sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Número dois da série
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Saindo do forno
Aquele aperto
Bipolar
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Novidades picadinhas
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Das diferenças que a gente desconhece
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Ensaboa, mulata, ensaboa
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
It's gonna be a bright sunshine day
Já estou com a sensação de que possivelmente três meses serão só o suficiente para dar um gostinho de quero mais.
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E então, dentro dessa ordem tão organizada, dessa cidade tão limpa, de tudo em seu lugar, eu me apaixonei pela cidade.
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Por enquanto, um dos melhores momentos da minha rotina é o ato de despertar. Eu lá, na minha grande cama de casal, acompanhada do meu edredom gordo, fico olhando pela janela. Meu tempo do snooze do despertador sou eu fazendo preguiça na cama e vendo o sol nascer laranja nos Alpes oito da manhã. Todos os dias que eu faço isso (e tem sido todos os dias que eu tenho feito isso), eu juro que eu penso que felicidade é muito simples e depende de poucas coisas e de um olhar querendo de fato enxergar essas poucas coisas.
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Fora esse final de semana em Paris, é bem provável que nos outros eu fique a conhecer a Suíça mesmo. Com honrosas exceções a Annecy, Lyon e Strasbourg, é a Suíça que eu quero conhecer e só. País bonito do caramba, nunca vi... É realmente de uma beleza muito impressionante.
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Então nos planos estão: Zermatt/Matterhorn, Interlaken/Jungfrau, Chateu D’Oex, Lucerna, Zurich, Berne. Tudo a não mais que três horas de trem de distância. E super incluso um desconto de 50% no paocte de demi-tariff que eu comprei. E agora que eu comprei, vou ter que usar para compensar o investimento. Ênfase no “vou TER que”.
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Andar de trem é muito legal mesmo. Amei minha viagem até Montreux. Fora a estada em Montreux, amei de verdade o trajeto, lindo, beirando o lago o tempo todo. Emociona, até.
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É aquela coisa: o trajeto é melhor que a chegada. O caminho é melhor que a estadia. Acho que é isso aí. Que seja sempre isso, porque senão essa obstinação por objetivos torna a vida uma lista de coisas a serem feitas e só. Desejo a todo mundo que desfrute muito de seus próprios processos, bons.
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Quero passar a Páscoa em algum lugar bem católico, para tirar fotos bonitas de procissões e comoções religiosas. Sugestões são aceitas. Acho que essas coisas eu só vou ver dentre os latinos, de forma que para as minhas férias Portugal e Espanha entram na lista, e talvez Rep. Tcheca e Áustria saiam. Não sei. Dúvida. Ajuda? Sugestões?
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Montreux é a Suíça um pouco fora da ordem. Dá para imaginar a baderna que Ray Charles, BB King, Frank Sinatra, o próprio Frank Zappa (Smooooke on the water foi escrita em Montreux), Freddie Mercury e sua turma, e Elis Regina entre outros devem ter feito no festival de junho? E todos os outros que fazem baderna até hoje então?? A cidade transpira arte, jazz, furdúncio. É uma coisa fantástica.
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Ao mesmo tempo, ela também transpira luxo. Se em Genebra isso já é banalizado, lá isso é tão mais que banalizado que chega a dar um engasgo no coração.
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Perdi 20 francos em meia hora de uma brincadeira qualquer no Casino de Montreux. E foi assim, com dor no bolso, que aprendi que com cassino não se brinca não. Lição aprendida.
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Montreux é o começo das paisagens oníricas dos sonhos suíços. Quando eu penso em paisagens oníricas, daquelas que nunca existem nem jamais existirão, penso em uma coisa que, na verdade, existe. E se existe, só existe na Suíça. Paizinho bizarro em tantas outras coisas, mas em beleza natural é imbatível. Isso porque eu mal comecei meus tours...
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Montreux é porta de entrada pros Alpes. Lá, a cidade se espreme entre o lago e a montanha, e sobre morro acima. Logo mais posto as fotos. Juro que arrepia de lindo. Para mim, a sensação de estar lá foi mais ou menos “nunca te vi sempre te amei”.
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Já que lá no escritório pega bem falar que chegou em casa e ficou fazendo relatório até uma e meia da manhã, resolvi começar a falar isso também. Assim eu me sentia mais parte da turma. Parou de ser legal quando isso começou a se concretizar: eu estava fazendo relatório até agora há pouco, e são cinco para onze da noite.
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Sexta feira fomos em um pub de expatriados aqui em Genebra, super conhecido pelas pessoas que trabalham nas organizações internacionais. Formou-se assim a congruência bizarra: éramos cinco brasileiros, quatro meninas estagiárias e o chefinho de todo mundo. A isso se juntou a Catherine, italiana sangue bom a quem eu tinha conhecido na noite anterior, e que trabalha na Anistia Internacional. Daí veio um soldado americano que estava de férias e quis vir conhecer a ONU para saber por que ele trabalha pela paz no mundo. Ele puxou papo no balcão e veio se sentar com a gente. Formou-se o misturada toda: cinco brasileiros, uma italiana (da Anistia), um americano (soldado de guerra, Iraque no currículo). Brasileiro atrai, é uma coisa de louco. É ímã. Todo mundo gosta de um bom brasileiro.
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A isso tudo, depois de um tempo somou-se um grupo de três imigrantes sérvios que estão aqui como refugiados de guerra há mais de dez anos.
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O soldado pagou uma rodada de tequila para a gente – porque o acolhemos muito bem. E a italiana ficou dançando com ele loucamente – segundo a frase do meu chefinho, era a “Dança de Shiva, porque afinal uma pessoa da anistia com um soldado ex-Iraque dançando, só pode ser mudança radical de paradigmas”.
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O americano já voltou pro seu país, Deve ser enviado para as forças de paz no Haiti. A italiana e os sérvios estão aí na parada. Todo mundo na brodagem de gringos em Genebra.
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Quinta vamos, todos juntos, no mesmo pub. É noite de karaokê.
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As chinesas continuam me perseguindo. Sábado, visitando o castelo de Chillon, conheci uma que trabalha pro governo chinês, na área de desenvolvimento e benefícios da indústria têxtil chinesa. Ela achou ótima a idéia do Akatu, consumo consciente. Eu ficava gritando em pensamento “SAI DAQUI SUA CHINESA MALUCA ESCRAVIZADORA DE CRIANÇAS PARA FABRICAR MAIS TECIDOS CHINESES E QUEBRAR AS INDÚSTRIAS DE TODO O MUNDO POLUINDO DEZ VEZES MAIS E EMPREGANDO GENTE DE CINCO ANOS DE IDADE. SAI DAQUI SUA CHINESA MALUCA QUE PROMOVE A EXPLOSÃO DA POPULAÇÃO MUNDIAL. AFOGUE-SE EM SI MESMA E DESAPAREÇA DO MAPA, CHINA DO CARAMBA”. Ela não percebeu que eu estava gritando tudo isso e acabou que tirou umas fotos minhas bem boas.
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Aliás, para os turistas solitários que querem boas fotos: peça para os de olhos puxados. São os melhores turistas-fotográfos, sempre. E vão sempre te atender com um sorriso amarelo de dentes tortos e balançar a cabeça de um jeitinho bem típico e bem engraçadinho.
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Não sei se eu já disse isso, mas não vejo a hora de encontrar minhas primas em Paris. Vai ser bem cool.
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Sou mesmo do inverno. Três graus me é absolutamente confortável.
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Couchsurfing é muito legal. É através dele que estou abrindo muitas portas e conhecendo muitas pessoas aqui. Estou adorando.
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E mais: dormir no sofá alheio é deveras divertido. Vou fazer isso em todas as cidades suíças que eu for.
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A reunião na OMS essa semana está dando ares de emoção para minha semana de trabalho, fora todos os outros relatórios e relatos de reunião para os quais já fui. Mas não quero abrir mão do karaokê de amanhã, nem do meu despertar mais gostoso com vista pros Alpes, nem do meu final de semana em Paris. É só uma questão de prioridade, e quando a gente sabe o que priorizar fica tudo certo.
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A Minalba de vocês aí é a minha Evian. Acho chique.
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Apesar dos pesares e de alguns problemas de comunicação e linguística que às vezes temos, terminar um telefonema ouvindo "grand bisou, ma chérie" é bom demais.
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No mais, nada mais.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Da ausência
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Ousadia
Leitura recomendada
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Tristeza não tem fim...
Chique no úrtimo
Serviço de Utilidade Pública
Nascido em 1910, em Valinhos-SP, João Rubinato, que ficou conhecido como Adoniran Barbosa, foi um dos artistas mais versáteis do século XX. Adoniran mudou-se logo para a capital paulista, e lá trabalhou como humorista, ator e radialista, mas foi como compositor que se tornou imortal. Suas músicas eram verdadeiras crônicas sobre os bairros paulistanos e a vida dos moradores da cidade. Geralmente bem-humoradas, muitas dessas narrativas ficaram conhecidas em todo o Brasil.
MAURICIO PEREIRA
quinta [21/01] 21h30_ R$26
Acompanhado por Daniel Szafran ao piano, Mauricio faz uma versão radicalmente paulistana do seu show Mergulhar na Surpresa. Totalmente cantado e apresentado em idioma local, o roteiro traz, além de Adoniran cantado com sabor pop, outras sonoridades típicas da cidade, como Ira!, Incríveis, Mamonas, Kid Vinil, Joelho, Vanzolini. Sotaque e pegada, como manda o figurino.
WANDI DORATIOTTO E DANILO MORAES
sexta [22/01] 22h30_ R$26
O show "Vida Rouca" apresenta algumas das grandes canções do mestre do samba paulista e destaca sua habilidade como humorista, condição que permeou toda a sua atuação como músico e ator. No espetáculo os músicos também apresentarão músicas de outros compositores que tiveram grande influencia do homenageado.
PASSOCA canta inéditos de ADONIRAN
sábado [23/01] 22h30_ R$26
O Sr. Juvenal Fernandes, que durante anos conviveu quase que diariamente com Adoniran, e com a autorização da viúva, convidou parceiros para colocar melodias em parte de letras inéditas do compositor. Entre eles Passoca, que selecionou algumas parcerias de acordo com suas características vocais e interpretativas. Neste show, Passoca (voz e tamborim), Thomas Howard (violão de 7 cordas) e Alê Ribeiro (clarinete) apresentam além das composições inéditas, alguns clássicos de Adoniran como Saudosa Maloca, Iracema, Bom Dia Tristeza, As Mariposa entre outras.
PAULO VANZOLINI
dom/seg [24 e 25] 21h30_ R$53
Um dos grandes nomes da música brasileira, o compositor e cientista Paulo Vanzolini faz duas únicas apresentações, como parte das comemorações dos 100 anos de Adoniran Barbosa. Ao lado da cantora Ana Bernardo, Vanzolini conversa com o público, revela histórias curiosas e apresenta sambas como "Seu Barbosa", que compôs em homenagem ao amigo compositor.
ROBERTO SERESTEIRO
terça [26/01] 21h30_ R$19
Roberto Seresteiro apresenta os sambas de Adoniran Barbosa ao lado de Lucas Arantes (cavaco), João Camarero (violão e cordas) e Alfredo Castro (percussão) levando o público para o contexto em que as músicas foram criadas. Uma apresentação despretensiosa que homenageia a memória um dos maiores nomes da cultura e da produção artística de São Paulo.
KIKO DINUCCI
quarta [27/01] 21h30_ R$19
Kiko Dinucci apresenta sambas de sua autoria influenciados por Adoniran Barbosa. Além de suas composições e do mestre Adoniran, Kiko aponta no repertório os ecos da obra do compositor paulista no cancioneiro urbano de São Paulo.
Casa de Francisca
Rua José Maria Lisboa 190, travessa da Brigadeiro Luís Antônio
T 11 3052 0547_ reservas@casadefrancisca.art.
terça a domingo das 20h a 1h
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Do mundo diplomático e outros assuntos
Cara Mariana,
Seguem, conforme conversado há pouco, os textos cuja tradução para inglês seria muito útil.
Desde já agradeço a ajuda dispensada a este assunto.
Cordialmente,
Contexto: ele chegou aqui na sala e falou que peloamordedeus as traduções são urgentes é uma loucura estamos atrasados com isso e tal e coisa.
Daí, no email, "os textos cuja tradução para o inglês seria muito útil".
De forma que se elas seriam muito úteis elas não têm caráter obrigatório nem urgente, certo? Errado.
Esse é só o jeito diplomático de colocar as coisas.
Ai de nós, meras estagiárias, se não entregarmos a tradução até sexta feira.
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Sinto que estou devendo a vocês um esqueminha "primeiras impressões" do mundo diplomático.
Vou tentar fazer antes do próximo final de semana, antes que a minha opinião (por enquanto, ácida) mude.
Juro que é tudo muito sui generis dentre essa espécie de seres humanos.
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Mas tudo bem que eu vou pegar o trem.
Nesse final de semana, Montreux, em uma viagem para me inspirar nas coisas da vida, incluindo o castelo de Chillon e as Les Rochers-de-Naye, que têm uma vista incrível dos Alpes e do Lac Léman e de toda a região.
No outro final de semana, uh la la, Paris Paris, la belle Paris...
Com as minhas primas queridas do coração!
Serão dois finais de semana para não botar defeito.
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Campanha pelo Real Contato
Então eu decidi voltar aos velhos tempos...
De forma que, quem quiser receber um postal meu, deve me mandar por email seu endereço completo. Faço aqui uma promessa pública de que enviarei um postal para todo mundo que me mandar seus endereços.
E o meu endereço de correspondências aqui é:
Rue des Pechêries, 12, appartement 71
1205 Genève
Suisse
Ah, sim, dando continuidade à campanha "Comprem créditos Skype", também deixo aqui meu quarto* número de telefone para vocês me ligarem.
É ele:
+ 41 76 783 0089
Cartinhas e telefonemas serão muito bem aceitos para aquecer meu coração nesse inverno suíço.
* Quarto e definitivo número de celular. Prometo que não mudo nunca mais, após um número dinamarquês, um inglês, um suíço provisório e um suíço definitivo. Campanha pela banalização dos chips de celular.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Genève, Semaine Un
Sua mania de ser tão certa assim me dá na telha, acho que isso é muito errado para uma cidade, ser tão certa.
Até em seu bairro que tende a ser submundo, o Pâquis, as mulheres ficam envitrinadas e sozinhas, quietas, não mexem com você, não são mexidas. Os homens ficam dentro das casas de jogos turcas, jogando cartas. Os traficantes ficam de sobretudo encostados em postes observando o movimento. A gente sabe que eles são traficantes – e quando eles nos olham, eles sabem que a gente não quer. Não tem abordagem, nem nos turcos, nem nas putas, nem nos traficantes. É tudo excessivamente polido e educado. E isolado – é cada um por si e só.
Não tem assalto com abordagem por aqui.
Mas tem gente (de montes, andei descobrindo) que invade casas com uma certa facilidade, na calada da noite, quando está todo mundo dormindo. No dia seguinte você acorda e, olha só!, não tem mais microondas na cozinha nem TV na sala. Mas seu sono não foi perturbado, sua integridade humana, idem.
Tem – e isso tem muito, de um tanto que chegou a incomodar pela primeira vez por aqui – gente pedindo dinheiro.
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Daí no meu sábado solitário e nevado, vagando pela rua, decidi entrar no Campus da Universidade. Quem sabe lá não seria um lugar legal para conhecer gente?
Escolha errada, luz vermelha.
As pessoas da Universidade daqui, ou pelo menos do prédio específico de onde eu entrei, não querem papo. Querem livro e capuccino em imensas mesas comunitárias e de um silêncio mortal. Ninguém se olha, só se olha para os livros. E olha que nem era biblioteca, era cantina da Universidade mesmo.
Achei isso muito chato, e continuei minha caminhada sem destino na neve que caía incessantemente desde sexta.
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Genève, então, serena e correta, não tem sal, não é visceral, não te pega pelo estômago, não te faz o coração palpitar, não te esmaga a goela tirando o ar.
Ela dá, isso sim, uma sensação esquisita de conforto duradouro, perene, inquebrável. A cidade oferece uma inabalável paz interna e externa com a qual eu não estou acostumada.
É arroz branco sem tempero. Não é feijoada nem picanha sangrenta nem sushi banhado no shoyo (acabei de mencionar as coisas das quais tenho sentido falta).
Ela não acolhe, respeitando muito bem a individualidade e o espaço de cada um, então ela não abraça, não faz carinho. Ela simplesmente oferece tudo o que tem a ser oferecido – menos aos domingos, quando a cidade hiberna confortavelmente em suas residências. Como se “paz” e “tranqüilidade” pudessem estar na lista do fornecedor do Carrefour (ou Migros e Coop, os maiores supermercados por aqui), assim como estão a banana e a farinha de trigo e o queijo Gruyère.
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Genève nem esbanjar luxo esbanja. Parece que aqui os Audis e BMWs e sei lá o que de Ferraris e tudo o mais são absolutamente normais e ordinários. Isso não é esbanjar, é banalizar.
A avenida dos bancos gigantescos com seus prédios oponentes, as vitrines de relógios, de jóias e de chocolates, são assim – banalizadas, ordinárias. Nada parece fora do comum nessa cidade tão múltipla e internacional, e, ao mesmo tempo, tão encaixadinha em sua previsibilidade rotineira. Não tem fora do lugar em Genebra. Para tudo tem o seu lugar.
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Cosmopolita? Sim, a cidade é a cidade mais cosmopolita de toda a Suíça (nooooooossa). E tem uma cifra impressionante: 45% de sua população não é Suíça.
Mas então, vem Genebra com toda sua paz e serenidade imponentes, e faz o melting pot de diferentes culturas ficar azul da cor do lago e só. Todo mundo vira um pouco suíço – fora meus primeiros dias, desde quinta da semana passada as pessoas já falam comigo de cara em francês, de cara como se eu muito fizesse parte disso daqui. E faço, na verdade. Eles só se esqueceram que eu posso, de repente, não ser suíça. Então, todo mundo vira um pouco suíço. Ninguém vira um pouco brasileiro, um pouco português, um pouco chinês.
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By the way, top ten nacionalidades percebidas nas ruas: portugueses, brasileiros, africanos (não sei de que parte, infelizmente), turcos, norte-americanos.
Uhul.
Por aqui tem pouco chinês – pelo menos por enquanto. Fico feliz com isso. Genève me faz feliz por ainda estar resguardada dos chineses, esses senhores do mal que invadem o mundo com sua população explosiva.
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Então faltou sábado eu me largar pelos cantos.
Porque na universidade não falaram comigo.
No Museu de Arte Contemporânea, tinha eu e o segurança e só.
Na rua, eu, a neve, e as pessoas dentro dos cafés me olhando e pensando “que louca!” por eu estar naquele temporal de neve lutando contra o vento para chegar em algum lugar que nem eu sabia onde.
Até que os ventos me levaram para a Manor – a maior loja de departamentos da Suíça. Lá, eu comprei. Fiz compras de supermercado que me faltavam, e uma bota de cano alto a preços ridiculamente módicos. O Instituto Akatu era bem sábio quando falava que primar pelo equilíbrio emocional é mais importante do que consumir. Eu fui pro outro lado e, claramente, estava lá suprindo minhas carências emocionais e da geladeira daqui de casa também.
Mas voltei para casa para encontrar essa minha não-internet funcionando mal e porcamente. Me impossibilitando de falar no skype decentemente.
Tudo bem.
À noite teve mais caminhada na neve, Pâquis e a tentativa (furada, há de se dizer) de fazer amigos gringos.
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Mexerica aqui se chama Clèmentine. Acho fofo.
Aliás, mexerica e pêra são as únicas frutas que eu como. As únicas que cabem no meu orçamento e que são bonitas no supermercado.
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Adoro estar no último andar e ver, a qualquer hora, os telhados brancos. A cidade fica clara com a neve.
À noite a neve dá esse efeito estranho e lindo de luz a mais.
De dia, a neve reflete a luz do sol, e mesmo em dias fechados tudo fica assim, claro.
Bem combinando com a paz reinante em Genève. Essa paz toda, que me é tão perturbadora.
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Um outro ponto de vista é o do Tango, que me explicava a vida aqui no café da manhã de sábado.
Aqui ele se preocupa em viver. O que ele almeja é maior, a qualidade é maior, o cuidado é menor, tudo é bem mais natural. As coisas fluem. Ele não se preocupa em ter a bicliceta levada embora – ele se preocupa em andar de bicicleta. Ele não precisa se sentir correndo riscos ao sair do cinema no meio da rua meia noite. Ele sabe que isso não é um risco.
No Brasil a gente se limita muito, porque tem tantos fatores externos a você atuantes na sua vida, que não dá para crescer tanto, extrapolar. A preocupação e a tensão são latentes. Ele disse que ele se preocupava em sobreviver, e não em viver.
Estou para aprender isso com ele, viu? Por enquanto, só posso achar que essa paz esmaga a vontade de ser diferente e se extrapolar qualquer coisa.
Mas o Tango consegue ir mais longe nesse clima de paz absoluta.
Espero, realmente, chegar nesse nível dele.
Ou não – porque afinal, quando isso acontecer eu nunca mais me adapto à loucura frenética de São Paulo. E é exatamente isso o que aconteceu na vida dele. Ele não sente mais falta do Brasil em si, nem de São Paulo. Nunca mais se imagina morando lá. E quando viaja para um terceiro país, e isso ele verbalizou com todas as letras sábado, ele sente mais falta da Suíça do que do Brasil.
O único país do mundo onde ele pode namorar deitado no parque com a bicicleta atrás dele e sem ficar olhando direto para a bicicleta e para a bolsa – elas sempre estarão lá.
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Brasileiro é sempre brasileiro.
Fomos tirar nosso crachá da ONU e os seguranças que faziam o crachá e tiravam as nossas fotos babaram na nossa simpatia, desenvoltura, e sorriso. Daí chegou mais um cara, um operador de som, também brasileiro. Ele opera as cabines de tradução simultânea nas salas do Conselho de Dirs Hums. Daí os caras se empolgaram e chamaram lá um outro segurança que é brasileiro – ele já está bastante travestido de suíço, no entanto, depois de 15 anos por essas bandas sendo segurança da ONU.
Resumo da ópera e final previsível da história: em plena sala blindada de segurança da ONU, eu e as duas meninas, o operador do som, e o segurança fizemos o maior barulho por lá. Causando mesmo, tipo cantando samba, batendo palma, falando das saudades do Brasil e da vida na Suíça.
Brasileiro é festa, mesmo, né? Não tem jeito...
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Meu crachá da ONU. Acho chique.
Estou babando. Pego ele dentro da minha bolsa e fico assim, admirando. Vendo minha foto (terrível), vendo meu nome, vendo o símbolo da ONU e todos os hologramas de segurança. Estou adorando isso e não vejo a hora da minha primeira reunião lá dentro.
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Estou me descobrindo uma exímia dona de casa. A hora de lavar roupa tem sido uma terapia. Cozinhar então? Puro deleite. Óbvio que seria melhor com a Cidoca. Mas na falta dela eu estou muito bem, obrigada.
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O centro velho de Genebra, ou Vieille Ville, é um dos locais históricos mais bobos que eu já vi na vida.
Tsc tsc esses protestantes.
Não sabem fazer uma estética que encha aos olhos... é quase triste.
Tinham que ter aprendido direitinho na Itália. Aqui, a igreja matriz é puro tédio, e seu ponto principal de atenção é a cadeira onde once upon a time Calvino se sentou.
Quer mais bobo que isso?
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Fico vendo o jornal e não sei como vocês estão sobrevivendo aí. Os meus menos cinco têm me caído muito bem, obrigada.
Eu não conseguiria dormir sob 27 graus.
Nem a pau.
Me descubro a cada dia mais uma belíssima amante do inverno.
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Cabelo aqui fica feio.
É essa água cheia de calcário que ressaca tudo. É o chapéu, obrigatório pelo vento, que amassa meus cachos. Meu corte style by Charles está simplesmente... murcho. Que nem Genève é simplesmente... arrumadinha.
Pele aqui fica boa.
Deve ser a água calcária, deve ser o vento frio que deixa a pele dormente (deve matar todos os bichinhos da acne esse vento gélido), deve ser a falta de polução. Não fica aquela sensação de pele grudenta. É simplesmente confortável.
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Neve é uma areia que afunda seu pé, mas que te faz escorregar. E que te causa um frio úmido nos pés super desconfortável.
Mesmo assim, é muito legal andar na neve!
(principalmente quando se trata de ter os sapatos adequados)
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Domingo acordou belamente ensolarado.
Então?
Dia feliz, de passeio na beira do lago, de parque, de crepe com vista pro lago, e cinema, e kebab para arrematar.
As fotos ficaram lindas, eu estava feliz.
Foi o primeiro dia que eu pensei, vendo aquele lago, e aquele sol de final de tarde “Nossa, essa cidade pode sim ser muy bela”.
Então a Lia me disse uma coisa, nós duas comendo crepe de Nutella e vendo o sol cair com vista pro Lago, a Lia foi sábia e me disse:
“Mari, não importa a beleza dessa cidade. Essa é a cidade que está nos possibilitando isso que nós estamos passando, é essa cidade que vai nos acolher e que vai ser nossa casa. A gente tem mais é que agradecer por tudo isso. E achar essa cidade linda.”
E ainda arrematou:
“Estamos juntas nessa, doninha! A canoa não vai virar porque a gente rema todo mundo junto”.
Tá aí. Eu gosto da Lia e de sua gigantesca negritude linda e brilhante.
Eu gostei de ser chamada de doninha. Achei engraçado.
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Voltando para casa vi um mocinho com um violoncelo nas costas. Ele desceu no mesmo ponto que eu. Interceptei-o no meio da rua. “Você sabe onde tem algum lugar com jazz ao vivo, Jam session por aqui?” Ele foi super fofo e simpático, madrileño, adora brasileiros, piriri pororó. Disse alguns bares e arrematou sua fala com:
“Mas não fique com muitas expectativas não. No final das contas tudo aqui é um pouco boring”.
Então, apesar do meu encantador domingo na beira do lago, aquela paisagem linda, ver o sol, o final da tarde, minhas conversas ótimas com a Lia, Genève estava quase me emocionando pelo ombro...
Mas daí a mensagem de “moral da história”, pelo menos nessa primeira semana, é essa última frase do meu novo amigo espanhol.
Que não pegou meu telefone mas disse “espero te ver no ônibus em breve”.
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E aí, você já sabe o que vai fazer pela próxima COP??
Clique aqui:
http://unevoyagetresfantastique.blogspot.com/2010/01/o-que-voce-vai-fazer-pela-cop.html
E me conte o que você vai fazer pela COP-16. Muitas respostas já estão sendo recebidas,e eu estou emocionantemente compilando tudo para mandar para vocês.
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Fotos atualizadas??
Sempre, no Picasa mais próximo de você.
Aqui:
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Beijo no joelho.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
O foguete Brasil caiu em Angra
SÃO PAULO - O foguete Brasil de recente capa da "Economist" acabou caindo em Angra dos Reis, para citar apenas a cidade mais explorada pela televisão nas enchentes do verão que mal começou.
Ficou evidente, se ainda fosse preciso, que o Brasil é um país colossalmente subdesenvolvido, vítima do que Janio de Freitas, na terça-feira, chamou de "urbanismo criminoso, que tantos administradores públicos têm praticado por tão longo tempo, com a permissão para o crescimento de favelas (formas de degradação da vida urbana) e para a especulação imobiliária (como degradação também da natureza)".
Vai ser difícil encontrar outra descrição tão apta do subdesenvolvimento em tão poucas linhas. Certamente não será encontrada na "Economist", que está preocupada com a emergência do mercado brasileiro, não do país.
Subdesenvolvimento não é obra de apenas um governo ou de apenas alguns anos. E o "urbanismo criminoso" descrito por Janio de Freitas é só uma de suas características centrais. Permanece o descuido, também criminoso, com educação, saúde e segurança pública, para ficar em apenas três das chagas abertas na pele do país.
Como permanece intocada a obscena desigualdade social, ainda que alguns acadêmicos, o jornalismo chapa-branca ou descuidado e a propaganda governamental façam circular a lenda de sua queda.
Ah, por falar em desigualdade, alguém aí prestou atenção na cor das vítimas das inundações? A esmagadora maioria era formada por pretos, pardos, cafuzos, não-brancos, salvo no Rio Grande do Sul. Exceto alguns turistas que estavam no lugar errado na hora errada e, por isso mesmo, viraram notícia. Preto e pobre vítima da combinação do subdesenvolvimento com excessos da natureza é rotina. É aquele imenso pedaço do Brasil que nunca emerge, mas vira e mexe submerge.
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Só coloquei aqui porque eu gostei e porque expressa também minha opinião sobre todo esse barulho que está sendo feito do Brasil que cresceu. Falta tanto, ainda, que fuzuê antes da hora não é legal.