Dos meus últimos Dias Internacionais da Mulher:
2005: receber flores na porta da IBM e nada mais;
2006: idem;
2007: receber flores na IBM, telefonema fofo do meu ex namorado me agradecendo por ser mulher e por fazer parte da vida dele, e nada mais;
2008: trabalhei em pleno sábado, recebi uma mensagem do meu amigo sobre as mulheres superpoderosas que o cercam, participei da comemoração da formatura do meu irmão em casa, e nada mais;
2009: em um domingo de calor insuportável, eu estava super emotiva, fui ao cinema ver um filme suíço sobre a história de um avô e um neto que são aviadores, e encontrei uma amiga depois para um café. Em família, estávamos nos despedindo da minha avó – uma das mulheres mais importantes na minha vida.
2010, Oito de Março
07/03, domingo.
O dia 08/03 começou na véspera, quando discutíamos no trem o papo de buteco que defende que o dia da mulher já está obsoleto (leiam em Cor de Rosa Choque).
Ainda na véspera, quando cheguei em casa separei minha roupa para o dia seguinte – meu blazer vermelho era a principal peça do look.
08/03, segunda.
Acordei com tempo, tranquilamente. Tomei café, me vesti, fiz a make, e saí. A caminho do ponto de ônibus, o vento batia de um jeito que parecia que ele me levaria embora.
A manhã no escritório foi bastante ordinária, até cinco para uma, quando um dos diplomatas apareceu lá na nossa salinha oferecendo dois convites para um almoço na Residência da Embaixadora. Sem muito esforço, eu fui uma das duas “contempladas”.
Foi tudo muito rápido: pegar o casaco e descer. Só deu tempo para, na euforia, ligar para o meu pai e contar a novidade. Logo chegou o motorista, em uma Mercedez grande, para nos levar.
A porta do carro e da casa foi aberta por um mordomo brasileiro, que usava luvas brancas. Ele tirou nossos casacos, como nessas cenas que se vê em filme. Foi o tempo de a Embaixadora nos ver e falar: “Marianas, entrem, sejam bem-vindas!”. E circulamos pela sala, sendo apresentadas para as pessoas ilustres que lá estavam.
Uma das pessoas era uma diplomata com quem eu trabalho bastante, e que se sentiu íntima o suficiente para me encabular na frente de todos. Ao me cumprimentar, ela disse em alto e bom som: “Nossa, Mariana! Como você está descabelada hoje!”. Eu dei uma risadinha sem jeito e querendo dar um chute na canela dela, e ela completou: “deve ser o vento, né...”.
Ficamos todos sentados na sala de visitas falando sobre os mais variados temas, até que alguém pediu para tirar uma foto e eu tinha a máquina. Resultado? As fotos oficiais do almoço, todas, estão comigo.
Na sala do almoço. Para cada um de nós, um pequeno papel com o menu do almoço – como em um casamento, mas era um almoço para 12 pessoas. E no menu, em relevo dourado, o timbre do Brasil.
A comida estava deliciosa, e o vinho dispensa comentários, porque descia macio, leve e gostoso. E caiu bem, extremamente bem, para aquele almoço de segunda feira. Eu, com meu cabelo descabelado e o blazer vermelho, em um dia de muito vento.
A verdade é que eu não quero soar deslumbrada nem nada, mas apesar de alguns desencontros ideológicos e de valores humanos (esses que vêm com a criação, sabe?), meu primeiro almoço na Residência Oficial do Brasil foi realmente histórico.
Na OIT, o debate era entre mulheres trabalhadoras e a mesa, formada por mulheres com histórias emocionantes de luta pela igualdade e pela dignidade. Por diversas vezes, ouvir o depoimento com a história pessoal delas me emocionou bastante. É nessas horas que Genebra vale a pena: quando as coisas são positivas, elas são MUITO positivas. E a tarde na OIT foi simplesmente memorável, linda.
Em seguida tivemos um coquetel para a abertura da exposição que o Brasil organizou nos corredores da OIT, com artistas mulheres das três artes: fotografia, pintura e escultura. A parte boa do coquetel foi, na verdade, o pão de queijo – a gente só sente falta de certas coisas quando não as tem mais banalizadas, e pão de queijo definitivamente figura entre uma das minhas maiores saudades. E a parte boa da exposição é, na verdade, a exposição em si – com trabalhos, todos, bastante bonitos.
Continuando o dia, após alguns poucos minutos de volta no escritório, já fomos embora em direção ao Victoria Hall, procurando um last minute ticket para o show do Pablo Milanés que estava 100% esgotado. Momentos de emoção e barganha, adrenalina na veia, e então, exercitando meu lado mais árabe-negociador que eu tenho, conseguimos (ao som dos aplausos das pessoas, dado que ele estava entrando no palco naquele exato instante) três ingressos por 60 francos cada nos melhores (eu disse, os MELHORES) lugares do teatro, lugares esses que valeriam 130 francos se não fossem a negociação, a adrenalina, o last minute.
Uma hora e meia de show e de emoções, ouvindo aquela voz macia e gostosa, em músicas lindas, em um teatro de uma beleza louca. Saímos de lá, nós três, em êxtase absoluta, e realmente muito, extremamente felizes.
Quando eu cheguei em casa o vento batia gelado, ainda, e muito forte, e barulhento. Parecia que ele me levantaria do chão e me levaria embora.
Mas o blazer vermelho eu ainda vestia.
Na hora de ir dormir, eu não queria ir dormir, em um comportamento infantil de quem não quer que o dia acabe.
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Mulheres ilustres dessa semana
Sou mesmo cercada por muitas mulheres ilustres. Mas essa semana recebi o que eu gostaria de divulgar aqui, de duas mulheres ilustres e inspiradoras ao mesmo tempo.
Texto da Lia Maria
Lia é uma das meninas daqui do estágio, e uma mulher que me inspira. Ela me deu o texto abaixo querendo saber minha opinião (???) sobre ele, e eu perguntei se eu poderia divulgá-lo aqui.
Quando o frio corta a face pela manhã
Que parece noite,
Só a música para me acalentar.
Os griots me ensinaram que levamos um tambor
No peito e que a melhor coisa sobre a música é
Que quando ela te arrebata, te toca, te toma... você não sente dor...
Agora quando o vento gela... os olhos lacrimejam...
E a secura consome o ar... e a tristeza é senhora...
E não há filosofia nem bobo ashanti, nem água de alavante que me anime...
O silencio é discurso
E a certeza é tesouro
Momento de recolher...
Sem mais...
Eu consciência e eu espírito...
Me perder para me achar...
É tudo que quero:
Me esvaziar de mim mesma para me banhar em mim.
Hipérbole
Palestra da Tia Ana
Será nos dias 22 e 23 de março, das 19.30 às 21.30, e o tema não poderia ser mais encantador: Homenagem à Tarsila do Amaral e Anita Malfati.
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Fotos
São novas, todas essas:
http://picasaweb.google.com/mariana.chammas/2728020503#
http://picasaweb.google.com/mariana.chammas/Interlaken#
http://picasaweb.google.com/mariana.chammas/DiaDaMulherEmGenebra#
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Beleza na Suíça, beleza das pessoas
Na Suíça:
Interlaken e toda aquela região na base do Jungfrau é de uma beleza que eu nunca tinha visto antes. Impressiona e arrepia, por sua imponência, por suas montanhas, por seu tamanho, por tudo. Pelo seu frio, também: menos dezesseis Celsius já entra no hall das temperaturas difíceis para meu corpinho.
Das pessoas:
Um alto cargo de um posto na ONU demonstra sua humanidade e humildade. O outro alto cargo em outra organização internacional sediada aqui, também. Alguns dos diplomatas também. Isso quer dizer, por enquanto, que nem tudo está tão perdido.
Um dos diplomatas quer nascer um jardineiro suíço em sua próxima geração. As justificativas são longas e lúdicas. O desespero com relação ao multilateralismo inspira.
E então, na mesa de um pub, eu, um amigo que trabalha na ONU, e uma amiga que trabalha na Anistia Internacional, de repente inventamos o que seria a nossa Reforma da ONU. Isso porque a idéia era começar falando sobre como conseguir um trabalho na ONU. Eu agradeci ao Kevin, dizendo que a conversa tinha sido inspiradora. Ele me respondeu que as minhas idéias, a minha alegria e simpatia, e a minha beleza é que são inspiradoras.
Pôxa... que legal o jeito que começa meu último mês aqui em Genebra.
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