no carro, pelas ruas de Genève. Saindo do pub onde teve o karaokê, meu amigo sérvio que é refugiado de guerra e mora aqui há dez anos estava me levando para casa.
--
(...)
- É estranho isso, é muito diferente do que eu jamais vi na vida, ou do que eu possa conhecer. Isso de ter uma guerra, e de conhecer uma guerra, sabe?
(e aí, acho que pelos meus erros de francês, ele começou a me contar O QUE É a guerra na ex-Iugoslávia. Eu o interrompi)
- Eu sei o que é a guerra, acompanhei pelo jornal, estudei na escola. Eu sei na teoria o que aconteceu no seu país. O que eu quis dizer é que eu não consigo nem imaginar o que é passar por uma guerra, é totalmente diferente de qualquer coisa que eu possa ter vivido. Isso de perder gente querida na guerra, de ter medo de entrar uma bomba pela janela.
- É, a guerra é difícil. Eu ia e voltava da escola ouvindo os barulhos de bomba, pensando onde cairia a próxima bomba. Meus amigos na escola (...)
(ele ficou engasgado, um tempão em silêncio, e quando eu percebi tinha escorri uma lágrima. Aí ele continuou)
- A gente pode não falar da guerra no meu país? A gente pode combinar que você nunca mais vai me perguntar da guerra e de o que é viver na guerra?
- Claro que podemos.
(Silêncio. Mortal.)
(...)
- Então tá, obrigada pela carona e ótimo final de semana.
- Para você também. Cuidado em Paris, a cidade é muito grande.
--
Esse diálogo explica muito das diferenças que temos. Para começar, a cara de sofrido. Ele tem trinta anos e muitas rugas mesmo. Depois, as vontades e os objetivos e os sonhos. Ele quer morar em uma casa e ter comida para comer e sair com os amigos para o bar. Está bem assim.
- Mas Amir, qual seu sonho na vida? O que você quer de muito grande?
- Meu sonho na vida é isso que eu vivo aqui. É ter meu trabalho, meu carro, meus amigos, minha casa, e poder tomar café da manhã, almoçar e jantar todos os dias. Sem ouvir barulho de bomba no fundo. Eu não sei sonhar mais do que isso.
A loucura é que tudo que eu NÃO quero é essa vidinha pacífica, quiçá medíocre, do salário no bolso e a comida no prato (o barulho da bomba nem entra em questão na minha cabeça). Eu fico nessas de querer sempre mais, de sonhar alto, correr atrás realizar, sonhar mais alto, me superar, sempre, querer mais, sempre, querer ser maior dentro de mim mesma a cada dia.
Ele quer o salário e a comida e isso, para ele, já é grande o bastante.
--
Quando eu cheguei no meu quarto, tudo estava em sua paz de sempre, a roupa no varal estava seca, e eu arrumei minha malinha para o final de semana em Paris.
Mas desde esse diálogo, alguma coisa tem me perturbado, algum aperto no coração que eu nunca senti, um tipo diferente de aperto, de alguma coisa muito nova.
O que será que o Amir viveu e viu na guerra?
E essa pergunta não me sai da cabeça.
Mas eu sei que eu nunca mais perguntarei, pelo menos não para ele.
--
Ele tinha dito que ainda hoje, quase dez anos depois, quando ele dorme ele sonha com o barulho de bombas.
--
Em muitas oportunidades nessa viagem, tenho vivido o fim do mundo tal qual eu o conhecia.
A carona de ontem foi isso.
Meu amigo, me levando para casa, e em um diálogo simples e rápido,
vuft.
Mudou.
Durma com esse barulho, Mariana.
Não o das bombas. Pelo menos isso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário