sexta-feira, 5 de março de 2010

O mundo está ao contrário e ninguém reparou

Como bem disse a Tam, é a revolta da natureza contra o não-resultado de Copenhague.
Eu não sei mais como isso se chama tecnicamente - seja mudança climática, seja aquecimento global, qualquer coisa.
A questão é que a natureza não está mais aguentando o que a gente tem aprontado nesse mundo. E 2010 começa assim, infelizmente, com toda essa revolta.
Eu adoraria ter mordido a minha língua quando, antes de sair do Brasil, eu falava aos quatro ventos "quantos tsunamis precisaremos ter para entendermos que precisamos mudar nosso estilo de vida?". Pois é. Acho que a multiplicação dos tsunamis começou, infelizmente.
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São Luis do Paraitinga e Angra dos Reis. Cidades devastadas, literalmente.
Sâo Paulo. O caos na grande cidade.
Europa inteira. Um inverno muito mais rigoroso que todos jamais poderiam esperar.
Portugal, Espanha, França. Furacão Xynthia.
Haiti. Um país inteiro destruído.
Chile. Idem, quase.
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Eu fico triste, muito muito triste, com essas histórias.
O mundo está ao contrário e ninguém reparou.
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Informe público, para os paulistanos:
Happy hour de solidariedade ao Chile e Campanha de arrecadação


Queridos amigos, comunidade chilena em São Paulo, amigos do Chile:

Estamos organizando para o próximo dia 10 de março, quarta-feira, a partir das 19h, umaHappy Hour de Solidariedade ao Chile e Campanha de Arrecadação para ajudar as vítimas do terremoto.

O evento acontecerá no tradicional restaurante chileno "El Guatón", que também estará como posto de coleta até o próximo dia 21/março.

Evento de Solidariedade ao Chile:

10/março, quarta-feira, a partir das 19h

Local: Restaurante El Guatón, Rua Arthur de Azevedo 906 - Pinheiros

O que estamos arrecadando:

- Cobertores, mantas, lençol

- Material de higiene pessoal: sabonete, pasta e escova de dentes etc.

- Roupas (especialmente de frio) para adultos e crianças,

Para aqueles que desejem constribuir financeiramente, indicamos abaixo o site de instituições chilenas que estão recebendo doações.

Contamos com a sua presença!

Um abraço,

Sr. Carlos "Guatón"

Sheila Saraiva

Zuleica Goulart

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Algumas instituições idôneas que estão recebendo doações financeiras:

Cruz Roja

http://www.cruzroja.cl/

Chile Ayuda

http://chileayuda.com/?page_id=77

Um Techo para Chile

http://www.untechoparachile.cl/

Hogar de Cristo

http://www.hogardecristo.cl/

Cáritas

http://www.caritaschile.org/portal/index.php

Às vésperas do Dia da Mulher

A busca por um mundo melhor passa por explorar mais o lado feminino da humanidade

Leiam!

quinta-feira, 4 de março de 2010

URGENTE! DESESPERO!

Acabei de descobrir que o Moby toca em SP, no Credicard Hall, dia 23 de abril.

Por isso, tenho duas dúvidas:
1- quem quer ir no show comigo???
2 - você, que quer ir no show comigo, pode comprar um ingresso para mim???

Já perdi o show do Moby uma vez e não estou a fim de perder a segunda.
QUEM VAI COMIGO?????

quarta-feira, 3 de março de 2010

Tempo amigo, seja legal

Esse é um trecho de uma música do Pato Fu, "Sobre o Tempo".
Só porque o tempo passa MUITO rápido, verdadeiramente.
Minha última atualização aqui foi há duas semanas... e vocês ainda estavam carnavalizando. Duas semanas depois, entrei no meu último mês aqui. Já?

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Para abrir o post com chave de ouro, atendendo a pedidos, atualizei meus álbuns no Picasa.
São eles:
Luzern:
De 15 a 19 de fevereiro de 2010:
Berna:
De 22 a 26 de fevereiro de 2010:
Gruyères:

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Berna, de urso
Eu acho estranho ficar tanto tempo em um país sem conhecer a capital. É quase um tipo de ingratidão.
Então fomos para a bela Berna, onde vi um urso pela primeira vez na minha vida (mãe e pai, me corrijam se eu estiver mentindo, mas a nítida impressão é de que foi pela primeira vez mesmo. Não lembrava de ter visto ursos no zoológico quando a gente ia que eu era pequena)
A cidade é encantadora, pequenina, simpática, bonita, tem um rio (de novo!), tem museu do Einstein, tem prédios grandiosos, tem um relógio muito lindo e legal, tem um centro medieval, tem um parlamento grandioso.
Até aí, nada de realmente novo. Já estava começando a achar que a Suíça é, inteira, muito parecida. Tanto que ia dormir lá e acabei voltando para Genebra, porque deu para conhecer tudo em um só dia.
Mesmo assim, Berna tem um jeito único, uma catedral linda, um parque dos ursos.
E tinha um carnaval! Dessa vez, nós não fomos atrás do carnaval como tínhamos ido a Luzern. Mas o Carnaval nos pegou em Bern também...
E tem um tesouro escondido bem pouco conhecido: um Centro de Cultura e Museu do Paul Klee. Que tem todo o acervo do cara, conta a história de vida dele, tem as principais obras dele, e fica em um prédio um pouco longe do centro da cidade com uma arquitetura fantástica e uma vista linda e esculturas de gelo. Definitivamente, um dos pontos altos da visita a Berna - junto com o relógio, o urso, e o parlamento.

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Gruyeres
Gruyeres é, então, a cidadela encantada dos contos de fada, cercada por muros medievais, com o castelo lá no alto, fabricante de um queijo que é um esplendor, localizada em um vale lindo no que eles chamam de pré-Alpes, e cercada de montanhas dessas que a gente acha que só nos filmes é que elas existem.
O dia em Gruyere foi feito de babar na paisagem, visitar o castelo, e comer um fondue no hora do almoço loucamente delicioso. Aquele sábado foi a nítida sensação de que a gente precisa muito pouco além de paisagens deslumbrantes, um paladar deliciado, a barriga quentinha de fondue, e a leve sensação de estar um pouco embriagada pelo bom vinho suíço para ser feliz.
No final, uma visita ao famoso Bar do Alien foi a "cereja transgênica do bolo chamado Gruyères".

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Próximas paradas:
Interlaken
Yvoire e Annecy
Zurich

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Ninguém aqui dá a mínima bola para o Oscar. Eu mal sei os filmes que estão concorrendo. Eles mal estão em cartaz. Nenhum jornal indica os candidatos, nenhum cinema explora a proximidade ao Oscar como uma forma de marketing e promoção.
Nessas horas eu só posso concluir que a Suíça é muito auto-suficiente e o Brasil, muito americanóide.
Eu mesma, como brasileira que sou, estou com saudades daquela corrida ao cinema que sempre acontece em fevereiro/março no Brasil. Ano passado mesmo, passei meu carnaval internada em uma sala de cinema. Quando chegou o Oscar, eu tinha assistido todos e até torcia pelos meus preferidos (ah, como eu amei Milk e com eu torci pelo Sean Penn, torci mesmo, de verdade).
Esse ano, não. Esse ano fui parar de pára-quedas na sala do A Serious Man e só descobri dois dias depois que ele é um dos candidatos ao Oscar. Mesmo assim, ainda não me desceu muito bem esse novo dos irmãos Coen, e eu não sei se eu gostei.
Hoje, em compensação, vou assistir ao Sherlock Holmes, que eu estou postergando há tanto tempo. Desde o Natal em Londres, mais especificamente.

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Nessa cidade, calvinista, que dorme cedo e fecha cedo e amanhece tarde, idas ao supermercado são limitadas aos finais de semana (quando eu invariavelmente viajo, como vocês têm percebido) ou aos horários do almoço.
Mas essa segunda feira eu não podia fazer compras na hora do almoço e me deparei em uma crise de abastecimento sem precedentes nessa minha breve história suíça.
Lavar o cabelo? Não tem shampoo.
Escovar os dentes? Uma migalhinha espremida de pasta de dente.
Comer? Pão e só, ainda assim, só se for seco goela abaixo.
Daí descobri uma informação preciosa: o Migros do Aeroporto fica aberto até 21hrs!!!!!!! EEEEEEEEEEEEeeeeeeeeeeeeeeeeee
Cheia de pique, energia, e vontade de fazer compras, fui para casa, deixei para trás o salto alto, me muni de uma mochila vazia e duas bolsas de pano e fui aaaaaaaall the way até o aeroporto - que não é longe em números exatos, mas que considerando o tamanho de Genebra é REALMENTE LOUCAMENTE LONGE.
Comprei bastante, mas não tudo o que eu queria.
Supermercado aqui é assim: a partir de certa hora, as prateleiras não são mais repostas, e se não tem o que você quer, uma pena: senta e chora.
Voltei para casa tarde para caramba, feliz da vida, pensando no cardápio do jantar, e com uma vontade louca de lavar roupa.

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Dessas coisas de dona de casa, eu só não tenho vontade de limpar.
Até agora não passei uma vassourinha sequer no meu quarto.
Mas tudo bem, dado que ele fica o dia inteiro fechado, e que eu mal fico em casa.

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Hoje decidi me tornar mais culta e inteligente, quase chegando ao limite extremo do que pode ser uma pessoa cabeçuda. Lerei a tese de doutorado de um dos diplomatas daqui, para re-acender a chama da minha curiosidade filosófica.
O tema? Heidegger's Phenomenological Interpretation of Aristotle.
No email ele escreveu, ele mesmo, o autor da tese, que eu posso parar com o meu tarja preta para a insônia. Ele consegue ser um bom piadista.

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Hábitos adquiridos que eu não quero perder nunca mais:
- banalizar o vinho: em qualquer canto, a qualquer momento, un verre du vin rouge s'il vous plais.
- musli + iogurte pro meu dia nascer feliz com um café da manhã saudável.
- chegar em casa à noite e ir para a varanda, ver esse céu enorme, ver os telhados dos prédios de Genève, ver os Alpes. (eu fico vendo aquele céu todo e pensando: "São Paulo tem tanto prédio que quase não tem mais céu!")

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Coisas das quais eu sinto falta, rotina para a qual eu quero voltar:
- me cuidar com essas coisas: acupuntura, yoga, terapia, caminhadas/corridas ao ar livre.
- banalização do cinema. (pagando 18 CHF por sessão, cada cineminha é um passeio de luxo)
- rodízio de sushi e carne vermelha (que seja um bifinho, não precisa ser churrascaria não).

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Mudanças de paradigmas:
- pegar quinze minutos de trânsito no caminho para o trabalho, devido a um acidente, já me fez falar: "Nossa, hoje eu peguei um trâââânsito para vir para cá!"
- oito graus e sol? É quase verão.
- o mesmo diplomata filósofo que me mandou a tese me disse que a cada dia ele se depara cada vez mais com seu próprio e inescapável cinismo com relação à vida, ao mundo, à profissão, às pessoas. Meu lado Poliana que reluta contra isso está perdendo força para meu lado um pouco descrente, que cresce com força. Algum dia eu viro cínica.

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Terça musicais
Na terça outra: Jam session na AMR, Association pour l'encouragement de la Musique ImpRovisée
Na terça passada: idem
Ontem: show de Flamenco, o ritmo não a dança, no Le Soleil Rouge*.
* O Le Soleil Rouge vai abrir uma filial em São Paulo. Eu é que vou levá-lo para lá. Pelo menos entre meus amigos ele faria sucesso. Ele consiste em um buteco de vinhos espanhóis. Lugar para sentar não tem, então todo mundo fica de pé, apoiado no balcão, tomando bons vinhos. Se você quer comer, você vai até a cozinha comprar seus tapas - rápidos e gostosos e espanhóis. Mensalmente eles fazem shows de Flamenco, o ritmo não a dança, lá. Então, é o ritmo e a sonoridade gostosa do violão espanhol, com o drama da voz na música espanhola. O show foi fantástico.

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Março já é fim de inverno e começo de primavera, a cidade fica mais clara, tem mais luz do dia, tem mais horas de dia.
Março tem o retorno da vida à Genebra, e a cidade fica movimentadíssima.
Começou segunda feira a reunião do Conselho de Direitos Humanos na ONU. Essa semana, ministros de Estado estão aqui fazendo seus discursos na Salle XX do Palais des Nations. E será assim o mês inteiro... ou seja, muitas pessoas dos países, ongueiros de todo o mundo, diplomatas... todo mundo lotando a ONU.
Começou ontem para a imprensa e sexta para o público o Salão do Automóvel de Genebra. Descobrimos no ônibus, falando em português em alto e bom som que "Genebra só pára para o Salão do Automóvel porque a cidade é muito pequena, e não porque o Salão do Automóvel é grande", que na verdade esse daqui é um dos quatro maiores salões do automóvel do mundo. Foi o jornalista da Quatro Rodas, que viaja o mundo vendo salões do automóvel, quem nos disse. Então eu achei melhor acreditar, porque de salão do automóvel o cara deve entender.
Começa hoje também um festival musical Voix de Fête, que acontece anualmente em vários bares, com várias bandas, algumas mais famosas do que outras. Eu quero ir, definitivamente.

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O preço a pagar pode até ser alto, mas quando tem recompensa, ela é mais alta ainda.
Esse mês estará recheadinho disso, dessas pequenas surpresas que só Genebra e suas Organizações Internacionais podem te oferecer.
Hoje na hora do almoço, em um side event do Conselho de Direitos Humanos feito pelo governo cubano, assisti a um documentário sobre as ações dos médicos cubano no Haiti pós-terremoto. Lavagem cerebral à parte, o filme é bem bacana.

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Dúvida existencial: incluir ou não a Costa Amalfitana no meu roteiro?
Uma parte de mim fala que a vida é agora e que seu quero ir para lá, eu devo ir.
A outra parte de mim fala que eu quero ir mesmo para lá na lua de mel, então que eu devo esperar.
Mas aí vem a outra parte e fale: mas se nem pretendente você tem, por que diabos você está pensando na lua de mel?
Ok. Costa Amalfitana aí vamos nós.

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Da atividade laboral
Mês de março tem:
Conselho de Direitos Humanos na ONU
Governing Body na OIT
Convenção sobre o Tráfico Ilícito de Tabaco, na OMS
Acho que vai ser emocionante, a chave de ouro que eu queria.

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Mês 1:
chegada, acostumando com a cidade, desapontamento do desânimo, e depois empolgação com isso aqui, com os novos amigos, com a nova rotina, com a língua, com tudo tudinho, paixão absoluta. A neve é linda.
Mês 2:
rotina estabelecida, cansaço do trabalho, desgosto com a vida, muitas filas do UPR, briga com o chefe, briga com o chefe, briga com o chefe, as coisas boas ganham nuances, as coisas ruins se acentuam, o carnaval faz muita falta. A neve cansa.
Mês 3:
decidi não pensar:
na aflição de voltar pro Brasil e em como as coisas estarão por aí,
nas saudades que começam a ficar muito difíceis,
nas saudades que eu ficarei daqui, principalmente dos meus amigos e da minha rotininha,
em como vai ser chegar diferente em um Brasil que está ficando diferente,
nas coisas ruins do trabalho.
Decidi de viver muito isso aqui e só.
O resto depois a gente vê.
Até porque eu não vou entrar em um ciclo similar ao que eu entrei no Brasil no final do ano. Já conheço isso, já sei o que é isso, pronto. Não preciso repetir.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Carnavália

Fiz uma seleção de trechos de músicas brasileiras para ilustrar esses meus dias frios e com muito trabalho aqui na Suíça, enquanto vocês aí estão na esbórnia carnavalesca dos trópicos.

"Todo dia ela faz tudo sempre igual / me sacode às seis horas da manhã / me sorri um sorriso pontual"
(Cotidiano, Chico Buarque)
Primeiro dia de fila. Acordei seis horas da manhã. E aí, sete horas da manhã na ONU.
Era ainda noite, nevava, fazia frio. Muito frio, tipo menos cinco. E nós lá - finas, maquiagem, salto alto. Todos os diplomatas dos outros países lá presentes tinham a cara amassada, assim como a gente. E, já que estamos em uma situação adversa, todos juntos, vamos tentar ser simpáticos uns com os outros. Mas eu fiquei com a impressão que simpatia nenhuma é suficiente naquele horário, sob aquelas condições.

"Quaquaraquaquá, quem riu? Quaquaraquaquá, fui eu..."
(Vou deitar e rolar, Baden Powell e Paulo César Pinheiro)
Então quando a crise se instala no grupo e parece que todo mundo (todo mundo, eu digo, a parte lúcida do grupo) vai sucumbir de tensão, cansaço, angústia, revolta e desapontamento, fomos comer no McDonalds.
E comemos e rimos e falamos alto e fizemos piada e falamos mal de um tanto que a barriga doeu e eu cheguei a, literalmente, chorar de rir. E isso durou muito tempo, uma hora e meia, duas horas, quizá. Tudo isso de risos esgoelados.
Mas aí, essa é aquela sensação de exceção, de situação extrema. Parece que a gente está dando muita risada e isso parece muito fora do lugar. Está tudo errado. E estava, mesmo. Aquele era o riso dos desesperados, não o riso dos relaxados. Sob pressão (e aqui estamos constantemente sob muita pressão, de um jeito que chega a fazer mal pela forma como as coisas são postas), rimos desesperadamente.
Quando eu cheguei em casa, o silêncio parecia pesar em cima de mim. Era como se o desespero que saiu no jantar na forma de gargalhadas estranhas, tivesse tomado forma como um peso absurdo, uma força da gravidade imensa, que fez meus ombros doerem e minhas sobrancelhas enrugarem a testa. Nessa quinta à noite, foi uma das vezes que eu mais pensei no Brasil e nas saudades de muitas coisas daí, e como eu gostaria de ter meus bons e velhos amigos, meus pais, meus irmãos, para poder ser escutada em minha revolta. Mas enfim, fiquei em silêncio, com dor nos ombros.
Nesse exato instante, pensei que eu pudesse estar experimentando alguma reação bipolar - como pode alguém, em meia hora, oscilar entre gargalhadas absurdas e dor no ombro? Mas aí eu decidi que o melhor a fazer seria parar de pensar e dormir. E foi o que eu fiz, me esparramando em minha gigantesca cama de casal com vista para os Alpes naquela estrelada estreladinha noite gélida.
A falta de vontade para acordar às cinco da manhã para ir para a fila de novo reinou, mas a sensação de grupo falou mais forte e lá fui eu para fazer a "troca de turno" com a pessoa que passou a noite na ONU. Dessa vez, o meu turno era das 6 às 9 da manhã, e inscrever oficialmente o Brasil na lista fazia parte dos meus atributos. Mas a pessoa do turno da madrugada não quis largar o osso, então ficamos em três. Se eu soubesse que era só para fazer companhia, e não para trocar de posto (como previamente planejado) eu teria ficado em casa sob o conforto dos meus lençóis. Ao invés disso, estava lá, no estacionamento da ONU, vivenciando uma "situação sui generis".
Quem riu? Fui eu.

"Eu quero é botar meu bloco na rua / brincar, botar pra gemer / Eu quero é botar meu bloco na ria / Ginga para dar e vender"
(Eu quero é botar meu bloco na rua, Sérgio Sampaio)
Luzern é linda. Parece aquelas encantadoras cidades que a gente acha que só existem nos cenários dos filmes. Um lago, montanhas, e casinhas alemãs.
Mas aí, no meio de tudo isso, no meio da rua, no meio do nada... andando entre as vielas, um bloco de carnaval! E outro, e outro! E quando a gente vê, quase se sente no Rio de Janeiro com tamanha profusão de blocos... as fantasias são elaboradas, as músicas também, mas nem de perto se assemelham a o que acontece no Brasil. Mesmo assim, é mucho loco andar pelas ruas de Berna se sentindo no barulhento mundo do Carnaval.
São muitos os blocos, por todos os cantos, pessoas sorridentes e felizes, realmente muito bêbadas também.
O frio castiga. Menos sete é aquela temperatura que, depois de um tempo, congela as bochechas e falar fica um pouco difícil, fora a sensação constante de dormência nos dedos dos pés e das mãos. Mas aí eu e a Catherine usamos a estratégia de duas horas de durabilidade. Depois disso, íamos sempre para algum lugar quente tomar chá e amolecer os dedos dos pés.
O pessoal que ficou em Genebra para o final de semana ficou pulando de bar em bar, na enorme profusão de carnavais brasileiros que aconteceram por aqui.
Eu fui a Luzern, em uma oportunidade única de ver e viver o carnaval suíço. Adorei.

"Ê! Ô ô! Vida de ga-a-do! Povo marcado, ê! Povo feliz!"
(Admirável Gado Novo, Zé Ramalho)
Daí foi assim. Cinco da tarde estourou-se a bomba que a fila na ONU já tinha começado, batendo todos os recordes de todas as outras filas. Eu me inscrevi, rapidamente, para o turno da fila das 21hrs às 24hrs. E logo saí, fugida, do escritório, para conseguir fazer o que eu tinha que fazer. Mas não consegui comer... resultado: o Amjr, que estava me levando para a ONU às nove, parou para comprar comida.
Depois de passar pela barreira dos seguranças, indefectíveis, veio a cena patética: eu lá, de cócoras (porque o chão estava sujo para sentar) no estacionamento da ONU, jantando meu kebabzinho, a menos três graus e dedos começando a doer. Quando finalmente chegou a chave da van que seria nosso abrigo durante o "turno da noite", veio a música na cabeça: povo marcado, ê, povo feliz... Então, eu e Nana, minha xará e amiga e companheira mais apertada daqui de Genebra, tivemos de novo nossos acessos de bobeira sentadas na van passando frio e ouvindo o GPS da van em italiano. Fizemos planos de ligar a van e sair do estacionamento da ONU fugindo para Paris... Mas acho que fomos caretas demais para isso. De qualquer forma, conversamos muito e demos, realmente, muita risada.
Meia noite, hora de troca de turno, ainda fizemos um "h" com a pessoa do próximo turno (o turno da noite inteira - 00hrs - 06hrs). E pegamos o último tram para casa, das 00.47, saindo da arrêt Nations.

"Eu fico com a pureza da resposta das crianças / é a vida, é bonita, e é bonita!"
(O que é, o que é, Gonzaguinha)
Hoje acordei mais tarde e vim trabalhar mais tarde. Merecia, após a noite de ontem.
Genebra não tem perua escolar como em São Paulo. Então os professores, em um grupo de 3 ou 4, levam todas as crianças para cima e para baixo de transporte público. E essa é uma cena bem comum, pelo menos nos ônibus que passam pela minha região.
Hoje quando chegou o 11 Jardin Bothanique das 10.57 pela minha casa, eu via MILHARES de pessoas dentro do ônibus e não entendia nada do que acontecia... quando eu entrei, eu percebi que ele estavam lotado porque as crianças estavam aos montes dentro desse ônibus. E todos os adultos, usuários normais do transporte público, se espremiam no corredor. Então estava UMA FARRA no ônibus, bagunça, barulho. E ainda por cima, a cada curva no ônibus, enquanto os adultos tropeçavam no ônibus e tentavam se equilibrar, as crianças davam risada. Após uma hora, todos os adultos, e as crianças, estavam morrendo de rir.
Entrar naquele ônibus hoje, cheio de crianças sorridentes e barulhentas, me deu outro pique para o dia e para a minha temporada aqui.

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Postei aqui no blog, como prometido, algumas fotinhos da Vieille Ville e do Carouge. Eu amo a minha vidinha em Genebra.

Carouge

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Vieille Ville

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