sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Número dois da série

Mais um da série "das coisas ruins de se estar longe".
Daí em seguida eu descobri que eles virão para cá para Genebra dia 09 de abril. Mas nesse dia devo estar tomando um café em Firenze, se tudo for como o planejado.
É, galera, sopro no ombro que a vida não é fácil não.
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Em compensação devo assistir o Pablo Milanes aqui. Bacana, né?
E só não assisti ao Eros Ramazzotti porque não tive companhia... acho que todo mundo acha ele brega. Menos eu, que acho ele lindo-maravilhoso-gostoso-italiano-dos-sonhos-de-qualquer-mulher-com-músicas-poéticas-e-românticas.
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Sumi essa semana porque foi realmente uma semana atípica de duas visitas lindas e gostosas na minha casinha. Acho que enlouquecemos o Sr. Mariano, coitado.
Depois conto os detalhes.
A boa notícia é que a Fá tem usado muito a minha varanda e está super apaixonada por ela. Fico feliz: já que eu não uso, tem quem use.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Saindo do forno

Aqui:
http://picasaweb.google.com/mariana.chammas

Fotos de Montreux, de Paris, e fotos novas de algumas ocasiões em Genebra (esses de Genève são os álbuns com datas).

Divirtam-se, que após o próximo final de semana vou para o festival de balões de ar quente em Chateau D'Oex e terei ainda MAIS FOTOS!

Aquele aperto

Justo nesse ano que eu não estou aí, a comemoração do aniversário de São Paulo teve Milton Nascimento e Lô Borges.

Justo eu, que sempre fui super entusiasta de comemorar bem o aniversário de São Paulo, e sempre amei ir aos shows de aniversário da cidade, e sempre escolhi ficar em São Paulo nesse feriado exatamente para curtir a programação;

Justo eu, que tanto AMO o Milton Nascimento e suas músicas e não vou em um show dele há realmente muitos anos;

não estava aí.

Óbvio que eu já sei o discurso blábláblá "mas em compensação você está na Suíça, na ONU", piriri, pororó... esse discurso é muito previsível já. Eu sei que tudo na vida é uma questão de escolhas.

Mas que dá aquele aperto saber que eu não estava aí, justo nesse ano, justo nesse show, ah, isso dá...

Sopro no ombro, hein? Aquela força.

Bipolar

Ontem, quando eu percebi que tinha perdido minha carona da Gare até em casa, andando sozinha com mala e sacola e casaco e cachecol e chapéu pela noite garoenta e deserta em Genebra, bipolarizei.
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Antes a música que estava na minha cabeça era Young Folks, do Peter Bjorn and Mary. Música feliz de quem volta feliz de Paris.
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Depois, no caminho inteiro da Gare até a arrêt, e depois dentro do ônibus até aqui em casa, foi Come Pick me Up, do Ryan Adams.
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Acho que gaita combina com garoa e a voz chorada dele combina com aquele meu silencioso chamado incessante e não atendido.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Novidades picadinhas

Paris é uma festa. Mesmo.
Mas já estou de volta à província e à vidinha de cidade de interior.
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Eu, lá, parecia a prima do interior visitando a prima da cidade grande. Acho que me adaptei demais e de forma muito rápida a essa comodidade de vida fácil na cidade pequena. Acho isso bom e, ao mesmo tempo, assustador.
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Fotos? Tenho muitas. Montreux, reunião na Organização Mundial da Saúde, a famosa vista do meu quarto (com a qual eu me espreguiço todos os dias antes de levantar da cama) e Paris. Vídeo? Tenho um, que vai mudar a vida de vocês. Aguardem cenas do próximo capítulo, nessa internet capenga é um pouco difícil fazer o upload. Mas promete que em breve coloco tudo online e faço um grande estardalhaço. Vocês não podem perder o videozinho, em especial.
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Coisa brasileira que acontece na Suíça: atraso.
Ontem meu trem Paris - Genève demorou uma hora e meia a mais de viagem porque um problema nos fios de circulação de energia elétrica impediu que ele viesse na velocidade TGV e ele veio na velocidade normal. Perdi minha carona da Gare até em casa por isso, e por pouco perdi também meu último ônibus.
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Coisa suíça que jamais aconteceria no Brasil: respeito de vizinhos.
A DHL veio me procurar em casa na sexta feira, com uma entrega dos meus pais. Eu não estava, e só voltei domingo à noite. Resultado: eles grudaram na porta de entrada do meu prédio um protocolo falando que eles tinham vindo e não tinham me encontrado, e que era para eu apresentar esse protocolo para retirar a minha entrega. Agora, pensem: eu moro em um prédio de sete andares, com seis apartamentos por andar. Quantas pessoas não circularam por essa mesma porta de sexta de manhã até domingo à noite??? Pois é. Meu protocolo resistiu bravamente na porta, nem parece que ninguém nem tentou mexer com isso. A pergunta que não quer calar: quando é que isso aconteceria no Brasil???
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Daí
Ao acompanhar as notícias daí, duas coisas inescapáveis de Brasil me dão uma preguiça louca e indescritível.
São elas:
- prefeito Kassab e São Paulo afogada.
Senta e chora, galera. O prefeitinho conseguiu detonar nossa cidade. E fez tudo isso com um lindo sorriso na boca e com o gosto doce na boca, de um DEM nanico e arcaico dominando um PSDB jurássico que está mais estranho do que nunca. Eu NÃO SUPORTO ouvir aquela vozinha de língua presa que ele tem. Me dá ânsia de vômito.
E para além disso, saber que muita gente que eu conheço votou nele me faz perder aquela fé na humanidade que eu tinha quando eu saí de Copenhagen. Sim, a política nacional, e especialmente o Kassab à frente de São Paulo, me é desesperador desse tanto.
- calor louco.
É verdade: três graus me caem bem. A partir de menos sete dá um certo formigamento no rosto e eu paro de sentir os dedos dos pés e das mãos. Mesmo assim, é melhor que os mais 36 de vocês, que me dá um suadouro descontrolado em todas as glândulas. E digo mais: mais do que nunca, me vestir pro inverno é melhor do que pro verão. Estou adorando a moda inverno européia e vou voltar pro Brasil na vanguarda.
Bom, fora a grotesca polêmica do Jobim com a compra dos caças e com os direitos humanos, e fora a ajuda brasileira ao Haiti (mas Haiti não conta porque é hors concurs, café com leite), isso é tudo o que acontece nesse Brasilzinho de meu Deus antes do Carnaval: chuva e calor e suas consequências.

Daqui
Voltei de Paris;
Essa semana minhas primas chegam para bagunçar meu quartinho na Rue des Pechêries. Tudo pronto, só falta a farra;
Devo ir (só preciso agitar) para Chateau D'Oex no final de semana. É nos Alpes, e te um dos mais lindos festivais de balão do mundo. E é o segundo maior festival de balão da Europa...
Imaginem?? Montanhas brancas, céu azul, e zilhares de balões nos céus??
Essa semana vai rolar Sessão Especial do Conselho de Direitos Humanos sobre o Haiti. Olha, de verdade, eu estou SOFRENDO muito com essa história do Haiti. Mas é muito bom estar no lugar certo na hora certa. Para o caso do Haiti, o lugar certo é lá mesmo, para colocar a mão na massa. Mas o segundo lugar mais certo para se estar é Genebra. O berço dos direitos humanos e de todas as organizações humanitárias.
Oh Yeah.

É isso aí, galera... o cuco suíço bateu meia noite e eu ainda preciso esticar roupa no varal.
Escrevam-me!

Beijo no joelho, abraço no umbigo, sopro no ombro.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Das diferenças que a gente desconhece

Contexto:
no carro, pelas ruas de Genève. Saindo do pub onde teve o karaokê, meu amigo sérvio que é refugiado de guerra e mora aqui há dez anos estava me levando para casa.

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(...)
- É estranho isso, é muito diferente do que eu jamais vi na vida, ou do que eu possa conhecer. Isso de ter uma guerra, e de conhecer uma guerra, sabe?
(e aí, acho que pelos meus erros de francês, ele começou a me contar O QUE É a guerra na ex-Iugoslávia. Eu o interrompi)
- Eu sei o que é a guerra, acompanhei pelo jornal, estudei na escola. Eu sei na teoria o que aconteceu no seu país. O que eu quis dizer é que eu não consigo nem imaginar o que é passar por uma guerra, é totalmente diferente de qualquer coisa que eu possa ter vivido. Isso de perder gente querida na guerra, de ter medo de entrar uma bomba pela janela.
- É, a guerra é difícil. Eu ia e voltava da escola ouvindo os barulhos de bomba, pensando onde cairia a próxima bomba. Meus amigos na escola (...)
(ele ficou engasgado, um tempão em silêncio, e quando eu percebi tinha escorri uma lágrima. Aí ele continuou)
- A gente pode não falar da guerra no meu país? A gente pode combinar que você nunca mais vai me perguntar da guerra e de o que é viver na guerra?
- Claro que podemos.
(Silêncio. Mortal.)
(...)
- Então tá, obrigada pela carona e ótimo final de semana.
- Para você também. Cuidado em Paris, a cidade é muito grande.

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Esse diálogo explica muito das diferenças que temos. Para começar, a cara de sofrido. Ele tem trinta anos e muitas rugas mesmo. Depois, as vontades e os objetivos e os sonhos. Ele quer morar em uma casa e ter comida para comer e sair com os amigos para o bar. Está bem assim.
- Mas Amir, qual seu sonho na vida? O que você quer de muito grande?
- Meu sonho na vida é isso que eu vivo aqui. É ter meu trabalho, meu carro, meus amigos, minha casa, e poder tomar café da manhã, almoçar e jantar todos os dias. Sem ouvir barulho de bomba no fundo. Eu não sei sonhar mais do que isso.
A loucura é que tudo que eu NÃO quero é essa vidinha pacífica, quiçá medíocre, do salário no bolso e a comida no prato (o barulho da bomba nem entra em questão na minha cabeça). Eu fico nessas de querer sempre mais, de sonhar alto, correr atrás realizar, sonhar mais alto, me superar, sempre, querer mais, sempre, querer ser maior dentro de mim mesma a cada dia.
Ele quer o salário e a comida e isso, para ele, já é grande o bastante.

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Quando eu cheguei no meu quarto, tudo estava em sua paz de sempre, a roupa no varal estava seca, e eu arrumei minha malinha para o final de semana em Paris.
Mas desde esse diálogo, alguma coisa tem me perturbado, algum aperto no coração que eu nunca senti, um tipo diferente de aperto, de alguma coisa muito nova.
O que será que o Amir viveu e viu na guerra?
E essa pergunta não me sai da cabeça.
Mas eu sei que eu nunca mais perguntarei, pelo menos não para ele.

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Ele tinha dito que ainda hoje, quase dez anos depois, quando ele dorme ele sonha com o barulho de bombas.

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Em muitas oportunidades nessa viagem, tenho vivido o fim do mundo tal qual eu o conhecia.
A carona de ontem foi isso.
Meu amigo, me levando para casa, e em um diálogo simples e rápido,
vuft.
Mudou.
Durma com esse barulho, Mariana.
Não o das bombas. Pelo menos isso.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ensaboa, mulata, ensaboa

OU:
da atividade laboral.

Já que muita gente tem me perguntado o que eu tenho feito aqui no dia-a-dia e como é a rotina de escritório, resolvi escrever algumas linhas sobre isso.

O estágio é bem bacana, de fato, mas ainda estou esperando a hora que vai acontecer alguma coisa BÁRBARA que vai me fazer apaixonar por isso que faço aqui. Ainda não rolou, até porque o que eu faço aqui é bastante difuso.

Meu rol de atividades inclui desde fazer pesquisa e escrever relatório até guardar uma mesa no restaurante de bandeijão da OMS para a Ministra (um cargo diplomático, não ministra de Estado, pelo menos não por enquanto) poder fazer, junto com toda a delegação brasileira e mais uma outra galera, uma reunião na hora do almoço.
Bom manuseio da máquina de xerox da Missão também é um dos pré-requisitos essenciais para o bom andamento do meu trabalho, dado que uma passadinha por lá é uma constante nas nossas vidas.
Saber distribuir documentos entre todos os presentes em uma reunião também é uma das atividades que me compete, e fazer isso com a destreza e a habilidade necessárias é realmente desafiador.
(só um parênteses: um dos pré-requisitos desse programa é ser, no mínimo, pós-graduado com mestrado)

Mas não é só disso que é feito meu estágio (ufa!!!!), embora essas atividades estejam aí fortes para a gente.

Estou gostando bastante da parte da pesquisa e dos relatórios. Atualmente tenho pesquisado sobre Fiji e Iran, com foco em direitos humanos, porque em fevereiro haverá o UPR (Universal Periodical Review) desses países na Comissão de Direitos Humanos. E ontem mesmo fiz uma pesquisa rápida sobre nutrição infantil e se o Brasil tem ou não alguma regulamentação para publicidade de produtos que substituam a lactação.
Também fazemos algumas traduções, dependendo da demanda dos diplomatas quando eles querem enviar algum "telegrama" para a Capital. E eu também gosto de fazer traduções...

Para o UPR, todo mundo está fazendo pesquisa como loucos... e no dia do UPR temos que chegar na fila dos speakers lá pelas 3 ou 4 da manhã da noite anterior.
Então, durante o carnaval de vocês, mais especificamente de domingo para segunda do feriado, lembrem-se de mim. Quando for duas da manhã daí, cinco da manhã daqui, eu estarei lá fora no portão da ONU esperando para entrar na ONU correndo literalmente (é tipo o portal dos desesperados) para inscrever o nome do Brasil na lista dos speakers para o UPR do Iran. Aí, às nove e meia da manhã, o diplomata que estará comigo nesse UPR chegará impávido, gravata no lugar, bainho tomado, para fazer seu discurso.
Mas o nosso chefinho fica nos motivando com relação a isso. Ele fala que ficar na fila é maior legal para fazer amigos de outros países, então na verdade eu estou realmente empolgada com a possibilidade de tomar chá dos japoneses (ele disse que tem gente que leva garrafa térmica para a fila) e sentar na almofada com os indianos, praticar um pouco de meditação (ele já viu isso acontecer também).
(só um detalhe: tudo isso a menos cinco, menos três, nessa Suíça que só amanhece oito da manhã).
Esse UPR que ocorrerá no meio do carnaval de vocês é exatamente o mais emocionante, o do Iran. E eu acabei de negar um convite para um final de semana na Alemanha NESSE EXATO final de semana porque seria impraticável chegar de Berlim tarde da noite e quatro da manhã acordar para ir para a fila. Ossos do ofício.

Outra coisa que eu estou AMANDO é acompanhar as reuniões entre os diversos países sobre os mais diversos temas. Semana passada eu acompanhei as discussões do Right to Development no Conselho de Direitos Humanos. Essa semana estou acompanhando o Executive Board da OMS. Me sinto no MONU, tem um chairperson (moderador) que fala "Eu agora reconheço a palavra ao delegado da Uganda" e aí vai lá o delegado da Uganda e fala piriri pororó sobre as políticas do seu país sobre prevenção ao alcoolismo. Mesmo nessas reuniões legais, o chato disso é que precisamos fazer um relatório depois. Urgh. Mas o legal é que eu acabei de receber carta branca do Conselheiro (outro cargo diplomático) para fazer corpo a corpo com as outras delegações e obter co-patrocinadores para as nossas propostas de resoluções. Essa é a hora legal de conhecer gente nova e usar todo meu charme negociador árabe-brasileiro para conquistar umas assinaturas.

Eu também gosto da nossa primeira atividade do dia, que é ler os jornais do mundo inteiro e fazer o clipping do que é relevante que os diplomatas saibam. Ou seja, o jornalzinho que os diplomatas lêem todas as manhãs, somos nós, as estagiárias que fazemos. É um pouco difícil acreditar que eles lêem tudo isso, mas eu acho legal fazer. Adoro selecionar váááááááárias notícias da Al Jazeera para promover um ponto de vista um pouco mais terrorista sobre as coisas do mundo. É nessa hora que entra a máquina de xerox, já que temos que fazer as cópias e entregar para a Embaixadora e as duas Ministras.

Enfim, por enquanto a rotininha de trabalho é assim... entre clipping, pesquisas, relatórios, reuniões e a máquina de xerox.
Poderia ser mais legal e desafiador, mas quando eu coloco tudo isso nesse mágico contexto Genebra / ONU / todas as outras organizações internacionais do mundo/mundinho diplomático, a brincadeira ganha ares de coisa de gente grande.
E aí fica bem legal.

ps.: babem. Esse post foi escrito, quase que integralmente, durante o coffee break no Executive Board da Organização Mundial da Saúde, diretamente na sala principal da Assembléia geral da OMS.
ps.2: o croissant de chocolate do coffee break da OMS é, no mínimo, uma tentação ardente da qual eu fujo com dor no peito.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

It's gonna be a bright sunshine day

Já estou com a sensação de que possivelmente três meses serão só o suficiente para dar um gostinho de quero mais.

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E então, dentro dessa ordem tão organizada, dessa cidade tão limpa, de tudo em seu lugar, eu me apaixonei pela cidade.

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Por enquanto, um dos melhores momentos da minha rotina é o ato de despertar. Eu lá, na minha grande cama de casal, acompanhada do meu edredom gordo, fico olhando pela janela. Meu tempo do snooze do despertador sou eu fazendo preguiça na cama e vendo o sol nascer laranja nos Alpes oito da manhã. Todos os dias que eu faço isso (e tem sido todos os dias que eu tenho feito isso), eu juro que eu penso que felicidade é muito simples e depende de poucas coisas e de um olhar querendo de fato enxergar essas poucas coisas.

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Fora esse final de semana em Paris, é bem provável que nos outros eu fique a conhecer a Suíça mesmo. Com honrosas exceções a Annecy, Lyon e Strasbourg, é a Suíça que eu quero conhecer e só. País bonito do caramba, nunca vi... É realmente de uma beleza muito impressionante.

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Então nos planos estão: Zermatt/Matterhorn, Interlaken/Jungfrau, Chateu D’Oex, Lucerna, Zurich, Berne. Tudo a não mais que três horas de trem de distância. E super incluso um desconto de 50% no paocte de demi-tariff que eu comprei. E agora que eu comprei, vou ter que usar para compensar o investimento. Ênfase no “vou TER que”.

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Andar de trem é muito legal mesmo. Amei minha viagem até Montreux. Fora a estada em Montreux, amei de verdade o trajeto, lindo, beirando o lago o tempo todo. Emociona, até.

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É aquela coisa: o trajeto é melhor que a chegada. O caminho é melhor que a estadia. Acho que é isso aí. Que seja sempre isso, porque senão essa obstinação por objetivos torna a vida uma lista de coisas a serem feitas e só. Desejo a todo mundo que desfrute muito de seus próprios processos, bons.

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Quero passar a Páscoa em algum lugar bem católico, para tirar fotos bonitas de procissões e comoções religiosas. Sugestões são aceitas. Acho que essas coisas eu só vou ver dentre os latinos, de forma que para as minhas férias Portugal e Espanha entram na lista, e talvez Rep. Tcheca e Áustria saiam. Não sei. Dúvida. Ajuda? Sugestões?

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Montreux é a Suíça um pouco fora da ordem. Dá para imaginar a baderna que Ray Charles, BB King, Frank Sinatra, o próprio Frank Zappa (Smooooke on the water foi escrita em Montreux), Freddie Mercury e sua turma, e Elis Regina entre outros devem ter feito no festival de junho? E todos os outros que fazem baderna até hoje então?? A cidade transpira arte, jazz, furdúncio. É uma coisa fantástica.

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Ao mesmo tempo, ela também transpira luxo. Se em Genebra isso já é banalizado, lá isso é tão mais que banalizado que chega a dar um engasgo no coração.

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Perdi 20 francos em meia hora de uma brincadeira qualquer no Casino de Montreux. E foi assim, com dor no bolso, que aprendi que com cassino não se brinca não. Lição aprendida.

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Montreux é o começo das paisagens oníricas dos sonhos suíços. Quando eu penso em paisagens oníricas, daquelas que nunca existem nem jamais existirão, penso em uma coisa que, na verdade, existe. E se existe, só existe na Suíça. Paizinho bizarro em tantas outras coisas, mas em beleza natural é imbatível. Isso porque eu mal comecei meus tours...

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Montreux é porta de entrada pros Alpes. Lá, a cidade se espreme entre o lago e a montanha, e sobre morro acima. Logo mais posto as fotos. Juro que arrepia de lindo. Para mim, a sensação de estar lá foi mais ou menos “nunca te vi sempre te amei”.

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Já que lá no escritório pega bem falar que chegou em casa e ficou fazendo relatório até uma e meia da manhã, resolvi começar a falar isso também. Assim eu me sentia mais parte da turma. Parou de ser legal quando isso começou a se concretizar: eu estava fazendo relatório até agora há pouco, e são cinco para onze da noite.

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Sexta feira fomos em um pub de expatriados aqui em Genebra, super conhecido pelas pessoas que trabalham nas organizações internacionais. Formou-se assim a congruência bizarra: éramos cinco brasileiros, quatro meninas estagiárias e o chefinho de todo mundo. A isso se juntou a Catherine, italiana sangue bom a quem eu tinha conhecido na noite anterior, e que trabalha na Anistia Internacional. Daí veio um soldado americano que estava de férias e quis vir conhecer a ONU para saber por que ele trabalha pela paz no mundo. Ele puxou papo no balcão e veio se sentar com a gente. Formou-se o misturada toda: cinco brasileiros, uma italiana (da Anistia), um americano (soldado de guerra, Iraque no currículo). Brasileiro atrai, é uma coisa de louco. É ímã. Todo mundo gosta de um bom brasileiro.

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A isso tudo, depois de um tempo somou-se um grupo de três imigrantes sérvios que estão aqui como refugiados de guerra há mais de dez anos.

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O soldado pagou uma rodada de tequila para a gente – porque o acolhemos muito bem. E a italiana ficou dançando com ele loucamente – segundo a frase do meu chefinho, era a “Dança de Shiva, porque afinal uma pessoa da anistia com um soldado ex-Iraque dançando, só pode ser mudança radical de paradigmas”.

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O americano já voltou pro seu país, Deve ser enviado para as forças de paz no Haiti. A italiana e os sérvios estão aí na parada. Todo mundo na brodagem de gringos em Genebra.

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Quinta vamos, todos juntos, no mesmo pub. É noite de karaokê.

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As chinesas continuam me perseguindo. Sábado, visitando o castelo de Chillon, conheci uma que trabalha pro governo chinês, na área de desenvolvimento e benefícios da indústria têxtil chinesa. Ela achou ótima a idéia do Akatu, consumo consciente. Eu ficava gritando em pensamento “SAI DAQUI SUA CHINESA MALUCA ESCRAVIZADORA DE CRIANÇAS PARA FABRICAR MAIS TECIDOS CHINESES E QUEBRAR AS INDÚSTRIAS DE TODO O MUNDO POLUINDO DEZ VEZES MAIS E EMPREGANDO GENTE DE CINCO ANOS DE IDADE. SAI DAQUI SUA CHINESA MALUCA QUE PROMOVE A EXPLOSÃO DA POPULAÇÃO MUNDIAL. AFOGUE-SE EM SI MESMA E DESAPAREÇA DO MAPA, CHINA DO CARAMBA”. Ela não percebeu que eu estava gritando tudo isso e acabou que tirou umas fotos minhas bem boas.

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Aliás, para os turistas solitários que querem boas fotos: peça para os de olhos puxados. São os melhores turistas-fotográfos, sempre. E vão sempre te atender com um sorriso amarelo de dentes tortos e balançar a cabeça de um jeitinho bem típico e bem engraçadinho.

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Não sei se eu já disse isso, mas não vejo a hora de encontrar minhas primas em Paris. Vai ser bem cool.

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Sou mesmo do inverno. Três graus me é absolutamente confortável.

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Couchsurfing é muito legal. É através dele que estou abrindo muitas portas e conhecendo muitas pessoas aqui. Estou adorando.

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E mais: dormir no sofá alheio é deveras divertido. Vou fazer isso em todas as cidades suíças que eu for.

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A reunião na OMS essa semana está dando ares de emoção para minha semana de trabalho, fora todos os outros relatórios e relatos de reunião para os quais já fui. Mas não quero abrir mão do karaokê de amanhã, nem do meu despertar mais gostoso com vista pros Alpes, nem do meu final de semana em Paris. É só uma questão de prioridade, e quando a gente sabe o que priorizar fica tudo certo.

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A Minalba de vocês aí é a minha Evian. Acho chique.

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Apesar dos pesares e de alguns problemas de comunicação e linguística que às vezes temos, terminar um telefonema ouvindo "grand bisou, ma chérie" é bom demais.

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No mais, nada mais.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Da ausência

Essa ausência nada mais é do que excesso de emoções em terras suíças.
Logo volto a escrever, com um monte de coisas acumuladas, novidades, e muita correria no trabalho.
Incrível, mas agora virou.
Estou simplesmente empolgadíssima com meu trabalho, meu dia a dia, meus novos amigos, e essa agitadíssima vida genevoise.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Ousadia

Hoje foi o primeiro dia, após mais de um mês de inverno, que saí de casa só com a "calça de cima", sem a "calça de baixo".
Me senti mais livre para os movimentos, mais magra, e mais rápida para fazer xixi.
Me senti muito ousada também, a um grau e eu sem calça de baixo.
No entanto, senti um pouco mais de frio do que eu sentiria normalmente.
Mesmo assim, para ser só uma vez por mês, os benefícios compensaram.
Estou bastante feliz.

Leitura recomendada

Mulheres Insustentáveis,
do Gilberto Dimenstein,
no Portal Aprendiz e também no Portal Akatu

Cresce no mundo reação contra o culto à magreza, um padrão de beleza que só se mantém com cirurgias plásticas ou dietas insalubres

Aqui, ó:

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Tristeza não tem fim...

...felicidade sim...

Então, quando finalmente o Haiti estava conseguindo se recuperar de qualquer coisa, veio o terremoto e colocou, literalmente, o país inteiro abaixo.
Um país.
Inteiro.
Abaixo.
Do zero.
Justamente quando eles estavam conseguindo se reerguer. É a felicidade com fim.
Eu vejo as imagens, as notícias, e fico triste triste triste de tudo.
Demais de triste. Mesmo.
Uma tristeza que não tem fim...

**
Aproveito para fazer uma referência especial à Zilda Arns, perda preciosa, e que nos deixa uma linda e imensa lição de humanidade.

**
Hoje a bandeira da ONU estava a meio pau. E faz-se um minuto de silêncio para cada pequeno passo que se dá. Um jeito bonito de prestar condolências a esse país inteiro que foi abaixo.

Chique no úrtimo

Nesse exato instante estou na Salle XXI, no Pallais des Nations, em plena ONU.
Vai começar logo logo a reunião do Human Rights Council, mais especificamente do Working Group on the Right to Development.
É o High level Task Force on the implementation of the right to development.
Uhul!!
Tô achando muito chique.

(só não é chique o trabalho de peão que eu vim aqui para fazer enquanto falo com o diplomata de 31 anos chamando-o de "Estimado Secretário" para qualquer coisa - tipo "Estimado Secretário, o senhor gostaria de acompanhar-me para um café?". Mas tudo bem, é ONU, está valendo. Já estou aprendendo muito. There's no free lunch, afinal. E é a ONU...)

Serviço de Utilidade Pública

Se eu estivesse aí eu iria, de forma que recomendo fortemente que vocês compareçam.

Ô Seu Barbosa, 100 anos de Adoniran
Na Casa de Francisca

Programação?
Abaixo:

de 21 a 27 de JANEIRO de 2010

Nascido em 1910, em Valinhos-SP, João Rubinato, que ficou conhecido como Adoniran Barbosa, foi um dos artistas mais versáteis do século XX. Adoniran mudou-se logo para a capital paulista, e lá trabalhou como humorista, ator e radialista, mas foi como compositor que se tornou imortal. Suas músicas eram verdadeiras crônicas sobre os bairros paulistanos e a vida dos moradores da cidade. Geralmente bem-humoradas, muitas dessas narrativas ficaram conhecidas em todo o Brasil.

MAURICIO PEREIRA
quinta [21/01] 21h30_ R$26
Acompanhado por Daniel Szafran ao piano, Mauricio faz uma versão radicalmente paulistana do seu show Mergulhar na Surpresa. Totalmente cantado e apresentado em idioma local, o roteiro traz, além de Adoniran cantado com sabor pop, outras sonoridades típicas da cidade, como Ira!, Incríveis, Mamonas, Kid Vinil, Joelho, Vanzolini. Sotaque e pegada, como manda o figurino.


WANDI DORATIOTTO E DANILO MORAES
sexta [22/01] 22h30_ R$26
O show "Vida Rouca" apresenta algumas das grandes canções do mestre do samba paulista e destaca sua habilidade como humorista, condição que permeou toda a sua atuação como músico e ator. No espetáculo os músicos também apresentarão músicas de outros compositores que tiveram grande influencia do homenageado.

PASSOCA canta inéditos de ADONIRAN
sábado [23/01] 22h30_ R$26
O Sr. Juvenal Fernandes, que durante anos conviveu quase que diariamente com Adoniran, e com a autorização da viúva, convidou parceiros para colocar melodias em parte de letras inéditas do compositor. Entre eles Passoca, que selecionou algumas parcerias de acordo com suas características vocais e interpretativas. Neste show, Passoca (voz e tamborim), Thomas Howard (violão de 7 cordas) e Alê Ribeiro (clarinete) apresentam além das composições inéditas, alguns clássicos de Adoniran como Saudosa Maloca, Iracema, Bom Dia Tristeza, As Mariposa entre outras.

PAULO VANZOLINI
dom/seg [24 e 25] 21h30_ R$53
Um dos grandes nomes da música brasileira, o compositor e cientista Paulo Vanzolini faz duas únicas apresentações, como parte das comemorações dos 100 anos de Adoniran Barbosa. Ao lado da cantora Ana Bernardo, Vanzolini conversa com o público, revela histórias curiosas e apresenta sambas como "Seu Barbosa", que compôs em homenagem ao amigo compositor.

ROBERTO SERESTEIRO
terça [26/01] 21h30_ R$19
Roberto Seresteiro apresenta os sambas de Adoniran Barbosa ao lado de Lucas Arantes (cavaco), João Camarero (violão e cordas) e Alfredo Castro (percussão) levando o público para o contexto em que as músicas foram criadas. Uma apresentação despretensiosa que homenageia a memória um dos maiores nomes da cultura e da produção artística de São Paulo.

KIKO DINUCCI
quarta [27/01] 21h30_ R$19
Kiko Dinucci apresenta sambas de sua autoria influenciados por Adoniran Barbosa. Além de suas composições e do mestre Adoniran, Kiko aponta no repertório os ecos da obra do compositor paulista no cancioneiro urbano de São Paulo.

Casa de Francisca
Rua José Maria Lisboa 190, travessa da Brigadeiro Luís Antônio
T 11 3052 0547_
reservas@casadefrancisca.art.br www.casadefrancisca.art.br
terça a domingo das 20h a 1h

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ps.: essa propagando gratuita só se dá porque eu realmente acredito que as pessoas que comparecerem certamente gozarão de momentos de puro deleite no show de um cara que é genial.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Do mundo diplomático e outros assuntos

Então esse foi o primeiro email de trabalho que eu recebi do meu chefe indireto daqui.
Vejam só o estilo e a estética, assim como a gramática e a linguística.
Deliciem-se:

Cara Mariana,

Seguem, conforme conversado há pouco, os textos cuja tradução para inglês seria muito útil.

Desde já agradeço a ajuda dispensada a este assunto.

Cordialmente,


Contexto: ele chegou aqui na sala e falou que peloamordedeus as traduções são urgentes é uma loucura estamos atrasados com isso e tal e coisa.

Daí, no email, "os textos cuja tradução para o inglês seria muito útil".

De forma que se elas seriam muito úteis elas não têm caráter obrigatório nem urgente, certo? Errado.

Esse é só o jeito diplomático de colocar as coisas.

Ai de nós, meras estagiárias, se não entregarmos a tradução até sexta feira.


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Sinto que estou devendo a vocês um esqueminha "primeiras impressões" do mundo diplomático.

Vou tentar fazer antes do próximo final de semana, antes que a minha opinião (por enquanto, ácida) mude.

Juro que é tudo muito sui generis dentre essa espécie de seres humanos.


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Mas tudo bem que eu vou pegar o trem.

Nesse final de semana, Montreux, em uma viagem para me inspirar nas coisas da vida, incluindo o castelo de Chillon e as Les Rochers-de-Naye, que têm uma vista incrível dos Alpes e do Lac Léman e de toda a região.

No outro final de semana, uh la la, Paris Paris, la belle Paris...

Com as minhas primas queridas do coração!

Serão dois finais de semana para não botar defeito.


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Campanha pelo Real Contato

Então eu decidi voltar aos velhos tempos...

De forma que, quem quiser receber um postal meu, deve me mandar por email seu endereço completo. Faço aqui uma promessa pública de que enviarei um postal para todo mundo que me mandar seus endereços.


E o meu endereço de correspondências aqui é:

Rue des Pechêries, 12, appartement 71

1205 Genève

Suisse


Ah, sim, dando continuidade à campanha "Comprem créditos Skype", também deixo aqui meu quarto* número de telefone para vocês me ligarem.

É ele:

+ 41 76 783 0089


Cartinhas e telefonemas serão muito bem aceitos para aquecer meu coração nesse inverno suíço.


* Quarto e definitivo número de celular. Prometo que não mudo nunca mais, após um número dinamarquês, um inglês, um suíço provisório e um suíço definitivo. Campanha pela banalização dos chips de celular.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Genève, Semaine Un

Genève é assim: correta. Flat. Serena.
Sua mania de ser tão certa assim me dá na telha, acho que isso é muito errado para uma cidade, ser tão certa.
Até em seu bairro que tende a ser submundo, o Pâquis, as mulheres ficam envitrinadas e sozinhas, quietas, não mexem com você, não são mexidas. Os homens ficam dentro das casas de jogos turcas, jogando cartas. Os traficantes ficam de sobretudo encostados em postes observando o movimento. A gente sabe que eles são traficantes – e quando eles nos olham, eles sabem que a gente não quer. Não tem abordagem, nem nos turcos, nem nas putas, nem nos traficantes. É tudo excessivamente polido e educado. E isolado – é cada um por si e só.
Não tem assalto com abordagem por aqui.
Mas tem gente (de montes, andei descobrindo) que invade casas com uma certa facilidade, na calada da noite, quando está todo mundo dormindo. No dia seguinte você acorda e, olha só!, não tem mais microondas na cozinha nem TV na sala. Mas seu sono não foi perturbado, sua integridade humana, idem.
Tem – e isso tem muito, de um tanto que chegou a incomodar pela primeira vez por aqui – gente pedindo dinheiro.

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Daí no meu sábado solitário e nevado, vagando pela rua, decidi entrar no Campus da Universidade. Quem sabe lá não seria um lugar legal para conhecer gente?
Escolha errada, luz vermelha.
As pessoas da Universidade daqui, ou pelo menos do prédio específico de onde eu entrei, não querem papo. Querem livro e capuccino em imensas mesas comunitárias e de um silêncio mortal. Ninguém se olha, só se olha para os livros. E olha que nem era biblioteca, era cantina da Universidade mesmo.
Achei isso muito chato, e continuei minha caminhada sem destino na neve que caía incessantemente desde sexta.

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Genève, então, serena e correta, não tem sal, não é visceral, não te pega pelo estômago, não te faz o coração palpitar, não te esmaga a goela tirando o ar.
Ela dá, isso sim, uma sensação esquisita de conforto duradouro, perene, inquebrável. A cidade oferece uma inabalável paz interna e externa com a qual eu não estou acostumada.
É arroz branco sem tempero. Não é feijoada nem picanha sangrenta nem sushi banhado no shoyo (acabei de mencionar as coisas das quais tenho sentido falta).
Ela não acolhe, respeitando muito bem a individualidade e o espaço de cada um, então ela não abraça, não faz carinho. Ela simplesmente oferece tudo o que tem a ser oferecido – menos aos domingos, quando a cidade hiberna confortavelmente em suas residências. Como se “paz” e “tranqüilidade” pudessem estar na lista do fornecedor do Carrefour (ou Migros e Coop, os maiores supermercados por aqui), assim como estão a banana e a farinha de trigo e o queijo Gruyère.

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Genève nem esbanjar luxo esbanja. Parece que aqui os Audis e BMWs e sei lá o que de Ferraris e tudo o mais são absolutamente normais e ordinários. Isso não é esbanjar, é banalizar.
A avenida dos bancos gigantescos com seus prédios oponentes, as vitrines de relógios, de jóias e de chocolates, são assim – banalizadas, ordinárias. Nada parece fora do comum nessa cidade tão múltipla e internacional, e, ao mesmo tempo, tão encaixadinha em sua previsibilidade rotineira. Não tem fora do lugar em Genebra. Para tudo tem o seu lugar.

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Cosmopolita? Sim, a cidade é a cidade mais cosmopolita de toda a Suíça (nooooooossa). E tem uma cifra impressionante: 45% de sua população não é Suíça.
Mas então, vem Genebra com toda sua paz e serenidade imponentes, e faz o melting pot de diferentes culturas ficar azul da cor do lago e só. Todo mundo vira um pouco suíço – fora meus primeiros dias, desde quinta da semana passada as pessoas já falam comigo de cara em francês, de cara como se eu muito fizesse parte disso daqui. E faço, na verdade. Eles só se esqueceram que eu posso, de repente, não ser suíça. Então, todo mundo vira um pouco suíço. Ninguém vira um pouco brasileiro, um pouco português, um pouco chinês.

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By the way, top ten nacionalidades percebidas nas ruas: portugueses, brasileiros, africanos (não sei de que parte, infelizmente), turcos, norte-americanos.
Uhul.
Por aqui tem pouco chinês – pelo menos por enquanto. Fico feliz com isso. Genève me faz feliz por ainda estar resguardada dos chineses, esses senhores do mal que invadem o mundo com sua população explosiva.

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Então faltou sábado eu me largar pelos cantos.
Porque na universidade não falaram comigo.
No Museu de Arte Contemporânea, tinha eu e o segurança e só.
Na rua, eu, a neve, e as pessoas dentro dos cafés me olhando e pensando “que louca!” por eu estar naquele temporal de neve lutando contra o vento para chegar em algum lugar que nem eu sabia onde.
Até que os ventos me levaram para a Manor – a maior loja de departamentos da Suíça. Lá, eu comprei. Fiz compras de supermercado que me faltavam, e uma bota de cano alto a preços ridiculamente módicos. O Instituto Akatu era bem sábio quando falava que primar pelo equilíbrio emocional é mais importante do que consumir. Eu fui pro outro lado e, claramente, estava lá suprindo minhas carências emocionais e da geladeira daqui de casa também.
Mas voltei para casa para encontrar essa minha não-internet funcionando mal e porcamente. Me impossibilitando de falar no skype decentemente.
Tudo bem.
À noite teve mais caminhada na neve, Pâquis e a tentativa (furada, há de se dizer) de fazer amigos gringos.

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Mexerica aqui se chama Clèmentine. Acho fofo.
Aliás, mexerica e pêra são as únicas frutas que eu como. As únicas que cabem no meu orçamento e que são bonitas no supermercado.

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Adoro estar no último andar e ver, a qualquer hora, os telhados brancos. A cidade fica clara com a neve.
À noite a neve dá esse efeito estranho e lindo de luz a mais.
De dia, a neve reflete a luz do sol, e mesmo em dias fechados tudo fica assim, claro.
Bem combinando com a paz reinante em Genève. Essa paz toda, que me é tão perturbadora.

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Um outro ponto de vista é o do Tango, que me explicava a vida aqui no café da manhã de sábado.
Aqui ele se preocupa em viver. O que ele almeja é maior, a qualidade é maior, o cuidado é menor, tudo é bem mais natural. As coisas fluem. Ele não se preocupa em ter a bicliceta levada embora – ele se preocupa em andar de bicicleta. Ele não precisa se sentir correndo riscos ao sair do cinema no meio da rua meia noite. Ele sabe que isso não é um risco.
No Brasil a gente se limita muito, porque tem tantos fatores externos a você atuantes na sua vida, que não dá para crescer tanto, extrapolar. A preocupação e a tensão são latentes. Ele disse que ele se preocupava em sobreviver, e não em viver.
Estou para aprender isso com ele, viu? Por enquanto, só posso achar que essa paz esmaga a vontade de ser diferente e se extrapolar qualquer coisa.
Mas o Tango consegue ir mais longe nesse clima de paz absoluta.
Espero, realmente, chegar nesse nível dele.
Ou não – porque afinal, quando isso acontecer eu nunca mais me adapto à loucura frenética de São Paulo. E é exatamente isso o que aconteceu na vida dele. Ele não sente mais falta do Brasil em si, nem de São Paulo. Nunca mais se imagina morando lá. E quando viaja para um terceiro país, e isso ele verbalizou com todas as letras sábado, ele sente mais falta da Suíça do que do Brasil.
O único país do mundo onde ele pode namorar deitado no parque com a bicicleta atrás dele e sem ficar olhando direto para a bicicleta e para a bolsa – elas sempre estarão lá.

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Brasileiro é sempre brasileiro.
Fomos tirar nosso crachá da ONU e os seguranças que faziam o crachá e tiravam as nossas fotos babaram na nossa simpatia, desenvoltura, e sorriso. Daí chegou mais um cara, um operador de som, também brasileiro. Ele opera as cabines de tradução simultânea nas salas do Conselho de Dirs Hums. Daí os caras se empolgaram e chamaram lá um outro segurança que é brasileiro – ele já está bastante travestido de suíço, no entanto, depois de 15 anos por essas bandas sendo segurança da ONU.
Resumo da ópera e final previsível da história: em plena sala blindada de segurança da ONU, eu e as duas meninas, o operador do som, e o segurança fizemos o maior barulho por lá. Causando mesmo, tipo cantando samba, batendo palma, falando das saudades do Brasil e da vida na Suíça.
Brasileiro é festa, mesmo, né? Não tem jeito...

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Meu crachá da ONU. Acho chique.
Estou babando. Pego ele dentro da minha bolsa e fico assim, admirando. Vendo minha foto (terrível), vendo meu nome, vendo o símbolo da ONU e todos os hologramas de segurança. Estou adorando isso e não vejo a hora da minha primeira reunião lá dentro.

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Estou me descobrindo uma exímia dona de casa. A hora de lavar roupa tem sido uma terapia. Cozinhar então? Puro deleite. Óbvio que seria melhor com a Cidoca. Mas na falta dela eu estou muito bem, obrigada.

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O centro velho de Genebra, ou Vieille Ville, é um dos locais históricos mais bobos que eu já vi na vida.
Tsc tsc esses protestantes.
Não sabem fazer uma estética que encha aos olhos... é quase triste.
Tinham que ter aprendido direitinho na Itália. Aqui, a igreja matriz é puro tédio, e seu ponto principal de atenção é a cadeira onde once upon a time Calvino se sentou.
Quer mais bobo que isso?

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Fico vendo o jornal e não sei como vocês estão sobrevivendo aí. Os meus menos cinco têm me caído muito bem, obrigada.
Eu não conseguiria dormir sob 27 graus.
Nem a pau.
Me descubro a cada dia mais uma belíssima amante do inverno.

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Cabelo aqui fica feio.
É essa água cheia de calcário que ressaca tudo. É o chapéu, obrigatório pelo vento, que amassa meus cachos. Meu corte style by Charles está simplesmente... murcho. Que nem Genève é simplesmente... arrumadinha.

Pele aqui fica boa.
Deve ser a água calcária, deve ser o vento frio que deixa a pele dormente (deve matar todos os bichinhos da acne esse vento gélido), deve ser a falta de polução. Não fica aquela sensação de pele grudenta. É simplesmente confortável.

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Neve é uma areia que afunda seu pé, mas que te faz escorregar. E que te causa um frio úmido nos pés super desconfortável.
Mesmo assim, é muito legal andar na neve!
(principalmente quando se trata de ter os sapatos adequados)

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Domingo acordou belamente ensolarado.
Então?
Dia feliz, de passeio na beira do lago, de parque, de crepe com vista pro lago, e cinema, e kebab para arrematar.
As fotos ficaram lindas, eu estava feliz.
Foi o primeiro dia que eu pensei, vendo aquele lago, e aquele sol de final de tarde “Nossa, essa cidade pode sim ser muy bela”.
Então a Lia me disse uma coisa, nós duas comendo crepe de Nutella e vendo o sol cair com vista pro Lago, a Lia foi sábia e me disse:
“Mari, não importa a beleza dessa cidade. Essa é a cidade que está nos possibilitando isso que nós estamos passando, é essa cidade que vai nos acolher e que vai ser nossa casa. A gente tem mais é que agradecer por tudo isso. E achar essa cidade linda.”
E ainda arrematou:
“Estamos juntas nessa, doninha! A canoa não vai virar porque a gente rema todo mundo junto”.
Tá aí. Eu gosto da Lia e de sua gigantesca negritude linda e brilhante.
Eu gostei de ser chamada de doninha. Achei engraçado.

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Voltando para casa vi um mocinho com um violoncelo nas costas. Ele desceu no mesmo ponto que eu. Interceptei-o no meio da rua. “Você sabe onde tem algum lugar com jazz ao vivo, Jam session por aqui?” Ele foi super fofo e simpático, madrileño, adora brasileiros, piriri pororó. Disse alguns bares e arrematou sua fala com:
“Mas não fique com muitas expectativas não. No final das contas tudo aqui é um pouco boring”.
Então, apesar do meu encantador domingo na beira do lago, aquela paisagem linda, ver o sol, o final da tarde, minhas conversas ótimas com a Lia, Genève estava quase me emocionando pelo ombro...
Mas daí a mensagem de “moral da história”, pelo menos nessa primeira semana, é essa última frase do meu novo amigo espanhol.
Que não pegou meu telefone mas disse “espero te ver no ônibus em breve”.

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E aí, você já sabe o que vai fazer pela próxima COP??
Clique aqui:
http://unevoyagetresfantastique.blogspot.com/2010/01/o-que-voce-vai-fazer-pela-cop.html
E me conte o que você vai fazer pela COP-16. Muitas respostas já estão sendo recebidas,e eu estou emocionantemente compilando tudo para mandar para vocês.

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Fotos atualizadas??
Sempre, no Picasa mais próximo de você.
Aqui:

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Beijo no joelho.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O foguete Brasil caiu em Angra

Clóvis Rossi, na Folha de S. Paulo dia 07/jan/2010

SÃO PAULO - O foguete Brasil de recente capa da "Economist" acabou caindo em Angra dos Reis, para citar apenas a cidade mais explorada pela televisão nas enchentes do verão que mal começou.
Ficou evidente, se ainda fosse preciso, que o Brasil é um país colossalmente subdesenvolvido, vítima do que Janio de Freitas, na terça-feira, chamou de "urbanismo criminoso, que tantos administradores públicos têm praticado por tão longo tempo, com a permissão para o crescimento de favelas (formas de degradação da vida urbana) e para a especulação imobiliária (como degradação também da natureza)".
Vai ser difícil encontrar outra descrição tão apta do subdesenvolvimento em tão poucas linhas. Certamente não será encontrada na "Economist", que está preocupada com a emergência do mercado brasileiro, não do país.
Subdesenvolvimento não é obra de apenas um governo ou de apenas alguns anos. E o "urbanismo criminoso" descrito por Janio de Freitas é só uma de suas características centrais. Permanece o descuido, também criminoso, com educação, saúde e segurança pública, para ficar em apenas três das chagas abertas na pele do país.
Como permanece intocada a obscena desigualdade social, ainda que alguns acadêmicos, o jornalismo chapa-branca ou descuidado e a propaganda governamental façam circular a lenda de sua queda.
Ah, por falar em desigualdade, alguém aí prestou atenção na cor das vítimas das inundações? A esmagadora maioria era formada por pretos, pardos, cafuzos, não-brancos, salvo no Rio Grande do Sul. Exceto alguns turistas que estavam no lugar errado na hora errada e, por isso mesmo, viraram notícia. Preto e pobre vítima da combinação do subdesenvolvimento com excessos da natureza é rotina. É aquele imenso pedaço do Brasil que nunca emerge, mas vira e mexe submerge.

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Só coloquei aqui porque eu gostei e porque expressa também minha opinião sobre todo esse barulho que está sendo feito do Brasil que cresceu. Falta tanto, ainda, que fuzuê antes da hora não é legal.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Oferendas à Iemanjá no canal de Amsterdam

Espero que vocês se divirtam assistindo o mesmo tanto que eu me diverti com as meninas filmando...




quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O que você vai fazer pela COP?

Queridos,
acabou a COP-15,
fracassaram as negociações,
e eu saí de lá convencidíssima de que só com a mobilização de cada um de nós e ao longo do tempo de quase todos nós,
é que conseguiremos fazer com que os nossos governantes façam alguma coisa nas negociações referentes às mudanças climáticas, ao meio ambiente, e ao mundo que deixaremos para as próximas gerações.

Então hoje, dia seis de janeiro de 2010,
Dia de Reis,
lanço aqui a seguinte enquete:
"O que você vai fazer pela COP?"
Que virá seguida da campanha "Sim, eu faço alguma coisa pela COP!".
Sobre a campanha, depois eu publico explicando exatamente o que será.

Da pergunta, vocês devem me responder por email ou por comentário no blog, que eu compilarei todas as respostas para divulgar através da campanha
"Sim, eu faço alguma coisa pela COP!"

Sempre lembrando que eu faço essa pergunta inspirada na constatação que tive, lá em Copenhague, de que a solução para a questão das mudanças climáticas está na sociedade civil inspirada, com suas novas atitudes, suas mudanças, e mobilizando outras pessoas cada vez mais. Temos alguns meses ao longo de dois mil e dez para, mudando nossas atitudes e formando pequenos grupos que se juntarão com outros e formarão um enorme grupo, chegarmos a algum lugar nas negociações da COP-16 na Cidade do México em novembro. E é só nesse formato - de sociedade civil mobilizada, unida, e inspirada - que conseguiremos, daí sim, pressionar realmente os nossos governantes para algum acordo de impacto.

Ou seja, apenas como uma linha inspiradora, talvez sua resposta passe por novas atitudes que você vai adotar e por formas que você vai usar para mobilizar outras pessoas para uma mudança nesse tema. Óbvio que você pode, e deve, sair dessa linha inspiradora. A idéia era que isso fosse só o começo...

Quem escrever uma resposta e quiser anonimato, por favor avise para que eu dê um pseudônimo.

A minha resposta à essa questão virá mais tarde também, já que na Suíça já são meia noite e dez.

***

Estava domingo conversando com um amigo que mora aqui em Genebra e que é médico tabacologista - as pessoas o procuram porque querem parar de fumar. Ele disse que a grande questão da tabacologia é exatamente que as pessoas têm a informação objetiva de que devem parar de fumar, mas que não conseguem transpor isso a um "envolvimento emocional" no assunto, digamos assim. Elas, mesmo com as informações objetivas dos malefícios do tabaco, não conseguem ultrapassar a barreira da mudança de atitude real porque falta "emoção", alguma coisa nessa história toda que faça sentido para o fumante, que o pegue pelo estômago muito mais do que informações científicas sobre substância cancerígenas e o vício.

Aí ele perguntou: e você, como é com o meio ambiente?

E eu disse que é exatamente o contrário para o meio ambiente.

O point of no return, aquele ponto que a gente ultrapassa quando consegue fazer uma mudança real, e que depois não volta mais, é atingido quando o conhecimento se transforma em atitude - como para os fumantes. No entanto, aqui, o envolvimento é muito mais emocional - a Terra na qual eu quero viver, e o que eu quero do mundo para as minhas próximas gerações - do que objetivo. Como seria objetivo quando falamos de uma projeção futura, quando ainda é difícil ver o aquecimento global? Embora exemplos não faltem, e cada vez mais próximos de nós (vide o total naufrágio, hoje, ontem, semana passada, de São Luis do Paraitinga, Cunha, e Angra - sorte de quem esteve lá antes), todo mundo aqui continua acordando, indo trabalhar, voltando do trabalho, jantando, assistindo Jornal Nacional, e dormindo. As pessoas da sala de jantar ainda não sabem do que se tratam as mudanças climáticas, porque ainda não chegou nelas. Ninguém consegue tangibilizar pro seu dia-a-dia o que são 2 graus celsius a mais no planeta, mas consegue tangilibizar o que é o dólar valendo R$ 2,50.

Então, pros indivíduos, esse é o principal desafio: como dar o salto entre o conhecimento e a sua atitude?

***

Fica a pergunta:
E você, o que você vai fazer pela COP?

Pensem, reflitam, me escrevam.

Eu sou uma só começando alguma coisa com o pequeno grupo de leitores desse blog, que eu espero que me ajudem a multiplicar essa campanha. E a melhor forma de começar a contribuir com ela é respondendo à pergunta e divulgando essa "enquete".

Simbora meu povo, que temos todo o ano de 2010 para dar um gás nisso e fazer disso alguma coisa significativa de alguns de nós somando muitos.

Beijo no joelho,

Peito de Peru "Sombra dos Alpes"

Ingredientes:
filé de peito de peru cortado em cubos
azeite
sal
sopa de alho de saquinho
alecrim

Como fazer:
Refogar o peito de peru, já em cubinhos, no azeite e no sal.
Esperar ele ficar cozidinho, sempre mexendo.
Quando a água que saiu e o azeite começarem a secar, jogar a sopa e o alecrim.
Mexer até dourar.
Servir.

Inventada,
cozinhada,
experimentada,
aprovada,
por mim.

Nessa quarta à noite que eu cheguei cheia de vontade de cozinhar.

Publicando escritos - Compilação

Queridos,

então essa é a compilação de tudo de minha autoria enquanto eu estava em Copenhague, sobre a Conferência, que foi publicado em um órgão de imprensa.

É só o começo do meu portfolio de artigos / colunas / relatos... decidi que quando eu voltar pro Brasil quero ter uma fonte paralela de renda baseada nos meus escritos - já que eu me divirto escrevendo e as pessoas geralmente gostam do que lêem.

É, babies... algum dia ainda serei chique e famosa pelos meus dotes intelectuais.

Depois escrevo contando do meu primeiro dia de trabalho e das aventuras Genebrinas, essa cidade tão provinciana...

Beijos,

No Instituto Akatu, artigo escrito a quatro mãos com o Helio Mattar, o presidente do Akatu:

No Planeta Sustentável / ed. Abril, post para o blog da comitiva do Planeta, da qual eu fiz parte:
(com direito a fotinho e tudo, uhul)

M. Nogueira, pro Portal do Vírgula




segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Do começo, de novo

Se tudo parecia um novo começo lá no começo de dezembro, agora é um novo começo de novo.

Londres foi bárbara.

É vergonhoso que eu fique assim, tanto tempo, sem ir para lá. Fica a combinação de mim comigo mesma que dez anos sem ir para lá, de novo, é impraticável. Ridículo. Sei lá, qualquer coisa. Pode ser qualquer adjetivo, menos "possível".
Meu último dia lá, depois de sobreviver (e viver muito bem, por sinal) ao Boxing Day inglês e à Oxford St descontrolada, parecendo 25 de março no 23 de dezembro, tirei o domingo para ser um dia de museus.
Fiz uma maratona British Museum + Tate Modern, e no meio do caminho almocei em um delicioso bistrô francês na frente da St Pauls. E no final de tudo, encontrei o David - um inglês gay delicioso, fofo e querido, que trabalhou como voluntário no Akatu ano passado por um mês. Ele me levou tomar Guiness no pub perto dos Wharfs... bárbaro. À noite, jantarzinho especial na Si, só para ter orgulho dos meus amigos que resolveram se arriscar a valer aqui fora e agora vivem bem, obrigada, muito muito bem.

ps.: o British Museum é, na mesma medida, impressionante e nojento. Afinal, ele se resume a ser o maior assalto à mão armada que a humanidade já presenciou. Só isso.

Amsterdam... ah, Amsterdam...

Acho que qualquer cidade parece sem sal depois de Amsterdam. Pelo menos Genève tem parecido bastante sem sal nesses dois primeiros dias, mas disso depois o conto.
O ponto é que Amsterdam é uma loucura de cidade deliciosa, a vida é uma festa por lá.
Fiquei no apartamento de uma amiga minha da PUC que mora lá com um francês e um italiano. Bastante perto do centro, do lado da Heineken Experience e da Praça dos Museus, ótima localização.

Cheguei em uma segunda à noite, no que deu tempo só de jantar (eles tinham cozinhado para mim, FOFOS) e assistirmos a um vídeo no sofá - The Edukators, que eu sabia que precisava ver, mas que nunca tinha visto... Terça foi dia de tudo: acordar tarde (não acordei cedo em nenhum dia de Amsterdam, na verdade), alugar bibicleta, fazer passeio de barco pelos canais da cidade, e jantar com amigos da Mari. À noitão, já voltando do jantar, nosso primeiro presente de cena surreal.
Contexto: estávamos levemente embriagadas de vinho, naquele estado que eu chamo de bebinhas. Nevava muito. Saímos brincando que nem crianças pelas ruas, com a neve, vendo os flocos caírem no nariz, dando risada alto, essas coisas que se faz. Chegamos em casa e o roomate italiano da Mari estava chegando também, manobrando o carro, e disse: já estamos subindo.
Nisso, subimos para o apartamento, deixamos nossos casacos, e sentamos no sofá daaaaando risada da neve e do nosso caminho surreal de volta para casa. Foi quando justamente os italianos começaram a entrar em casa: entra um, entra dois, entra três... cada um carregando uma caixa de comida e/ou de bebida. Resumo: entraram cinco italianos, lindos maravilhosos, desses de pirar o cabeção de qualquer ser, trazendo uma fartura sem noção de tudo que se tem de mais italiano: massa, queijos, patês, azeite, vinho, doces... foi SURREAL. (eu sei que fica sem graça porque vocês não sabem o contexto da hora, mas foi realmente muito impactante essa chegada dos italianos).

Dia seguinte, mais bicicletadas pela cidade, com a delícia da chegada da Tine para se juntar à nossa trupe... à noite, nada programado, até que os italianos - sempre eles - ligaram: vamos pro bar? E quem somos nós para apresentar qualquer resistência a um convite assim? E vamo que vamo... um bar e outro e casa, mortas acabadas. Minha vontade era ter voltado cedo, afinal dia 31 é sempre dia 31, né? Pois é. Não foi possível...

Dia 31, dia de rituais e mentalizações. Decidi ir ao Museu Van Gogh pela manhã, para terminar o ano muito inspirada pela arte impressionista e impressionante desse gênio da pintura. Lá, me dei meu primeiro livro de arte da minha vida: um livro com as masterpieces do Van Gogh.
Encontrei as meninas, e fomos nos inspirar nas flores para esse ano de Vênus, de muito amor. Passeamos então pelo mercado de flores, delicioso. Lá, conforme tínhamos combinado, compramos as rosas brancas para fazer nossas oferendas para Iemanjá. Momentinho emocionante esse de fim de ano, oferenda para Iemanjá no canal de Amsterdam. Fizemos um filminho que assim que eu postar eu mando para vocês.
Voltamos para casa, correndo para o ato de emperequitar-se. A noite prometia... e prometeu.
A balada já rolava solta em casa (a ceia de Ano Novo foi lá) quando desci, arrumada, para a sala. Nisso, os italianos me proporcionaram a segunda da minhas cenas mais surreais desse fim de ano. Estavam, todos, trabalhando pela nossa ceia de ano novo. Dois, ajoelhados no chão abrindo ostra. Dois no fogão - cozinhando moluscos e fritando lula. Um, cortando morangos. Enquanto isso, a galera ao redor só na bagunça. E eu, tentando não deixar meu queixo cair, naquela cena impressionante e linda de ver.

(tipo:
homens trabalhando na cozinha já é minimamente fofo, nem que seja para lavar prato ou pegar uma cerveja na geladeira;
homens trabalhando na cozinha com pratos requintados, geralmente são meus amigos gays que curtem cozinhar pratos requintados (embora sempre tenha uma exceção ou outra, essa é a regra geral), mas quando são os héteros fazendo cozinha gourmet, já cai quase que uma lagriminha de emoção (tipo o Phitz me ensinando a fazer a receita secreta do Malabie dos Zahran, lagriminha de emoção);
cinco (sim, eu disse cinco) italianos (sim, eu disse italianos) lindos (absurdamente lindos) e super héteros, cozinhando uma ceia de ano novo (enquanto todo mundo na sala fazia bagunça) com uma comida ultra requintada que resultou em algo ultra delicioso é tão loucamente emocionante que, meu, senta e chora.)

Óbvio que vendo tudo isso, o que se vem à mente é: uhul que a noite promete. E prometeu, de fato. Saímos de casa, após comer loucamente bem, para uma festa em uma casa-barco em um dos canais. Naquele frio gélido de vento congelante, A RUA ESTAVA EM POLVOROSA. Quase uma Copacabana Amsterdamzense. Por isso que essa cidade é tudo: não se perde a chance de uma boa festa, nunca. Faça o frio que fizer, the party must go on.
Chegamos no barco e então... festa estranha com gente esquisita. Se tivéssemos ficado em casa com aquela mesma galera teria sido melhor - a galera estava no barco também, e mesmo assim a festa estava murcha. Então, embebedei-me de ponche (champagne, rum, vodka e suco de maçã) e fiquei assim, curtindo super, e achando tudo aquilo muito surreal. Terminamos a noite, eu e a Mari, PUTAS DA VIDA com os italianos que estavam nos paquerando (que acabaram beijando umas holandesas no meio da rua, para no dia seguinte eles nos falarem que somos muito legais para sermos só uma noite de reveillon, putamerda, preciso mudar esse estigma de "moça para casar" que não é a primeira vez na vida que ouço isso e isso cansa). Tentamos entrar de penetra em outra festa em uma casa, e, dado que fomos mal-sucedidas, voltamos bebinhas pelos canais e ruinhas estreitas, de bicicleta, conversando sobre a vida e o ano novo.

Dia primeiro tinha que ter ressaca, mas na verdade teve mais festa. Como ainda tinha muita massa fresca da Itália, o GianLucca resolveu cozinhar - de novo. E foi a maior galera lá em casa pro jantar - de novo. Não as 20 pessoas da noite anterior, mas 12 sim. E éramos na mesa: eu, a Mari, um francês, um alemão, e seis italianos. Tá bom ou quer mais? Nisso, chateados com o fracasso da festa na casa-barco, resolvemos comemorar de novo o ano novo. Ainda tinham sobrado fogos da noite anterior, de forma que, batata: descemos todos para a rua, cada um com a sua bebida, fizemos contagem regressiva, nos abraçamos, e estouramos os fogos. Viramos atração na vizinhança - meia noite do dia primeiro de janeiro um bando de loucos estourando um monte de fogos, de novo. Foi, mais uma vez, surreal. E dos fogos para o bar, onde dançamos loucamente, nos jogamos mesmo - todo mundo da trupe. E quando esse bar fechou, outro bar, dessa vez, de jazz - um buraco de jazz no centro de Amsterdam.
Resultado: em pleno primeiro de janeiro, dia oficial da ressaca mundial, e nós chegando bêbados em casa às seis da manhã.
Surreal.
Eu não fazia isso há MUITO tempo.

Dia dois, batata, foi dia de ressaca master. Daquelas que dá revertério pelo corpo inteiro: sai bereba no braço, encrava unha do pé, dor de garganta, de cabeça, enfim... lógico que seria assim. o corpinho reclama, e tem seu direito de reclamar, afinal das contas.
Mas mesmo assim, encontramos força para um passeio no RedLight, que eu ainda não tinha ido. Loucura aquele bairro, por sinal. Vitrine de mulheres, e elas realmente levam isso a sério, enquanto isso lá fora homens e mulheres são turistas e estão lá principalmente para assistir às bizarrices daquelas mulheres. E tem para todos os gostos: feia, bonita, gorda, magra, alta, baixa, loira, negra, brasileira, do leste europeu... E aquelas vitrines de sex shop, então??? Com as coisas mais bizarras do mundo, por dios...

Dia 03 às quatro e meia da manhã, depois de dormir quatro horas, eu entrava no táxi a caminho de Schiphol. Deixei para trás o RikjsMuseum, que eu não consegui ir, e todas as igrejas de Amsterdam - não eram muitas, mas eu consegui não entrar em nenhuma.
Em compensação, bicicletei loucamente e deliciosamente por todos os canais, e me joguei na farra de ano novo. Vive a vida de Amsterdam com quem mora lá - um jeito um pouco menos turístico, um pouco menos senso-comum de conhecer a cidade. E mais: saí de lá com uma vontade louca de chamar aquela cidade de "minha casa" em algum futuro certamente não muito distante.

Ou seja: jeito fantástico de fechar 2009.

Genève

Pode ser a ressaca de Amsterdam.
Pode ser que eu esteja com expectativas muito altas, exatamente por ter estado em uma cidade bárbara no reveillon, mas Genève é, de começo, chatinha.
Quero - e espero - que essa impressão melhore conforme eu conheça pessoas e não me sinta mais tão sozinha por aqui.

Algumas observações desse começo de temporada de Genebra:
- minha casa é o máximo, eu tenho no quarto uma TV de LCD que o Sr Mariano comprou sábado. Tenho também uma varanda maravilhosa, com vista para os alpes e pro centro da cidade. O apê é um brinco de limpo. E mais: minha cama é deliciosa, enorme, quentinha, com um travesseiro enorme. Me sinto uma rainha nesse quarto de poltrona de couro, cama grande, televisão, e varanda. É realmente muito legal.
- por mais louco que pareça, Genebra, em plena Suíça, foi a primeira cidade dessa minha estada européia que me pediram moeda no meio da rua.
- e mais: foi a primeira cidade que me senti com medo de andar sozinha na rua também, em uma hora que a rua estava deserta e vazia.
- a cidade em si, nem seu centro velho, tem nenhum charme arquitetônico. Mesmo.
- mas é uma delícia ver essa profusão de cafés por aí...
- meu francês está muito engasgado e eu tenho pagado um pouco de mico devido a isso.
- tirar as roupas da mala foi o maior alívio de 2010 até agora. Mas eu queria, muito, que duas tendências que eu estou lançando pegassem sério no mundo fashion. Assim eu deixaria de ser sem noção e passaria a ser vanguarda. São elas: "unha com esmalte escuro com detalhes especiais de textura e relevo" e "camisa à moda de um mês jogada na mala bagunçada, amarrotada".
- meu tênis, sapatênis marrom da Puma, que eu trouxe com mucho gusto ano passado da Argentina, mofou. Não me pergunte como. Nojento. Ele está todo verde e branco, com bolor mesmo. Estou deixando ele secando no aquecimento antes de ter estômago para colocar a mão nesse fungo todo.
- a comunicação aqui em casa é samba do criolo doido. Visto que o sr. Mariano percebeu que ainda estou um pouco travada no francês, ele resolveu falar comigo em sua língua natal - o italiano. Então ele me chama de signorina e eu respondo a ele monsieur. Daqui três meses devo estar fluente no francês e arranhando o italiano, se tudo for como o planejado.
- eu odeio meu gerente do banco (do Brasil).
- quero logo que comece minha rotina de trabalho loucamente. Quero encontrar pessoas, conhecer pessoas.
- a internet daqui de casa, eu roubo do vizinho. Ou seja, é uma merda, sinal fraco, inconstante, vive caindo. Ou seja, minha comunicação está realmente prejudicada. Falar no Skype: não dá. Falar no msn: só com muito atraso nas mensagens. Fazer upload de foto: nem em sonho. E de vídeo? Só em Marte. Email: rola. Blog: também, com paciência. Preciso dar um jeito nisso, mas não sei como posso dar um jeito nisso. Quando eu tiver alguma idéia brilhante, aviso vocês. Por enquanto estou chupando o dedo na vida virtual.

Clamando pela participação das pessoas

Ontem fui dormir e a cidade estava normal. Hoje acordei e ela estava super branca. Todo mundo na cidade ficou espantado: aqui geralmente não neva muito, e quando neva não dá nem tempo de ficar neve no telhado, logo derrete. Hoje não, hoje nevou loucamente, o dia inteiro, neve que fica, neve gorda, macia, leve, seca.

Ou seja:
neve em Genève, e chuva caindo abaixo com São Luis do Paraitinga e Cunha, é nóis na fita já sofrendo os avanços das mudanças climáticas.
E aí, alguém está a fim de ser parte da mudança que se precisa e se quer ver no mundo?
Copenhague está aí, recente nessa memória nossa que adora esquecer as coisas, lembrando a gente de que os nossos governantes não deram conta do recado. Se a gente, como ser humano, não der conta também, quem poderá nos defender??
ps.: meus pais, que estão hoje na Patagônia, não me deixarão mentir - lá a coisa também está braba. Em todo canto está. O pior cego é o que não quer ver.
Vamos começar 2010 diferentes?