quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ensaboa, mulata, ensaboa

OU:
da atividade laboral.

Já que muita gente tem me perguntado o que eu tenho feito aqui no dia-a-dia e como é a rotina de escritório, resolvi escrever algumas linhas sobre isso.

O estágio é bem bacana, de fato, mas ainda estou esperando a hora que vai acontecer alguma coisa BÁRBARA que vai me fazer apaixonar por isso que faço aqui. Ainda não rolou, até porque o que eu faço aqui é bastante difuso.

Meu rol de atividades inclui desde fazer pesquisa e escrever relatório até guardar uma mesa no restaurante de bandeijão da OMS para a Ministra (um cargo diplomático, não ministra de Estado, pelo menos não por enquanto) poder fazer, junto com toda a delegação brasileira e mais uma outra galera, uma reunião na hora do almoço.
Bom manuseio da máquina de xerox da Missão também é um dos pré-requisitos essenciais para o bom andamento do meu trabalho, dado que uma passadinha por lá é uma constante nas nossas vidas.
Saber distribuir documentos entre todos os presentes em uma reunião também é uma das atividades que me compete, e fazer isso com a destreza e a habilidade necessárias é realmente desafiador.
(só um parênteses: um dos pré-requisitos desse programa é ser, no mínimo, pós-graduado com mestrado)

Mas não é só disso que é feito meu estágio (ufa!!!!), embora essas atividades estejam aí fortes para a gente.

Estou gostando bastante da parte da pesquisa e dos relatórios. Atualmente tenho pesquisado sobre Fiji e Iran, com foco em direitos humanos, porque em fevereiro haverá o UPR (Universal Periodical Review) desses países na Comissão de Direitos Humanos. E ontem mesmo fiz uma pesquisa rápida sobre nutrição infantil e se o Brasil tem ou não alguma regulamentação para publicidade de produtos que substituam a lactação.
Também fazemos algumas traduções, dependendo da demanda dos diplomatas quando eles querem enviar algum "telegrama" para a Capital. E eu também gosto de fazer traduções...

Para o UPR, todo mundo está fazendo pesquisa como loucos... e no dia do UPR temos que chegar na fila dos speakers lá pelas 3 ou 4 da manhã da noite anterior.
Então, durante o carnaval de vocês, mais especificamente de domingo para segunda do feriado, lembrem-se de mim. Quando for duas da manhã daí, cinco da manhã daqui, eu estarei lá fora no portão da ONU esperando para entrar na ONU correndo literalmente (é tipo o portal dos desesperados) para inscrever o nome do Brasil na lista dos speakers para o UPR do Iran. Aí, às nove e meia da manhã, o diplomata que estará comigo nesse UPR chegará impávido, gravata no lugar, bainho tomado, para fazer seu discurso.
Mas o nosso chefinho fica nos motivando com relação a isso. Ele fala que ficar na fila é maior legal para fazer amigos de outros países, então na verdade eu estou realmente empolgada com a possibilidade de tomar chá dos japoneses (ele disse que tem gente que leva garrafa térmica para a fila) e sentar na almofada com os indianos, praticar um pouco de meditação (ele já viu isso acontecer também).
(só um detalhe: tudo isso a menos cinco, menos três, nessa Suíça que só amanhece oito da manhã).
Esse UPR que ocorrerá no meio do carnaval de vocês é exatamente o mais emocionante, o do Iran. E eu acabei de negar um convite para um final de semana na Alemanha NESSE EXATO final de semana porque seria impraticável chegar de Berlim tarde da noite e quatro da manhã acordar para ir para a fila. Ossos do ofício.

Outra coisa que eu estou AMANDO é acompanhar as reuniões entre os diversos países sobre os mais diversos temas. Semana passada eu acompanhei as discussões do Right to Development no Conselho de Direitos Humanos. Essa semana estou acompanhando o Executive Board da OMS. Me sinto no MONU, tem um chairperson (moderador) que fala "Eu agora reconheço a palavra ao delegado da Uganda" e aí vai lá o delegado da Uganda e fala piriri pororó sobre as políticas do seu país sobre prevenção ao alcoolismo. Mesmo nessas reuniões legais, o chato disso é que precisamos fazer um relatório depois. Urgh. Mas o legal é que eu acabei de receber carta branca do Conselheiro (outro cargo diplomático) para fazer corpo a corpo com as outras delegações e obter co-patrocinadores para as nossas propostas de resoluções. Essa é a hora legal de conhecer gente nova e usar todo meu charme negociador árabe-brasileiro para conquistar umas assinaturas.

Eu também gosto da nossa primeira atividade do dia, que é ler os jornais do mundo inteiro e fazer o clipping do que é relevante que os diplomatas saibam. Ou seja, o jornalzinho que os diplomatas lêem todas as manhãs, somos nós, as estagiárias que fazemos. É um pouco difícil acreditar que eles lêem tudo isso, mas eu acho legal fazer. Adoro selecionar váááááááárias notícias da Al Jazeera para promover um ponto de vista um pouco mais terrorista sobre as coisas do mundo. É nessa hora que entra a máquina de xerox, já que temos que fazer as cópias e entregar para a Embaixadora e as duas Ministras.

Enfim, por enquanto a rotininha de trabalho é assim... entre clipping, pesquisas, relatórios, reuniões e a máquina de xerox.
Poderia ser mais legal e desafiador, mas quando eu coloco tudo isso nesse mágico contexto Genebra / ONU / todas as outras organizações internacionais do mundo/mundinho diplomático, a brincadeira ganha ares de coisa de gente grande.
E aí fica bem legal.

ps.: babem. Esse post foi escrito, quase que integralmente, durante o coffee break no Executive Board da Organização Mundial da Saúde, diretamente na sala principal da Assembléia geral da OMS.
ps.2: o croissant de chocolate do coffee break da OMS é, no mínimo, uma tentação ardente da qual eu fujo com dor no peito.

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