terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Carnavália

Fiz uma seleção de trechos de músicas brasileiras para ilustrar esses meus dias frios e com muito trabalho aqui na Suíça, enquanto vocês aí estão na esbórnia carnavalesca dos trópicos.

"Todo dia ela faz tudo sempre igual / me sacode às seis horas da manhã / me sorri um sorriso pontual"
(Cotidiano, Chico Buarque)
Primeiro dia de fila. Acordei seis horas da manhã. E aí, sete horas da manhã na ONU.
Era ainda noite, nevava, fazia frio. Muito frio, tipo menos cinco. E nós lá - finas, maquiagem, salto alto. Todos os diplomatas dos outros países lá presentes tinham a cara amassada, assim como a gente. E, já que estamos em uma situação adversa, todos juntos, vamos tentar ser simpáticos uns com os outros. Mas eu fiquei com a impressão que simpatia nenhuma é suficiente naquele horário, sob aquelas condições.

"Quaquaraquaquá, quem riu? Quaquaraquaquá, fui eu..."
(Vou deitar e rolar, Baden Powell e Paulo César Pinheiro)
Então quando a crise se instala no grupo e parece que todo mundo (todo mundo, eu digo, a parte lúcida do grupo) vai sucumbir de tensão, cansaço, angústia, revolta e desapontamento, fomos comer no McDonalds.
E comemos e rimos e falamos alto e fizemos piada e falamos mal de um tanto que a barriga doeu e eu cheguei a, literalmente, chorar de rir. E isso durou muito tempo, uma hora e meia, duas horas, quizá. Tudo isso de risos esgoelados.
Mas aí, essa é aquela sensação de exceção, de situação extrema. Parece que a gente está dando muita risada e isso parece muito fora do lugar. Está tudo errado. E estava, mesmo. Aquele era o riso dos desesperados, não o riso dos relaxados. Sob pressão (e aqui estamos constantemente sob muita pressão, de um jeito que chega a fazer mal pela forma como as coisas são postas), rimos desesperadamente.
Quando eu cheguei em casa, o silêncio parecia pesar em cima de mim. Era como se o desespero que saiu no jantar na forma de gargalhadas estranhas, tivesse tomado forma como um peso absurdo, uma força da gravidade imensa, que fez meus ombros doerem e minhas sobrancelhas enrugarem a testa. Nessa quinta à noite, foi uma das vezes que eu mais pensei no Brasil e nas saudades de muitas coisas daí, e como eu gostaria de ter meus bons e velhos amigos, meus pais, meus irmãos, para poder ser escutada em minha revolta. Mas enfim, fiquei em silêncio, com dor nos ombros.
Nesse exato instante, pensei que eu pudesse estar experimentando alguma reação bipolar - como pode alguém, em meia hora, oscilar entre gargalhadas absurdas e dor no ombro? Mas aí eu decidi que o melhor a fazer seria parar de pensar e dormir. E foi o que eu fiz, me esparramando em minha gigantesca cama de casal com vista para os Alpes naquela estrelada estreladinha noite gélida.
A falta de vontade para acordar às cinco da manhã para ir para a fila de novo reinou, mas a sensação de grupo falou mais forte e lá fui eu para fazer a "troca de turno" com a pessoa que passou a noite na ONU. Dessa vez, o meu turno era das 6 às 9 da manhã, e inscrever oficialmente o Brasil na lista fazia parte dos meus atributos. Mas a pessoa do turno da madrugada não quis largar o osso, então ficamos em três. Se eu soubesse que era só para fazer companhia, e não para trocar de posto (como previamente planejado) eu teria ficado em casa sob o conforto dos meus lençóis. Ao invés disso, estava lá, no estacionamento da ONU, vivenciando uma "situação sui generis".
Quem riu? Fui eu.

"Eu quero é botar meu bloco na rua / brincar, botar pra gemer / Eu quero é botar meu bloco na ria / Ginga para dar e vender"
(Eu quero é botar meu bloco na rua, Sérgio Sampaio)
Luzern é linda. Parece aquelas encantadoras cidades que a gente acha que só existem nos cenários dos filmes. Um lago, montanhas, e casinhas alemãs.
Mas aí, no meio de tudo isso, no meio da rua, no meio do nada... andando entre as vielas, um bloco de carnaval! E outro, e outro! E quando a gente vê, quase se sente no Rio de Janeiro com tamanha profusão de blocos... as fantasias são elaboradas, as músicas também, mas nem de perto se assemelham a o que acontece no Brasil. Mesmo assim, é mucho loco andar pelas ruas de Berna se sentindo no barulhento mundo do Carnaval.
São muitos os blocos, por todos os cantos, pessoas sorridentes e felizes, realmente muito bêbadas também.
O frio castiga. Menos sete é aquela temperatura que, depois de um tempo, congela as bochechas e falar fica um pouco difícil, fora a sensação constante de dormência nos dedos dos pés e das mãos. Mas aí eu e a Catherine usamos a estratégia de duas horas de durabilidade. Depois disso, íamos sempre para algum lugar quente tomar chá e amolecer os dedos dos pés.
O pessoal que ficou em Genebra para o final de semana ficou pulando de bar em bar, na enorme profusão de carnavais brasileiros que aconteceram por aqui.
Eu fui a Luzern, em uma oportunidade única de ver e viver o carnaval suíço. Adorei.

"Ê! Ô ô! Vida de ga-a-do! Povo marcado, ê! Povo feliz!"
(Admirável Gado Novo, Zé Ramalho)
Daí foi assim. Cinco da tarde estourou-se a bomba que a fila na ONU já tinha começado, batendo todos os recordes de todas as outras filas. Eu me inscrevi, rapidamente, para o turno da fila das 21hrs às 24hrs. E logo saí, fugida, do escritório, para conseguir fazer o que eu tinha que fazer. Mas não consegui comer... resultado: o Amjr, que estava me levando para a ONU às nove, parou para comprar comida.
Depois de passar pela barreira dos seguranças, indefectíveis, veio a cena patética: eu lá, de cócoras (porque o chão estava sujo para sentar) no estacionamento da ONU, jantando meu kebabzinho, a menos três graus e dedos começando a doer. Quando finalmente chegou a chave da van que seria nosso abrigo durante o "turno da noite", veio a música na cabeça: povo marcado, ê, povo feliz... Então, eu e Nana, minha xará e amiga e companheira mais apertada daqui de Genebra, tivemos de novo nossos acessos de bobeira sentadas na van passando frio e ouvindo o GPS da van em italiano. Fizemos planos de ligar a van e sair do estacionamento da ONU fugindo para Paris... Mas acho que fomos caretas demais para isso. De qualquer forma, conversamos muito e demos, realmente, muita risada.
Meia noite, hora de troca de turno, ainda fizemos um "h" com a pessoa do próximo turno (o turno da noite inteira - 00hrs - 06hrs). E pegamos o último tram para casa, das 00.47, saindo da arrêt Nations.

"Eu fico com a pureza da resposta das crianças / é a vida, é bonita, e é bonita!"
(O que é, o que é, Gonzaguinha)
Hoje acordei mais tarde e vim trabalhar mais tarde. Merecia, após a noite de ontem.
Genebra não tem perua escolar como em São Paulo. Então os professores, em um grupo de 3 ou 4, levam todas as crianças para cima e para baixo de transporte público. E essa é uma cena bem comum, pelo menos nos ônibus que passam pela minha região.
Hoje quando chegou o 11 Jardin Bothanique das 10.57 pela minha casa, eu via MILHARES de pessoas dentro do ônibus e não entendia nada do que acontecia... quando eu entrei, eu percebi que ele estavam lotado porque as crianças estavam aos montes dentro desse ônibus. E todos os adultos, usuários normais do transporte público, se espremiam no corredor. Então estava UMA FARRA no ônibus, bagunça, barulho. E ainda por cima, a cada curva no ônibus, enquanto os adultos tropeçavam no ônibus e tentavam se equilibrar, as crianças davam risada. Após uma hora, todos os adultos, e as crianças, estavam morrendo de rir.
Entrar naquele ônibus hoje, cheio de crianças sorridentes e barulhentas, me deu outro pique para o dia e para a minha temporada aqui.

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Postei aqui no blog, como prometido, algumas fotinhos da Vieille Ville e do Carouge. Eu amo a minha vidinha em Genebra.

Carouge

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Vieille Ville

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Novidades virtuais

Fotos da semana que as minhas primas estiveram aqui:

Fotos de Chateau D'Oex:

Fotos da semana passada por aqui:

Vídeo de Paris:

Vídeo de bobeira:

Hoje estou muito cansada para contar histórias, depois eu conto mais um pouco da vida aqui.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Das coisas que causam emoção

Das coisas que eu amo:
- ônibus Bout du Monde das 19.34
- chuveiro quente do Monsieur Mariano
- cia do M. Mariano para o jantar, pela primeira vez em um mês!
- ficar bebinha de vinho em plena quarta feira, com o senhor que me aluga o quarto, e o amigo dele espanhol que veio visitar
- diplomata humilde e que dá risada das minhas piadas e que troca uma boa idéia, humana, sobre muitas coisas pouco relevantes do mundo
- sentar na mesa com a Ministra da Nicarágua, ser abraçada por ela, e chamada de "Mi Querida!". Ela não se importa com protocolos e afirmações baratas de autoridade, e vai para a ONU de sapato baixinho e vermelho.
- croissant com capuccino do Bar Serpent, no Palais des Nations. De preferência, saboreados diretamente daquelas poltronas mega confortáveis com vista para a neve e o lago.
- encontrar o delegado do Peru e o delegado da Argentina nos corredores do Palais, e ser cortejada por eles, mesmo que nesse jeito latino de beijar a mão e não olhar mais na sua cara. Mesmo assim, é bom.
- Virgin Radio France, 90,10FM de Genève
- neve, muita, de novo! Sempre é lindo e parece dos sonhos!

Das coisas que eu odeio:
- autoridade batendo porta na minha cara por eu ser estagiária
- acordar cinco e meia, pisar na neve ao longo de toda a ONU gigantesca, chegar em uma fila exclusiva de diplomatas sendo a única estagiária, estar esbaforida, sem maquiagem, e sem a finesse que lhes é peculiar (afinal, sete da matina de um dia com muita neve, como é possível manter a impecabilidade em condições desumanas??), colocar o Brasil na fila em 14, e ainda ouvir de diplomata que ficou dormindo no conforto do lar que 14 é um péssimo lugar na lista de oradores
- Casa Grande e Senzala, nessa visão de Senzala que estou tendo, mas mesmo da Casa Grande, o pior cego é o que não quer ver. Sabe como?
- injustiças e coronelismos aplicados nesse microcosmo que para mim nada mais é do que aquele choque de realidade básico. Durma com todos esses baldes de água fria, Mariana, e depois me conta o que você pensa sobre a tal da elite pensante brasileira.
- acho que da próxima vez que me incluírem no grupo da "elite pensante brasileira", vou cuspir no chão de tanto nojo.
- não sei a que ponto esse choque de realidade é bom ou a que ponto ele pode me tornar uma das pessoas mais amargas e desiludidas que eu já conheci.
- neve, muita, de novo! Caramba, já não deu de neve esse ano??

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Hors Concurs
A humanidade se tornando o maior multiplicador de desumanidades.
Quer aumentar a contradição e brincar um pouco mais com as palavras?
A humanidade se tornando o maior multiplicador de desumanidades em pleno Conselho de Direitos Humanos.
Como hoje bem disse a Tam, "nossos relacionamentos estão doentes". Mas para essas coisas, alopatia e médico não dão conta. Cadê a homeopatia de toda a humanidade?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

"Minha avó já me dizia

preu sair sem me molhar / mas a chuva é minha amiga / e eu não vou me resfriar"

OU
Tá na chuva é para se molhar.

E suas variáveis:
Tá no inferno, abraça o capeta;
Tá na lama, chafurda;
Tá na neve, congela o pé.

Enfim:
You can't always get what you want.

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Pois é.
Chegou ao nível de desespero e decepção que eu não queria que chegasse, mas chegou.
Minhas apostas nisso daqui ao longo de todo o ano passado foram muito altas para isso.
Eu ainda não consigo ver onde eu estou me desenvolvendo profissionalmente, fora algumas poucas e boas oportunidades de ouro.
Além do valor financeiro que eu precisei juntar, ano passado camelei muito, então já paguei adiantado um preço muito alto por estar aqui. Eu acreditava nisso aqui. Eu apostei mesmo, com vontade e convicção.
De novo, não custa repetir: EU ACREDITAVA NISSO AQUI.
E ainda me sinto uma sortuda de não ter precisado pedir demissão para estar aqui. Eu pediria, ano passado, se tivesse sido necessário. Não foi. Ufa, pelo menos isso, eu volto para o Brasil com o meu trabalho garantido (um fator de desespero a menos). E ano passado, para as meninas que virão nos próximos trimestres que me perguntavam se eu acho que compensaria pedir demissão, eu sempre disse que sim a elas. Hoje eu já não diria mais.
Hoje, um mês depois dessa rotininha de trabalho, estou lutando contra a correnteza para ficar feliz no meu trabalho.
E é como eu já disse: o maior benefício profissional para mim, uma vez aqui, é um emprego na ONU e uma propaganda legal do Akatu por essas bandas. Então após um mês testando o terreno e entendendo como as coisas funcionam, decidi que será só nisso os meus dois focos para os próximos e curtos tempos que tenho aqui. E vou carpintar e trabalhar para isso.
E agora, além de tudo, estou lutando contra o "fator revolta". Porque se eu deixar que ele se apodere de mim, aí sim a coisa vai ficar feia a valer.
E a que se deve o fator revolta, ó caro leitor que pergunta?
Oras, o fator revolta se deve ao grande investimento com baixíssimo retorno, ao trabalho de peão que a gente faz. O fator-revolta se deve à fazer materiais e materiais pró-forma, que todo mundo sabe que ninguém vai ler. O fator revolta se deve às inúmeras traduções que temos que fazer (porque, de fato, todo mundo aqui se matou de estudar na vida para ficar fazendo tradução para diplomata).
O fator revolta se deve, principalmente, à questão DESUMANA da fila do UPR. Nesse caso, a gente tem que ficar no meio da rua na porta da ONU desde madrugada, sob frio, neve, apenas para que o Brasil esteja bem posicionado na lista de speakers dessa reunião que "revisa" determinado país sob o ponto de vista dos direitos humanos. A desumanidade disso é comparável apenas à desumanidade da auditoria da IBM. Sete meses depois de um mês de auditoria desumana, eu descobri que não era isso que eu quero para mim e pedi demissão da IBM (óbvio, levando em conta zilhares de outras coisas).
Mas a questão é essa: trabalho voluntário, pago com suados francos suíços, não deveria passar nem perto de ser desumano. AINDA se tivesse o fator desumano mas o trabalho representasse um grande ganho sem precedentes para a minha carreira, tudo bem. Não é o caso. Mas sei que se o "fator revolta" me dominar, a coisa vai ficar preta. Por isso que hoje vim de blaser vermelho-vermelhão: para me dar energia contra o fator-revolta.

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Não posso, no entanto, ser ingrata com as coisas históricas que tenho vivido aqui.
Ontem à tarde sentei na mesa de negociação com a Ministra de Interior da Nicarágua. Nunca poderia imaginar que isso algum dia fosse acontecer. By the way, hoje e amanhã sento de novo na mesa com ela e sua trupe (óbvio que eu sou apenas uma parte da trupe brasileira, a que senta mais no cantinho, quase que caindo para fora da mesa - mas mesmo assim sou eu, lá).
Há quinze dias vi ao vivo nosso Ministro Celso Amorim discursar na Sessão Especial do Conselho de Direitos Humanos sobre o Haiti. Eu participei um pouco do desenvolvimento do discurso dele. Isso é lindo. E na hora que eu estava lá, ao vivo, vendo tudo aquilo, deu um embargo na voz, calafrios no corpo, sensação de reiki pela minha cabeça principalmente, e uma vontade louca de chorar.
Já tinha me sentido assim em algumas oportunidades em Copenhague. É assim que eu me sinto quando alguma coisa me diz que eu estou vivenciando ao vivo e a cores um momento histórico. E, é fato isso, nesses últimos meses virei colecionadora de momentos históricos. Nada mal para meus 27 anos.
E mais: tive a oportunidade de conhecer duas ilustres professoras da PUC de Direito, que participam das reuniões da ONU. Uma delas, conheci no próprio Palais (porque sou cara de pau e fui lá me apresentar) e depois a reencontrei vagando por Montreux, ela acompanhada por um namorado cinquentão gatérrimo. Conversamos um pouco à beira do lago e foi legal.
A outra, conheci domingo no café La Clèmence, quando perguntei se ela estava aqui como turista e ela disse que não, que faz parte do CEDAW da ONU. Ok, a conversa começou com uma cotovelada básica, porque ela é pessoa importante e age como tal. Mas depois eu consegui virar o jogo e ontem trocamos beijinhos no corredor do Palais, cada uma de nós indo para uma reunião, correndo, e ela foi um amor de doce de simpática. O Paulo ficou perguntando o que foi aquele sinal de intimidade todo, e eu respondi que "esperto é o pato, baby..."

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Também não posso ser ingrata com a experiência pessoal toda que estou tendo aqui.
Seria sacanagem.
Em Genève, de fato, tenho sido muito feliz e tenho crescido muito a cada dia.
Óbvio que, se fosse só pelo crescimento pessoal, talvez eu tivesse escolhido outra cidade, por tempos diferentes, e definitivamente gastando menos (porque baby, a Suíça é puro luxo, o supermercado mais barato daqui ainda assim é muito caro). MAS já que vim até aqui, então que seja bom e compense em pelo menos um dos aspectos.
Está compensando bastante no pessoal.

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Resolvi fazer compensar no meu francês também. Larguei dessa preguiça de ter conversas complexas em francês. Então eu olho para a cara do Amjr e falo: "regardez-moi. Talvez você não me entenda, mas você vai tentar me entender e vai me ajudar com o meu francês. J'irai essayer e nós vamos conseguir conversar direitinho". Ainda bem, nós temos conseguido conversar direitinho - e isso para mim é muito bom de verdade. Aí eu chego em casa e fico estudando francês, ou ligo a TV e fico ouvindo. E agora, no celular, só ouço rádios em francês que toquem preferencialmente músicas francesas. Resultado? Virei fã da música pop francesa contemporânea. Então se eu demorei um mês para sair da preguiça, tenho dois meses para ficar profissa nessa brincadeira de falar francês. Mas já percebi que esse sonho de ser poliglota algum dia é bem difícil, os nós linguísticos aqui são constantes. Porque na ONU é em inglês, com os países hermanos é em espanhol, com a Catherine eu a ensino a falar português, no escritório é fofocaiada em português e ainda por cima zuando de algumas coisas do francês, no meio da rua e com o Seu Mariano e o Amjr, em francês. Já viu, né? Maior confusão.

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Quando eu comecei esse post eu não me aguentava de revolta.
Agora já estou aliviada.
É só lembrar o quanto eu amo ma petite vie genevoise que tudo fica bem de novo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Perdu à Genève

Première Partie - Perdu au Carouge
Carouge é um bairro lindinho e encantador. Eu só conhecia de ouvir falar de seu histórico boêmio, de sua vocação artística, de seus bares de jazz. Mas ontem, fui até lá ver em pessoa.
E me perdi entre as vielas, praças secretas escondidas, praças grandes com igreja. Domingo nada acontece na cidade calvinista, mas Carouge, mesmo que inteira fechada, tinha pessoas passeando em suas ruas.
Carouge, para entender, é um pouco Palermo em Buenos Aires, um pouco Vila Madalena em São Paulo, bairro aconchegante com arte correndo na veia.
Carouge parece vilinha de interior com vitrines cosmopolitas de roupas alternativas, ateliers de cerâmica e madeira e arte contemporânea, cafés bacanas, cinema de filmes B, paredes pintadas nos prédios, pichações artísticas.
Em Carouge, eu sentei sozinha e almocei sanduíche elaboradinho de presunto cru, uma taça de vinho, e uma mousse de chocolate com amêndoas que me foi inesquecível.
Quando eu morar de verdade por aqui, acho que é em Carouge que eu quero morar. Em Carouge ou na Vieille Ville.
Deuxiême Partie - Perdu à Vieille Ville
Daí de lá peguei o tram, andei andei, e cheguei na Vieille Ville. Tarde de domingo ensolarada lota o Parc des Bations e as ruas de pedra da Vieille Ville. Nesse domingo em especial, lotou ainda mais. Como primeiro domingo do mês, teve museus com entrada gratuitas, e todos os museus ficam, em sua maioria, nesse canto da cidade.
Então de novo eu vaguei, como no Carouge, sem direção e com um objetivo muito simples - o de desfrutar o momento e apenas isso.
As ruas de pedra, os prédios antigos, tudo isso que no meu primeiro dia em Genève me pareceu tão sem graça ontem me pareceu a coisa mais fofucha e gostosa. Enfim, o centrinho histórico de Genève é lindinho. E eu visitei o museu principal da cidade, com Monet, Van Gogh, Rodin, e muitas outras coisas. Arte alimenta a alma, minha gente, e mais cego é quem não vê isso.
E então, na Vieille Ville, ponto alto da cidade (não só metaforicamente falando, fisicamente também) o vento de fim de tarde já era bem gelado e aquele solzinho que ficava fraco ia deixando de esquentar. Então quando isso aconteceu eu parei de andar e fiz algo muito tipicamente genevoise: comprei 100grs de marrons grelhados, sentei-me na praça na frente da fonte, e lá fiquei, flaneur, comendo, pensando sobre a vida, sentindo o vento gelado, vendo as pessoas.
E quando os marrons acabaram e meus dedos já doíam de gelado, entrei no café da frente. Tomei um vinho, de novo. Conheci alguém importante que trabalha na ONU. Esperei a minha amiga italiana para mais uma rodada de boas conversas.

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Esse meu domingo solitário e flaneur rendeu lindas fotos. Depois eu posto elas aqui.

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My special thanks para as minhas amigas brasileiras, que me deram um bolo TÃO gigantesco esse domingo. Foi isso que me proporcionou esses deliciosos e leves momentos sozinha. De verdade, isso não é cinismo, agradeço a essas meninas. Com elas, acho que eu não teria ido parar no Carouge.