quarta-feira, 3 de março de 2010

Tempo amigo, seja legal

Esse é um trecho de uma música do Pato Fu, "Sobre o Tempo".
Só porque o tempo passa MUITO rápido, verdadeiramente.
Minha última atualização aqui foi há duas semanas... e vocês ainda estavam carnavalizando. Duas semanas depois, entrei no meu último mês aqui. Já?

--
Para abrir o post com chave de ouro, atendendo a pedidos, atualizei meus álbuns no Picasa.
São eles:
Luzern:
De 15 a 19 de fevereiro de 2010:
Berna:
De 22 a 26 de fevereiro de 2010:
Gruyères:

--
Berna, de urso
Eu acho estranho ficar tanto tempo em um país sem conhecer a capital. É quase um tipo de ingratidão.
Então fomos para a bela Berna, onde vi um urso pela primeira vez na minha vida (mãe e pai, me corrijam se eu estiver mentindo, mas a nítida impressão é de que foi pela primeira vez mesmo. Não lembrava de ter visto ursos no zoológico quando a gente ia que eu era pequena)
A cidade é encantadora, pequenina, simpática, bonita, tem um rio (de novo!), tem museu do Einstein, tem prédios grandiosos, tem um relógio muito lindo e legal, tem um centro medieval, tem um parlamento grandioso.
Até aí, nada de realmente novo. Já estava começando a achar que a Suíça é, inteira, muito parecida. Tanto que ia dormir lá e acabei voltando para Genebra, porque deu para conhecer tudo em um só dia.
Mesmo assim, Berna tem um jeito único, uma catedral linda, um parque dos ursos.
E tinha um carnaval! Dessa vez, nós não fomos atrás do carnaval como tínhamos ido a Luzern. Mas o Carnaval nos pegou em Bern também...
E tem um tesouro escondido bem pouco conhecido: um Centro de Cultura e Museu do Paul Klee. Que tem todo o acervo do cara, conta a história de vida dele, tem as principais obras dele, e fica em um prédio um pouco longe do centro da cidade com uma arquitetura fantástica e uma vista linda e esculturas de gelo. Definitivamente, um dos pontos altos da visita a Berna - junto com o relógio, o urso, e o parlamento.

--
Gruyeres
Gruyeres é, então, a cidadela encantada dos contos de fada, cercada por muros medievais, com o castelo lá no alto, fabricante de um queijo que é um esplendor, localizada em um vale lindo no que eles chamam de pré-Alpes, e cercada de montanhas dessas que a gente acha que só nos filmes é que elas existem.
O dia em Gruyere foi feito de babar na paisagem, visitar o castelo, e comer um fondue no hora do almoço loucamente delicioso. Aquele sábado foi a nítida sensação de que a gente precisa muito pouco além de paisagens deslumbrantes, um paladar deliciado, a barriga quentinha de fondue, e a leve sensação de estar um pouco embriagada pelo bom vinho suíço para ser feliz.
No final, uma visita ao famoso Bar do Alien foi a "cereja transgênica do bolo chamado Gruyères".

--
Próximas paradas:
Interlaken
Yvoire e Annecy
Zurich

--
Ninguém aqui dá a mínima bola para o Oscar. Eu mal sei os filmes que estão concorrendo. Eles mal estão em cartaz. Nenhum jornal indica os candidatos, nenhum cinema explora a proximidade ao Oscar como uma forma de marketing e promoção.
Nessas horas eu só posso concluir que a Suíça é muito auto-suficiente e o Brasil, muito americanóide.
Eu mesma, como brasileira que sou, estou com saudades daquela corrida ao cinema que sempre acontece em fevereiro/março no Brasil. Ano passado mesmo, passei meu carnaval internada em uma sala de cinema. Quando chegou o Oscar, eu tinha assistido todos e até torcia pelos meus preferidos (ah, como eu amei Milk e com eu torci pelo Sean Penn, torci mesmo, de verdade).
Esse ano, não. Esse ano fui parar de pára-quedas na sala do A Serious Man e só descobri dois dias depois que ele é um dos candidatos ao Oscar. Mesmo assim, ainda não me desceu muito bem esse novo dos irmãos Coen, e eu não sei se eu gostei.
Hoje, em compensação, vou assistir ao Sherlock Holmes, que eu estou postergando há tanto tempo. Desde o Natal em Londres, mais especificamente.

--
Nessa cidade, calvinista, que dorme cedo e fecha cedo e amanhece tarde, idas ao supermercado são limitadas aos finais de semana (quando eu invariavelmente viajo, como vocês têm percebido) ou aos horários do almoço.
Mas essa segunda feira eu não podia fazer compras na hora do almoço e me deparei em uma crise de abastecimento sem precedentes nessa minha breve história suíça.
Lavar o cabelo? Não tem shampoo.
Escovar os dentes? Uma migalhinha espremida de pasta de dente.
Comer? Pão e só, ainda assim, só se for seco goela abaixo.
Daí descobri uma informação preciosa: o Migros do Aeroporto fica aberto até 21hrs!!!!!!! EEEEEEEEEEEEeeeeeeeeeeeeeeeeee
Cheia de pique, energia, e vontade de fazer compras, fui para casa, deixei para trás o salto alto, me muni de uma mochila vazia e duas bolsas de pano e fui aaaaaaaall the way até o aeroporto - que não é longe em números exatos, mas que considerando o tamanho de Genebra é REALMENTE LOUCAMENTE LONGE.
Comprei bastante, mas não tudo o que eu queria.
Supermercado aqui é assim: a partir de certa hora, as prateleiras não são mais repostas, e se não tem o que você quer, uma pena: senta e chora.
Voltei para casa tarde para caramba, feliz da vida, pensando no cardápio do jantar, e com uma vontade louca de lavar roupa.

--
Dessas coisas de dona de casa, eu só não tenho vontade de limpar.
Até agora não passei uma vassourinha sequer no meu quarto.
Mas tudo bem, dado que ele fica o dia inteiro fechado, e que eu mal fico em casa.

--
Hoje decidi me tornar mais culta e inteligente, quase chegando ao limite extremo do que pode ser uma pessoa cabeçuda. Lerei a tese de doutorado de um dos diplomatas daqui, para re-acender a chama da minha curiosidade filosófica.
O tema? Heidegger's Phenomenological Interpretation of Aristotle.
No email ele escreveu, ele mesmo, o autor da tese, que eu posso parar com o meu tarja preta para a insônia. Ele consegue ser um bom piadista.

--
Hábitos adquiridos que eu não quero perder nunca mais:
- banalizar o vinho: em qualquer canto, a qualquer momento, un verre du vin rouge s'il vous plais.
- musli + iogurte pro meu dia nascer feliz com um café da manhã saudável.
- chegar em casa à noite e ir para a varanda, ver esse céu enorme, ver os telhados dos prédios de Genève, ver os Alpes. (eu fico vendo aquele céu todo e pensando: "São Paulo tem tanto prédio que quase não tem mais céu!")

--
Coisas das quais eu sinto falta, rotina para a qual eu quero voltar:
- me cuidar com essas coisas: acupuntura, yoga, terapia, caminhadas/corridas ao ar livre.
- banalização do cinema. (pagando 18 CHF por sessão, cada cineminha é um passeio de luxo)
- rodízio de sushi e carne vermelha (que seja um bifinho, não precisa ser churrascaria não).

--
Mudanças de paradigmas:
- pegar quinze minutos de trânsito no caminho para o trabalho, devido a um acidente, já me fez falar: "Nossa, hoje eu peguei um trâââânsito para vir para cá!"
- oito graus e sol? É quase verão.
- o mesmo diplomata filósofo que me mandou a tese me disse que a cada dia ele se depara cada vez mais com seu próprio e inescapável cinismo com relação à vida, ao mundo, à profissão, às pessoas. Meu lado Poliana que reluta contra isso está perdendo força para meu lado um pouco descrente, que cresce com força. Algum dia eu viro cínica.

--
Terça musicais
Na terça outra: Jam session na AMR, Association pour l'encouragement de la Musique ImpRovisée
Na terça passada: idem
Ontem: show de Flamenco, o ritmo não a dança, no Le Soleil Rouge*.
* O Le Soleil Rouge vai abrir uma filial em São Paulo. Eu é que vou levá-lo para lá. Pelo menos entre meus amigos ele faria sucesso. Ele consiste em um buteco de vinhos espanhóis. Lugar para sentar não tem, então todo mundo fica de pé, apoiado no balcão, tomando bons vinhos. Se você quer comer, você vai até a cozinha comprar seus tapas - rápidos e gostosos e espanhóis. Mensalmente eles fazem shows de Flamenco, o ritmo não a dança, lá. Então, é o ritmo e a sonoridade gostosa do violão espanhol, com o drama da voz na música espanhola. O show foi fantástico.

--
Março já é fim de inverno e começo de primavera, a cidade fica mais clara, tem mais luz do dia, tem mais horas de dia.
Março tem o retorno da vida à Genebra, e a cidade fica movimentadíssima.
Começou segunda feira a reunião do Conselho de Direitos Humanos na ONU. Essa semana, ministros de Estado estão aqui fazendo seus discursos na Salle XX do Palais des Nations. E será assim o mês inteiro... ou seja, muitas pessoas dos países, ongueiros de todo o mundo, diplomatas... todo mundo lotando a ONU.
Começou ontem para a imprensa e sexta para o público o Salão do Automóvel de Genebra. Descobrimos no ônibus, falando em português em alto e bom som que "Genebra só pára para o Salão do Automóvel porque a cidade é muito pequena, e não porque o Salão do Automóvel é grande", que na verdade esse daqui é um dos quatro maiores salões do automóvel do mundo. Foi o jornalista da Quatro Rodas, que viaja o mundo vendo salões do automóvel, quem nos disse. Então eu achei melhor acreditar, porque de salão do automóvel o cara deve entender.
Começa hoje também um festival musical Voix de Fête, que acontece anualmente em vários bares, com várias bandas, algumas mais famosas do que outras. Eu quero ir, definitivamente.

--
O preço a pagar pode até ser alto, mas quando tem recompensa, ela é mais alta ainda.
Esse mês estará recheadinho disso, dessas pequenas surpresas que só Genebra e suas Organizações Internacionais podem te oferecer.
Hoje na hora do almoço, em um side event do Conselho de Direitos Humanos feito pelo governo cubano, assisti a um documentário sobre as ações dos médicos cubano no Haiti pós-terremoto. Lavagem cerebral à parte, o filme é bem bacana.

--
Dúvida existencial: incluir ou não a Costa Amalfitana no meu roteiro?
Uma parte de mim fala que a vida é agora e que seu quero ir para lá, eu devo ir.
A outra parte de mim fala que eu quero ir mesmo para lá na lua de mel, então que eu devo esperar.
Mas aí vem a outra parte e fale: mas se nem pretendente você tem, por que diabos você está pensando na lua de mel?
Ok. Costa Amalfitana aí vamos nós.

--
Da atividade laboral
Mês de março tem:
Conselho de Direitos Humanos na ONU
Governing Body na OIT
Convenção sobre o Tráfico Ilícito de Tabaco, na OMS
Acho que vai ser emocionante, a chave de ouro que eu queria.

--
Mês 1:
chegada, acostumando com a cidade, desapontamento do desânimo, e depois empolgação com isso aqui, com os novos amigos, com a nova rotina, com a língua, com tudo tudinho, paixão absoluta. A neve é linda.
Mês 2:
rotina estabelecida, cansaço do trabalho, desgosto com a vida, muitas filas do UPR, briga com o chefe, briga com o chefe, briga com o chefe, as coisas boas ganham nuances, as coisas ruins se acentuam, o carnaval faz muita falta. A neve cansa.
Mês 3:
decidi não pensar:
na aflição de voltar pro Brasil e em como as coisas estarão por aí,
nas saudades que começam a ficar muito difíceis,
nas saudades que eu ficarei daqui, principalmente dos meus amigos e da minha rotininha,
em como vai ser chegar diferente em um Brasil que está ficando diferente,
nas coisas ruins do trabalho.
Decidi de viver muito isso aqui e só.
O resto depois a gente vê.
Até porque eu não vou entrar em um ciclo similar ao que eu entrei no Brasil no final do ano. Já conheço isso, já sei o que é isso, pronto. Não preciso repetir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário