Sua mania de ser tão certa assim me dá na telha, acho que isso é muito errado para uma cidade, ser tão certa.
Até em seu bairro que tende a ser submundo, o Pâquis, as mulheres ficam envitrinadas e sozinhas, quietas, não mexem com você, não são mexidas. Os homens ficam dentro das casas de jogos turcas, jogando cartas. Os traficantes ficam de sobretudo encostados em postes observando o movimento. A gente sabe que eles são traficantes – e quando eles nos olham, eles sabem que a gente não quer. Não tem abordagem, nem nos turcos, nem nas putas, nem nos traficantes. É tudo excessivamente polido e educado. E isolado – é cada um por si e só.
Não tem assalto com abordagem por aqui.
Mas tem gente (de montes, andei descobrindo) que invade casas com uma certa facilidade, na calada da noite, quando está todo mundo dormindo. No dia seguinte você acorda e, olha só!, não tem mais microondas na cozinha nem TV na sala. Mas seu sono não foi perturbado, sua integridade humana, idem.
Tem – e isso tem muito, de um tanto que chegou a incomodar pela primeira vez por aqui – gente pedindo dinheiro.
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Daí no meu sábado solitário e nevado, vagando pela rua, decidi entrar no Campus da Universidade. Quem sabe lá não seria um lugar legal para conhecer gente?
Escolha errada, luz vermelha.
As pessoas da Universidade daqui, ou pelo menos do prédio específico de onde eu entrei, não querem papo. Querem livro e capuccino em imensas mesas comunitárias e de um silêncio mortal. Ninguém se olha, só se olha para os livros. E olha que nem era biblioteca, era cantina da Universidade mesmo.
Achei isso muito chato, e continuei minha caminhada sem destino na neve que caía incessantemente desde sexta.
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Genève, então, serena e correta, não tem sal, não é visceral, não te pega pelo estômago, não te faz o coração palpitar, não te esmaga a goela tirando o ar.
Ela dá, isso sim, uma sensação esquisita de conforto duradouro, perene, inquebrável. A cidade oferece uma inabalável paz interna e externa com a qual eu não estou acostumada.
É arroz branco sem tempero. Não é feijoada nem picanha sangrenta nem sushi banhado no shoyo (acabei de mencionar as coisas das quais tenho sentido falta).
Ela não acolhe, respeitando muito bem a individualidade e o espaço de cada um, então ela não abraça, não faz carinho. Ela simplesmente oferece tudo o que tem a ser oferecido – menos aos domingos, quando a cidade hiberna confortavelmente em suas residências. Como se “paz” e “tranqüilidade” pudessem estar na lista do fornecedor do Carrefour (ou Migros e Coop, os maiores supermercados por aqui), assim como estão a banana e a farinha de trigo e o queijo Gruyère.
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Genève nem esbanjar luxo esbanja. Parece que aqui os Audis e BMWs e sei lá o que de Ferraris e tudo o mais são absolutamente normais e ordinários. Isso não é esbanjar, é banalizar.
A avenida dos bancos gigantescos com seus prédios oponentes, as vitrines de relógios, de jóias e de chocolates, são assim – banalizadas, ordinárias. Nada parece fora do comum nessa cidade tão múltipla e internacional, e, ao mesmo tempo, tão encaixadinha em sua previsibilidade rotineira. Não tem fora do lugar em Genebra. Para tudo tem o seu lugar.
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Cosmopolita? Sim, a cidade é a cidade mais cosmopolita de toda a Suíça (nooooooossa). E tem uma cifra impressionante: 45% de sua população não é Suíça.
Mas então, vem Genebra com toda sua paz e serenidade imponentes, e faz o melting pot de diferentes culturas ficar azul da cor do lago e só. Todo mundo vira um pouco suíço – fora meus primeiros dias, desde quinta da semana passada as pessoas já falam comigo de cara em francês, de cara como se eu muito fizesse parte disso daqui. E faço, na verdade. Eles só se esqueceram que eu posso, de repente, não ser suíça. Então, todo mundo vira um pouco suíço. Ninguém vira um pouco brasileiro, um pouco português, um pouco chinês.
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By the way, top ten nacionalidades percebidas nas ruas: portugueses, brasileiros, africanos (não sei de que parte, infelizmente), turcos, norte-americanos.
Uhul.
Por aqui tem pouco chinês – pelo menos por enquanto. Fico feliz com isso. Genève me faz feliz por ainda estar resguardada dos chineses, esses senhores do mal que invadem o mundo com sua população explosiva.
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Então faltou sábado eu me largar pelos cantos.
Porque na universidade não falaram comigo.
No Museu de Arte Contemporânea, tinha eu e o segurança e só.
Na rua, eu, a neve, e as pessoas dentro dos cafés me olhando e pensando “que louca!” por eu estar naquele temporal de neve lutando contra o vento para chegar em algum lugar que nem eu sabia onde.
Até que os ventos me levaram para a Manor – a maior loja de departamentos da Suíça. Lá, eu comprei. Fiz compras de supermercado que me faltavam, e uma bota de cano alto a preços ridiculamente módicos. O Instituto Akatu era bem sábio quando falava que primar pelo equilíbrio emocional é mais importante do que consumir. Eu fui pro outro lado e, claramente, estava lá suprindo minhas carências emocionais e da geladeira daqui de casa também.
Mas voltei para casa para encontrar essa minha não-internet funcionando mal e porcamente. Me impossibilitando de falar no skype decentemente.
Tudo bem.
À noite teve mais caminhada na neve, Pâquis e a tentativa (furada, há de se dizer) de fazer amigos gringos.
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Mexerica aqui se chama Clèmentine. Acho fofo.
Aliás, mexerica e pêra são as únicas frutas que eu como. As únicas que cabem no meu orçamento e que são bonitas no supermercado.
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Adoro estar no último andar e ver, a qualquer hora, os telhados brancos. A cidade fica clara com a neve.
À noite a neve dá esse efeito estranho e lindo de luz a mais.
De dia, a neve reflete a luz do sol, e mesmo em dias fechados tudo fica assim, claro.
Bem combinando com a paz reinante em Genève. Essa paz toda, que me é tão perturbadora.
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Um outro ponto de vista é o do Tango, que me explicava a vida aqui no café da manhã de sábado.
Aqui ele se preocupa em viver. O que ele almeja é maior, a qualidade é maior, o cuidado é menor, tudo é bem mais natural. As coisas fluem. Ele não se preocupa em ter a bicliceta levada embora – ele se preocupa em andar de bicicleta. Ele não precisa se sentir correndo riscos ao sair do cinema no meio da rua meia noite. Ele sabe que isso não é um risco.
No Brasil a gente se limita muito, porque tem tantos fatores externos a você atuantes na sua vida, que não dá para crescer tanto, extrapolar. A preocupação e a tensão são latentes. Ele disse que ele se preocupava em sobreviver, e não em viver.
Estou para aprender isso com ele, viu? Por enquanto, só posso achar que essa paz esmaga a vontade de ser diferente e se extrapolar qualquer coisa.
Mas o Tango consegue ir mais longe nesse clima de paz absoluta.
Espero, realmente, chegar nesse nível dele.
Ou não – porque afinal, quando isso acontecer eu nunca mais me adapto à loucura frenética de São Paulo. E é exatamente isso o que aconteceu na vida dele. Ele não sente mais falta do Brasil em si, nem de São Paulo. Nunca mais se imagina morando lá. E quando viaja para um terceiro país, e isso ele verbalizou com todas as letras sábado, ele sente mais falta da Suíça do que do Brasil.
O único país do mundo onde ele pode namorar deitado no parque com a bicicleta atrás dele e sem ficar olhando direto para a bicicleta e para a bolsa – elas sempre estarão lá.
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Brasileiro é sempre brasileiro.
Fomos tirar nosso crachá da ONU e os seguranças que faziam o crachá e tiravam as nossas fotos babaram na nossa simpatia, desenvoltura, e sorriso. Daí chegou mais um cara, um operador de som, também brasileiro. Ele opera as cabines de tradução simultânea nas salas do Conselho de Dirs Hums. Daí os caras se empolgaram e chamaram lá um outro segurança que é brasileiro – ele já está bastante travestido de suíço, no entanto, depois de 15 anos por essas bandas sendo segurança da ONU.
Resumo da ópera e final previsível da história: em plena sala blindada de segurança da ONU, eu e as duas meninas, o operador do som, e o segurança fizemos o maior barulho por lá. Causando mesmo, tipo cantando samba, batendo palma, falando das saudades do Brasil e da vida na Suíça.
Brasileiro é festa, mesmo, né? Não tem jeito...
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Meu crachá da ONU. Acho chique.
Estou babando. Pego ele dentro da minha bolsa e fico assim, admirando. Vendo minha foto (terrível), vendo meu nome, vendo o símbolo da ONU e todos os hologramas de segurança. Estou adorando isso e não vejo a hora da minha primeira reunião lá dentro.
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Estou me descobrindo uma exímia dona de casa. A hora de lavar roupa tem sido uma terapia. Cozinhar então? Puro deleite. Óbvio que seria melhor com a Cidoca. Mas na falta dela eu estou muito bem, obrigada.
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O centro velho de Genebra, ou Vieille Ville, é um dos locais históricos mais bobos que eu já vi na vida.
Tsc tsc esses protestantes.
Não sabem fazer uma estética que encha aos olhos... é quase triste.
Tinham que ter aprendido direitinho na Itália. Aqui, a igreja matriz é puro tédio, e seu ponto principal de atenção é a cadeira onde once upon a time Calvino se sentou.
Quer mais bobo que isso?
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Fico vendo o jornal e não sei como vocês estão sobrevivendo aí. Os meus menos cinco têm me caído muito bem, obrigada.
Eu não conseguiria dormir sob 27 graus.
Nem a pau.
Me descubro a cada dia mais uma belíssima amante do inverno.
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Cabelo aqui fica feio.
É essa água cheia de calcário que ressaca tudo. É o chapéu, obrigatório pelo vento, que amassa meus cachos. Meu corte style by Charles está simplesmente... murcho. Que nem Genève é simplesmente... arrumadinha.
Pele aqui fica boa.
Deve ser a água calcária, deve ser o vento frio que deixa a pele dormente (deve matar todos os bichinhos da acne esse vento gélido), deve ser a falta de polução. Não fica aquela sensação de pele grudenta. É simplesmente confortável.
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Neve é uma areia que afunda seu pé, mas que te faz escorregar. E que te causa um frio úmido nos pés super desconfortável.
Mesmo assim, é muito legal andar na neve!
(principalmente quando se trata de ter os sapatos adequados)
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Domingo acordou belamente ensolarado.
Então?
Dia feliz, de passeio na beira do lago, de parque, de crepe com vista pro lago, e cinema, e kebab para arrematar.
As fotos ficaram lindas, eu estava feliz.
Foi o primeiro dia que eu pensei, vendo aquele lago, e aquele sol de final de tarde “Nossa, essa cidade pode sim ser muy bela”.
Então a Lia me disse uma coisa, nós duas comendo crepe de Nutella e vendo o sol cair com vista pro Lago, a Lia foi sábia e me disse:
“Mari, não importa a beleza dessa cidade. Essa é a cidade que está nos possibilitando isso que nós estamos passando, é essa cidade que vai nos acolher e que vai ser nossa casa. A gente tem mais é que agradecer por tudo isso. E achar essa cidade linda.”
E ainda arrematou:
“Estamos juntas nessa, doninha! A canoa não vai virar porque a gente rema todo mundo junto”.
Tá aí. Eu gosto da Lia e de sua gigantesca negritude linda e brilhante.
Eu gostei de ser chamada de doninha. Achei engraçado.
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Voltando para casa vi um mocinho com um violoncelo nas costas. Ele desceu no mesmo ponto que eu. Interceptei-o no meio da rua. “Você sabe onde tem algum lugar com jazz ao vivo, Jam session por aqui?” Ele foi super fofo e simpático, madrileño, adora brasileiros, piriri pororó. Disse alguns bares e arrematou sua fala com:
“Mas não fique com muitas expectativas não. No final das contas tudo aqui é um pouco boring”.
Então, apesar do meu encantador domingo na beira do lago, aquela paisagem linda, ver o sol, o final da tarde, minhas conversas ótimas com a Lia, Genève estava quase me emocionando pelo ombro...
Mas daí a mensagem de “moral da história”, pelo menos nessa primeira semana, é essa última frase do meu novo amigo espanhol.
Que não pegou meu telefone mas disse “espero te ver no ônibus em breve”.
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E aí, você já sabe o que vai fazer pela próxima COP??
Clique aqui:
http://unevoyagetresfantastique.blogspot.com/2010/01/o-que-voce-vai-fazer-pela-cop.html
E me conte o que você vai fazer pela COP-16. Muitas respostas já estão sendo recebidas,e eu estou emocionantemente compilando tudo para mandar para vocês.
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Fotos atualizadas??
Sempre, no Picasa mais próximo de você.
Aqui:
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Beijo no joelho.
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