abençoe e permita que vocês vão lá também para encontrar Jesus.

Quase que eu soltei um vade retro para ela, mas acho que o caldo engrossaria. Então, enquanto eu me controlava, a Nana se descontrolava, e as duas começaram a discutir quem é mais importante: Nossa Senhora ou Jesus. E eu segurando o riso, e com medo daquela mulher de olhar bizarro que não parou de nos olhar. Inventamos uma história em sintonia e descemos no primeiro ponto possível.

Seja com CERN, com Annecy, com a crente do tram, com mil coisas e tudo, eu só tenho mais quinze dias de Genebra. Que não chega a ser insólita, mas exige um pouco de abstração. Eu disse sim – e acho que isso é suficiente.

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