segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Do começo, de novo

Se tudo parecia um novo começo lá no começo de dezembro, agora é um novo começo de novo.

Londres foi bárbara.

É vergonhoso que eu fique assim, tanto tempo, sem ir para lá. Fica a combinação de mim comigo mesma que dez anos sem ir para lá, de novo, é impraticável. Ridículo. Sei lá, qualquer coisa. Pode ser qualquer adjetivo, menos "possível".
Meu último dia lá, depois de sobreviver (e viver muito bem, por sinal) ao Boxing Day inglês e à Oxford St descontrolada, parecendo 25 de março no 23 de dezembro, tirei o domingo para ser um dia de museus.
Fiz uma maratona British Museum + Tate Modern, e no meio do caminho almocei em um delicioso bistrô francês na frente da St Pauls. E no final de tudo, encontrei o David - um inglês gay delicioso, fofo e querido, que trabalhou como voluntário no Akatu ano passado por um mês. Ele me levou tomar Guiness no pub perto dos Wharfs... bárbaro. À noite, jantarzinho especial na Si, só para ter orgulho dos meus amigos que resolveram se arriscar a valer aqui fora e agora vivem bem, obrigada, muito muito bem.

ps.: o British Museum é, na mesma medida, impressionante e nojento. Afinal, ele se resume a ser o maior assalto à mão armada que a humanidade já presenciou. Só isso.

Amsterdam... ah, Amsterdam...

Acho que qualquer cidade parece sem sal depois de Amsterdam. Pelo menos Genève tem parecido bastante sem sal nesses dois primeiros dias, mas disso depois o conto.
O ponto é que Amsterdam é uma loucura de cidade deliciosa, a vida é uma festa por lá.
Fiquei no apartamento de uma amiga minha da PUC que mora lá com um francês e um italiano. Bastante perto do centro, do lado da Heineken Experience e da Praça dos Museus, ótima localização.

Cheguei em uma segunda à noite, no que deu tempo só de jantar (eles tinham cozinhado para mim, FOFOS) e assistirmos a um vídeo no sofá - The Edukators, que eu sabia que precisava ver, mas que nunca tinha visto... Terça foi dia de tudo: acordar tarde (não acordei cedo em nenhum dia de Amsterdam, na verdade), alugar bibicleta, fazer passeio de barco pelos canais da cidade, e jantar com amigos da Mari. À noitão, já voltando do jantar, nosso primeiro presente de cena surreal.
Contexto: estávamos levemente embriagadas de vinho, naquele estado que eu chamo de bebinhas. Nevava muito. Saímos brincando que nem crianças pelas ruas, com a neve, vendo os flocos caírem no nariz, dando risada alto, essas coisas que se faz. Chegamos em casa e o roomate italiano da Mari estava chegando também, manobrando o carro, e disse: já estamos subindo.
Nisso, subimos para o apartamento, deixamos nossos casacos, e sentamos no sofá daaaaando risada da neve e do nosso caminho surreal de volta para casa. Foi quando justamente os italianos começaram a entrar em casa: entra um, entra dois, entra três... cada um carregando uma caixa de comida e/ou de bebida. Resumo: entraram cinco italianos, lindos maravilhosos, desses de pirar o cabeção de qualquer ser, trazendo uma fartura sem noção de tudo que se tem de mais italiano: massa, queijos, patês, azeite, vinho, doces... foi SURREAL. (eu sei que fica sem graça porque vocês não sabem o contexto da hora, mas foi realmente muito impactante essa chegada dos italianos).

Dia seguinte, mais bicicletadas pela cidade, com a delícia da chegada da Tine para se juntar à nossa trupe... à noite, nada programado, até que os italianos - sempre eles - ligaram: vamos pro bar? E quem somos nós para apresentar qualquer resistência a um convite assim? E vamo que vamo... um bar e outro e casa, mortas acabadas. Minha vontade era ter voltado cedo, afinal dia 31 é sempre dia 31, né? Pois é. Não foi possível...

Dia 31, dia de rituais e mentalizações. Decidi ir ao Museu Van Gogh pela manhã, para terminar o ano muito inspirada pela arte impressionista e impressionante desse gênio da pintura. Lá, me dei meu primeiro livro de arte da minha vida: um livro com as masterpieces do Van Gogh.
Encontrei as meninas, e fomos nos inspirar nas flores para esse ano de Vênus, de muito amor. Passeamos então pelo mercado de flores, delicioso. Lá, conforme tínhamos combinado, compramos as rosas brancas para fazer nossas oferendas para Iemanjá. Momentinho emocionante esse de fim de ano, oferenda para Iemanjá no canal de Amsterdam. Fizemos um filminho que assim que eu postar eu mando para vocês.
Voltamos para casa, correndo para o ato de emperequitar-se. A noite prometia... e prometeu.
A balada já rolava solta em casa (a ceia de Ano Novo foi lá) quando desci, arrumada, para a sala. Nisso, os italianos me proporcionaram a segunda da minhas cenas mais surreais desse fim de ano. Estavam, todos, trabalhando pela nossa ceia de ano novo. Dois, ajoelhados no chão abrindo ostra. Dois no fogão - cozinhando moluscos e fritando lula. Um, cortando morangos. Enquanto isso, a galera ao redor só na bagunça. E eu, tentando não deixar meu queixo cair, naquela cena impressionante e linda de ver.

(tipo:
homens trabalhando na cozinha já é minimamente fofo, nem que seja para lavar prato ou pegar uma cerveja na geladeira;
homens trabalhando na cozinha com pratos requintados, geralmente são meus amigos gays que curtem cozinhar pratos requintados (embora sempre tenha uma exceção ou outra, essa é a regra geral), mas quando são os héteros fazendo cozinha gourmet, já cai quase que uma lagriminha de emoção (tipo o Phitz me ensinando a fazer a receita secreta do Malabie dos Zahran, lagriminha de emoção);
cinco (sim, eu disse cinco) italianos (sim, eu disse italianos) lindos (absurdamente lindos) e super héteros, cozinhando uma ceia de ano novo (enquanto todo mundo na sala fazia bagunça) com uma comida ultra requintada que resultou em algo ultra delicioso é tão loucamente emocionante que, meu, senta e chora.)

Óbvio que vendo tudo isso, o que se vem à mente é: uhul que a noite promete. E prometeu, de fato. Saímos de casa, após comer loucamente bem, para uma festa em uma casa-barco em um dos canais. Naquele frio gélido de vento congelante, A RUA ESTAVA EM POLVOROSA. Quase uma Copacabana Amsterdamzense. Por isso que essa cidade é tudo: não se perde a chance de uma boa festa, nunca. Faça o frio que fizer, the party must go on.
Chegamos no barco e então... festa estranha com gente esquisita. Se tivéssemos ficado em casa com aquela mesma galera teria sido melhor - a galera estava no barco também, e mesmo assim a festa estava murcha. Então, embebedei-me de ponche (champagne, rum, vodka e suco de maçã) e fiquei assim, curtindo super, e achando tudo aquilo muito surreal. Terminamos a noite, eu e a Mari, PUTAS DA VIDA com os italianos que estavam nos paquerando (que acabaram beijando umas holandesas no meio da rua, para no dia seguinte eles nos falarem que somos muito legais para sermos só uma noite de reveillon, putamerda, preciso mudar esse estigma de "moça para casar" que não é a primeira vez na vida que ouço isso e isso cansa). Tentamos entrar de penetra em outra festa em uma casa, e, dado que fomos mal-sucedidas, voltamos bebinhas pelos canais e ruinhas estreitas, de bicicleta, conversando sobre a vida e o ano novo.

Dia primeiro tinha que ter ressaca, mas na verdade teve mais festa. Como ainda tinha muita massa fresca da Itália, o GianLucca resolveu cozinhar - de novo. E foi a maior galera lá em casa pro jantar - de novo. Não as 20 pessoas da noite anterior, mas 12 sim. E éramos na mesa: eu, a Mari, um francês, um alemão, e seis italianos. Tá bom ou quer mais? Nisso, chateados com o fracasso da festa na casa-barco, resolvemos comemorar de novo o ano novo. Ainda tinham sobrado fogos da noite anterior, de forma que, batata: descemos todos para a rua, cada um com a sua bebida, fizemos contagem regressiva, nos abraçamos, e estouramos os fogos. Viramos atração na vizinhança - meia noite do dia primeiro de janeiro um bando de loucos estourando um monte de fogos, de novo. Foi, mais uma vez, surreal. E dos fogos para o bar, onde dançamos loucamente, nos jogamos mesmo - todo mundo da trupe. E quando esse bar fechou, outro bar, dessa vez, de jazz - um buraco de jazz no centro de Amsterdam.
Resultado: em pleno primeiro de janeiro, dia oficial da ressaca mundial, e nós chegando bêbados em casa às seis da manhã.
Surreal.
Eu não fazia isso há MUITO tempo.

Dia dois, batata, foi dia de ressaca master. Daquelas que dá revertério pelo corpo inteiro: sai bereba no braço, encrava unha do pé, dor de garganta, de cabeça, enfim... lógico que seria assim. o corpinho reclama, e tem seu direito de reclamar, afinal das contas.
Mas mesmo assim, encontramos força para um passeio no RedLight, que eu ainda não tinha ido. Loucura aquele bairro, por sinal. Vitrine de mulheres, e elas realmente levam isso a sério, enquanto isso lá fora homens e mulheres são turistas e estão lá principalmente para assistir às bizarrices daquelas mulheres. E tem para todos os gostos: feia, bonita, gorda, magra, alta, baixa, loira, negra, brasileira, do leste europeu... E aquelas vitrines de sex shop, então??? Com as coisas mais bizarras do mundo, por dios...

Dia 03 às quatro e meia da manhã, depois de dormir quatro horas, eu entrava no táxi a caminho de Schiphol. Deixei para trás o RikjsMuseum, que eu não consegui ir, e todas as igrejas de Amsterdam - não eram muitas, mas eu consegui não entrar em nenhuma.
Em compensação, bicicletei loucamente e deliciosamente por todos os canais, e me joguei na farra de ano novo. Vive a vida de Amsterdam com quem mora lá - um jeito um pouco menos turístico, um pouco menos senso-comum de conhecer a cidade. E mais: saí de lá com uma vontade louca de chamar aquela cidade de "minha casa" em algum futuro certamente não muito distante.

Ou seja: jeito fantástico de fechar 2009.

Genève

Pode ser a ressaca de Amsterdam.
Pode ser que eu esteja com expectativas muito altas, exatamente por ter estado em uma cidade bárbara no reveillon, mas Genève é, de começo, chatinha.
Quero - e espero - que essa impressão melhore conforme eu conheça pessoas e não me sinta mais tão sozinha por aqui.

Algumas observações desse começo de temporada de Genebra:
- minha casa é o máximo, eu tenho no quarto uma TV de LCD que o Sr Mariano comprou sábado. Tenho também uma varanda maravilhosa, com vista para os alpes e pro centro da cidade. O apê é um brinco de limpo. E mais: minha cama é deliciosa, enorme, quentinha, com um travesseiro enorme. Me sinto uma rainha nesse quarto de poltrona de couro, cama grande, televisão, e varanda. É realmente muito legal.
- por mais louco que pareça, Genebra, em plena Suíça, foi a primeira cidade dessa minha estada européia que me pediram moeda no meio da rua.
- e mais: foi a primeira cidade que me senti com medo de andar sozinha na rua também, em uma hora que a rua estava deserta e vazia.
- a cidade em si, nem seu centro velho, tem nenhum charme arquitetônico. Mesmo.
- mas é uma delícia ver essa profusão de cafés por aí...
- meu francês está muito engasgado e eu tenho pagado um pouco de mico devido a isso.
- tirar as roupas da mala foi o maior alívio de 2010 até agora. Mas eu queria, muito, que duas tendências que eu estou lançando pegassem sério no mundo fashion. Assim eu deixaria de ser sem noção e passaria a ser vanguarda. São elas: "unha com esmalte escuro com detalhes especiais de textura e relevo" e "camisa à moda de um mês jogada na mala bagunçada, amarrotada".
- meu tênis, sapatênis marrom da Puma, que eu trouxe com mucho gusto ano passado da Argentina, mofou. Não me pergunte como. Nojento. Ele está todo verde e branco, com bolor mesmo. Estou deixando ele secando no aquecimento antes de ter estômago para colocar a mão nesse fungo todo.
- a comunicação aqui em casa é samba do criolo doido. Visto que o sr. Mariano percebeu que ainda estou um pouco travada no francês, ele resolveu falar comigo em sua língua natal - o italiano. Então ele me chama de signorina e eu respondo a ele monsieur. Daqui três meses devo estar fluente no francês e arranhando o italiano, se tudo for como o planejado.
- eu odeio meu gerente do banco (do Brasil).
- quero logo que comece minha rotina de trabalho loucamente. Quero encontrar pessoas, conhecer pessoas.
- a internet daqui de casa, eu roubo do vizinho. Ou seja, é uma merda, sinal fraco, inconstante, vive caindo. Ou seja, minha comunicação está realmente prejudicada. Falar no Skype: não dá. Falar no msn: só com muito atraso nas mensagens. Fazer upload de foto: nem em sonho. E de vídeo? Só em Marte. Email: rola. Blog: também, com paciência. Preciso dar um jeito nisso, mas não sei como posso dar um jeito nisso. Quando eu tiver alguma idéia brilhante, aviso vocês. Por enquanto estou chupando o dedo na vida virtual.

Clamando pela participação das pessoas

Ontem fui dormir e a cidade estava normal. Hoje acordei e ela estava super branca. Todo mundo na cidade ficou espantado: aqui geralmente não neva muito, e quando neva não dá nem tempo de ficar neve no telhado, logo derrete. Hoje não, hoje nevou loucamente, o dia inteiro, neve que fica, neve gorda, macia, leve, seca.

Ou seja:
neve em Genève, e chuva caindo abaixo com São Luis do Paraitinga e Cunha, é nóis na fita já sofrendo os avanços das mudanças climáticas.
E aí, alguém está a fim de ser parte da mudança que se precisa e se quer ver no mundo?
Copenhague está aí, recente nessa memória nossa que adora esquecer as coisas, lembrando a gente de que os nossos governantes não deram conta do recado. Se a gente, como ser humano, não der conta também, quem poderá nos defender??
ps.: meus pais, que estão hoje na Patagônia, não me deixarão mentir - lá a coisa também está braba. Em todo canto está. O pior cego é o que não quer ver.
Vamos começar 2010 diferentes?

Um comentário:

  1. ammes que delicia foi me colocar em dia com a sua vida!!! Espero que tenha muita historia pra contar de Genebra assim como teve dos outros lugares que passou...e se Genebra estiver chatinha...pega um trem no fds para outro lugar!

    saudade de vc!

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